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Dino brasileiro mais antigo explica gigantismo de animais pré-históricos

Soterrado há 225 milhões de anos no Rio Grande do Sul, fóssil possui estruturas conhecidas como sacos aéreos

Por André Julião, Agência Fapesp
19 abr 2023, 12h56

O elo perdido entre os dinossauros mais antigos, cujo tamanho variava de alguns centímetros até no máximo três metros de comprimento, e os gigantes mais recentes, que podiam ser maiores que dois ônibus e se popularizaram no imaginário coletivo, acaba de ser encontrado. O Macrocollum itaquii, soterrado há 225 milhões de anos no que hoje é o município de Agudo, no Rio Grande do Sul, é o dinossauro mais antigo estudado até hoje que possui estruturas conhecidas como sacos aéreos.

Esses espaços ocos nos ossos, ainda presentes nas aves atuais, ajudaram os dinossauros tanto a obter mais oxigênio, resfriar melhor o corpo e suportar as duras condições de seu tempo, quanto a se tornar gigantes, como o Tyrannosaurus rex e o Brachiosaurus, por exemplo. A descoberta foi publicada na revista Anatomical Record, em artigo que tem como autores principais pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) apoiados pela Fapesp.

“Os sacos aéreos tornaram os ossos menos densos, permitindo que os dinossauros pudessem superar 30 metros de comprimento”, explica Tito Aureliano, primeiro autor do estudo conduzido durante seu doutorado no Instituto de Geociências (IG) da Unicamp. “O Macrocollum, por sua vez, foi o maior de seu tempo, com cerca de três metros de comprimento, sendo que poucos milhões de anos antes os maiores dinossauros tinham em torno de um metro. Os sacos aéreos certamente facilitaram esse aumento de tamanho.”

O trabalho integra o projeto Paisagens Tafonômicas, financiado pela Fapesp e coordenado por Fresia Ricardi Branco, professora do IG-Unicamp que também assina o artigo. “Esse foi um dos primeiros dinossauros a pisar na Terra, no período Triássico. Essa adaptação possibilitou que eles crescessem e resistissem ao clima tanto daquele período como dos que vieram depois, o Jurássico e o Cretáceo. Os sacos aéreos foram uma vantagem evolutiva sobre outros grupos, como os mamíferos, permitindo aos dinossauros se diversificar mais rapidamente”, conta a pesquisadora.

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Em estudo anterior, o grupo havia mostrado que os fósseis mais antigos já encontrados não tinham evidências de sacos aéreos, o que sugere que essa característica evoluiu pelo menos três vezes de forma independente. O bípede Macrocollum é um sauropodomorfo, ancestral dos gigantes dinossauros quadrúpedes e pescoçudos.

Evolução não linear

Até a descoberta dos sacos aéreos no Macrocollum, esses espaços vazios dentro das vértebras eram conhecidos por terem duas formas possíveis. As câmaras são grandes espaços dentro dos ossos, bastante evidentes quando vistos por microtomografia, tecnologia usada no estudo que permite conhecer o interior dos fósseis sem danificá-los.

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As camelas, por sua vez, são bem menores, porém, muito mais ramificadas, gerando, na prática, o mesmo efeito das câmaras. O que os pesquisadores observaram no Macrocollum foi uma estrutura intermediária, nem tão grande nem tão pequena, ainda que ramificada. A essa nova forma de arquitetura óssea moldada por sacos aéreos propuseram o nome de protocâmaras. “A hipótese mais aceita até então era de que os sacos aéreos começaram como câmaras e evoluíram para camelas. O que estamos propondo, a partir do que vimos nesse espécime, é que, antes de todas, houve esta outra forma”, diz Aureliano.

As vértebras onde os sacos aéreos foram encontrados também mudam o que se sabia até então sobre a evolução dessas estruturas. Baseados nos fósseis examinados até então, outros grupos de pesquisa haviam proposto que os espaços ocos surgiram na região cervical apenas bem depois do período em que viveu o Macrocollum, já no início do Jurássico (190 milhões de anos atrás). Segundo essa hipótese, os sacos aéreos teriam inicialmente ocorrido apenas na região abdominal.

No entanto, o Macrocollum surpreendeu os cientistas exatamente por ter evidências claras de sacos aéreos na região cervical e na dorsal, sem sinais das estruturas na região abdominal. “É como se a evolução tivesse feito diferentes experimentos até chegar ao sistema definitivo, em que os sacos aéreos iam desde a região cervical até a cauda. Não foi um processo linear”, encerra Aureliano.

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