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Das Américas a Marte

O cientista brasileiro Ramon Perez de Paula, executivo da NASA, fala de Marte, visto pela ciência como o planeta do sistema solar mais parecido com a Terra, e compara a exploração espacial de hoje com os bandeirantes que desbravaram as Américas há 500 anos

“Não sabemos o que pode acontecer com alguém depois de 2 anos vivendo em condições mínimas de sobrevivência e longe da Terra”

“O sonho dos bandeirantes era expandir os limites das nossas fronteiras, chegar até o Pacífico… Nosso espírito não mudou desde àquela época – continua sendo desbravador, questionador e sonhador.”

Não é à toa que Marte é o planeta mais assediado pela ciência. Desde 2008, quando a espaçonave Phoenix, da Agência Espacial Norte Americana (NASA), deu por certo a existência de água congelada no planeta, há uma corrida espacial para desvendar os segredos do vizinho misterioso. Atualmente, existem seis missões ativas no planeta unindo esforços das agências espaciais americana e européia. Além disso, graças aos dados reunidos desde 1976, com a chegada da primeira missão ao planeta, o orbitador Viking, é possível estabelecer semelhanças importantes em relação a Terra que ajudarão, a longo prazo, a enviar uma missão tripulada a Marte.

Por exemplo, lá existem estações durante o ano, como invernos frios e verões quentes. O dia marciano dura apenas 39 minutos a mais que o nosso. O planeta vermelho também possui calotas de gelo nos dois pólos, nuvens, ventos, temperaturas, tempestades de poeira, vulcões e canais. Porém, ainda que existam muitas semelhanças entre os dois, Marte não é um planeta hospitaleiro. Será muito difícil dar condições para que o homem sobreviva a uma missão lá. Para se ter uma idéia, a temperatura média na superfície do planeta é de -130º C, ou seja, bem mais fria que os -89º C medidos na Antártida em 1983 – considerada a temperatura mais baixa já registrada na Terra. Além disso, ela varia tanto, que se alguém ficar de pé na superfície durante o dia, os pés ficariam mais aquecidos que a cabeça. E para tornar as coisas ainda mais difíceis, as tempestades solares das quais estamos protegidos pelo campo magnético da Terra seriam fatais a qualquer astronauta na superfície de Marte. Com a tecnologia atual, o tempo de viagem até lá é estimado entre seis meses e um ano. Isso porque a distância entre os planetas muda o tempo todo, devido a rotação de ambos em volta do sol. Mas ainda falta muito.

Ramon de Paula ao lado do Mars Science Laboratory

Ramon de Paula ao lado do Mars Science Laboratory (/)

Há 20 anos na NASA, o brasileiro Ramon Perez de Paula é um dos principais executivos da agência espacial e participa ativamente das decisões relativas às missões espaciais relacionadas com Marte. Nascido em 1952, Guaratinguetá, interior de São Paulo, passou a juventude em Pirassununga e mudou-se para os Estados Unidos quando tinha 17 anos por causa do pai, que trabalhava na Força Aérea Brasileira. Mesmo quando a missão do pai terminou, Ramon permaneceu nos Estados Unidos para concluir os estudos. Depois de cursar duas faculdades de engenharia (elétrica e nuclear) e um doutorado, ele trabalhou para a marinha americana e uma empresa particular. Em 1985, foi para o JPL, o laboratório de propulsões da NASA, e posteriormente para o quartel general da agência, em Washington.

Ramon conversou com Veja.com de um hotel nas proximidades de Washington, onde estava participando de um encontro com representantes da NASA e da European Space Agency (ESA, Agência Espacial Européia, em inglês). As cúpulas das duas agências estão escolhendo os instrumentos científicos que vão fazer parte da missão ExoMars, prevista para 2016 – um esforço conjunto para ampliar o escopo das explorações em Marte. Comparando seu trabalho com o dos bandeirantes, ele fala sobre a descoberta de gelo em Marte, as chances de encontrarmos vida no planeta, os desafios de uma missão tripulada e porque a pesquisa espacial é tão importante para a humanidade.

