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Estudar música não torna as crianças mais inteligentes

Pesquisa contraria ideia de que tocar instrumentos melhora habilidades cognitivas

Muitos pais inscrevem seus filhos em aulas de música por acreditar que as lições tornem os pequenos mais inteligentes. De acordo com uma pesquisa publicada nesta quarta-feira no periódico Plos One, porém, tocar um instrumento não melhora as habilidades cognitivas de uma pessoa – apesar de oferecer benefícios como aumento da criatividade, concentração e autoestima.

Estudos anteriores chegaram a indicar que estudar música melhora a cognição. No primeiro e mais famoso deles, publicado no periódico Nature, em 1993, os cientistas descobriram que, depois de ouvir música, as pessoas se saíam melhor em tarefas espaciais, como interpretação de mapas. Essa tese foi refutada em 2001, por um estudo que mostrava que ouvir música pode melhorar o humor das pessoas. “Os benefícios apontados pelo primeiro artigo deveriam ser creditados ao humor dos voluntários, não à música em si”, afirmou ao site de VEJA Samuel Mehr, doutorando da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, e autor do estudo publicado na última quarta-feira.

Depois de revisar a literatura sobre o tema, Mehr encontrou uma única pesquisa randômica – isto é, em que os voluntários são aleatoriamente divididos em grupos e depois submetidos a testes para confirmar determinada hipótese – que atribuiu um efeito positivo indiscutível da música à cognição. Após um ano de aulas musicais, houve um aumento de 2.7 pontos no QI dos voluntários – uma elevação insignificante, segundo Mehr.

Pesquisas – Mehr dividiu 29 crianças em dois grupos – quinze tiveram aulas de música, e quatorze, de artes visuais. Depois das lições, os meninos e meninas foram submetidos a testes que avaliavam capacidades como vocabulário, raciocínio matemático e habilidade espacial. Ambos os grupos tiveram resultados semelhantes nos testes de vocabulário e de matemática. As crianças que receberam lições musicais se saíram um pouco melhor em uma das duas tarefas de habilidade espacial, e as que estudaram artes visuais foram um pouco melhor na outra.

“Em vez de usar um parâmetro genérico, como um teste de QI, testamos quatro áreas específicas da cognição”, afirmou Mehr. “Se realmente houvesse um efeito positivo da música sobre a cognição, nós teríamos sido mais capazes de detectá-los do que estudos anteriores.”

Para confirmar o resultado, o pesquisador dividiu um novo grupo de 45 crianças em duas equipes: uma delas recebeu treinamento musical, e a outra não recebeu nenhum treinamento. Novamente, não houve indício significativo de que a música beneficiasse as habilidades cognitivas dos pequenos que tocaram instrumentos.

Apesar do resultado, Mehr afirma que o estudo da música deve continuar sendo incentivado. “Para mim, o benefício mais importante é simples: aulas de música aumentam os conhecimentos musicais das crianças”, disse o cientista. “Música é uma atividade antiga e unicamente humana, de um incrível significado cultural. Não é necessário justificá-la de outra maneira.”