De quais missões o senhor participa na NASA?

Atualmente sou o que chamam de Program Executive e trabalho nas missões dentro do programa de exploração a Marte, uma delas o Mars Reconnaissance Orbiter (MRO), que começou em 2000 e foi lançada em 2005. Em operação, além do MRO, temos a missão Mars Odyssey, que teve seu lançamento em 2001. São dois orbitadores que operam em volta de Marte para observações da atmosfera e superfície do planeta. Temos também os jipes que foram lançados em 2003 e que ainda estão operando na superfície de Marte. Os dois são iguais, mas estão posicionados em lugares diferentes. Eles conseguem tirar fotos e fazer análises simples de materiais, mas não conseguem recolher amostras. Além disso, participo da missão Mars Science Laboratory (MSL), prevista para lançamento em 2011, que tem o objetivo de procurar e medir materiais orgânicos que podem ter vindo de alguma forma de vida no passado. É uma missão que está recebendo muito investimento.

A NASA possui algum plano para preparar Marte para receber os seres humanos?

Conceitos existem. Existem livros de autores famosos sobre como o ser humano poderia sobreviver em Marte. Como usar o gelo para convertê-lo em água ou utilizar o oxigênio e o hidrogênio como combustível. Existem muitas idéias e conceitos por aí, mas o que é realidade e ficção científica fica a critério de cada um. É verdade, no entanto, que muitas coisas da ficção científica viram realidade. Se não sonharmos, nunca chegaremos lá.

Que tipo de ambiente os astronautas encontrariam em Marte?

Uma das coisas que temos notado é que o planeta Marte é muito inóspito. As temperaturas variam muito do dia para a noite e existem tempestades de poeira o tempo todo. Além disso, apesar das descobertas recentes, não há água líquida em abundância. Em Marte, já sabemos que, em certas regiões, a água existe em forma de gelo abaixo de em uma fina camada do solo. Não é um lugar muito hospitaleiro, por assim dizer. Fazendo uma comparação, Marte é parecido com um deserto em que as condições climáticas mudam drasticamente em curtos espaços de tempo.

Quais passos precisamos dar antes que o homem seja enviado à Marte?

O caminho à Marte vai requerer um plano bem específico que vai incluir bastante exploração robótica – que já estamos fazendo há algumas décadas e seguiremos fazendo nos próximos anos. Depois, vai incluir o que chamamos de “Mars Sample Return“, ou seja, ir para lá, colher amostras do solo e da superfície e trazer de volta para a Terra. Isso ainda não fizemos. Aqui, elas seriam analisadas para melhor entendimento sobre as condições do planeta. Além disso, temos que desenvolver certas tecnologias de propulsão melhores que as atuais. Seria algo parecido com o que utilizamos quando o homem foi à Lua, mas melhores.

Quais são os maiores desafios enfrentados hoje para que isso se torne realidade?

O mais importante é desenvolver uma tecnologia que possa dar condições necessárias ao ser humano sobreviver a uma viagem de 22 a 26 meses. Os astronautas precisam sobreviver à viagem de ida, descer no planeta, depois sair de lá e sobreviver à volta. O combustível, por exemplo, é outro grande desafio. Levar esse combustível até Marte e trazê-lo de volta é muito complicado por causa do peso e do espaço ocupado. Além disso, é preciso ver a questão psicológica dos astronautas. Não sabemos o que pode acontecer com alguém depois de 2 anos vivendo em condições mínimas de sobrevivência e longe da Terra.

E como esses problemas podem ser resolvidos?

Provavelmente terá que ser uma missão dividida em etapas. Um foguete leva o combustível, outro leva a tripulação, comida, e assim por diante. Tudo isso terá que ser estudado. O conhecimento já temos, mas não sabemos como resolver o problema do combustível. É difícil especular porque ainda precisamos desenvolver muitas técnicas para que isso aconteça, mas a NASA está apontando nessa direção com certeza.

Até hoje, menos da metade das missões à marte tiveram sucesso. Não é um número desanimador? Como a NASA se prepara para não repetir os mesmos erros?

Tivemos duas grandes falhas em 1998 e 1999 quando perdemos duas naves, um orbitador e uma cápsula. Isso causou grandes mudanças no programa de Marte. Desde então, temos tido um nível de sucesso muito bom. Não quer dizer que estamos livres das falhas no futuro. Sempre há riscos e dificuldades em missões à Marte. Por exemplo, fazemos cálculos para prever o local de aterrissagem das naves, mas muitas coisas mudam naquele planeta. Por exemplo, nossos planos são baseados em modelos da atmosfera de lá e se alguma mudança brusca ocorrer, isso pode afetar a descida da nave, danificar algum instrumento, e assim por diante. Sempre temos grandes surpresas.

O que poderia dar errado, por exemplo?

A descida de uma nave é uma das coisas que podem dar errado. Fazemos os cálculos para essas descidas utilizando o paraquedas e uma certa densidade da atmosfera. Quando a densidade muda, ou os cálculos não estão corretos, temos que prever uma grande margem de erro para estar dentro das capacidades da nave. O problema é que a concentração de gás na atmosfera de Marte muda bastante dependendo da quantidade de vento. Se o gás estiver mais rarefeito do que prevíamos no momento da descida, o sistema de paraquedas não irá funcionar adequadamente e isso pode danificá-la com a queda.

Por que as missões a Marte só acontecem a cada 2 anos?

Porque a Terra e Marte precisam ter um alinhamento geométrico para que a cápsula chegue ao destino final com maior velocidade percorrendo a menor distância. Existe um período muito exato, chamado “janela de lançamento”, que ocorre a cada 780 dias, ou cerca de 26 meses, em que você pode lançar determinada missão para lá. É o período em que você pode mandar o foguete levando-se em conta o combustível que ele possui. Cada foguete tem uma determinada capacidade de energia e velocidade.

Quais são as chances de encontrarmos vida em Marte? E que tipo de vida seria?

A primeira coisa que temos que fazer é tentar encontrar material orgânico. Se isso acontecer, poderemos fazer mais especulações sobre que tipo de vida há em Marte. Atualmente, estamos considerando tipos de vida aqui na Terra que desenvolveram condições de sobrevivência em ambientes extremos no fundo do mar e em lugares muito quentes ou muito frios. Ou seja, é possível que haja esse tipo de vida lá, mas ainda não temos certeza. Até agora, não há nenhum indício de que Marte seja habitado dessa maneira. Porém, pensamos que pelo fato de haver água, energia, calor, luz e outros tantos complexos químicos que encontramos por aqui, é possível que exista organismos similares por lá. Mas, de novo, não temos como confirmar isso hoje.

Não há riscos de que se trouxermos material de Marte ele possa oferecer algum risco à saúde da humanidade?

Sim. Um dos aspectos mais importantes da nossa pesquisa é o que chamamos de “proteção planetária”. Não só do material que entra no planeta, mas principalmente das naves que enviamos. Todas são verificadas para termos certeza de foi feita a melhor esterilização possível e de que não há nenhuma bactéria capaz de contaminar outros ambiente. E se formos trazer objetos de outros lugares, temos que ter a preocupação de que não estamos trazendo alguma contaminação que causaria algum problema aqui na Terra.

Quais aspectos de Marte já conhecemos e podemos simular aqui na Terra?

Podemos simular as temperaturas, a pressão atmosférica e até a atmosfera. Sabemos quais gases existem na atmosfera e poderíamos simulá-la dentro de uma cápsula especial. A gravidade é um pouco mais difícil.

Em sua opinião, qual é a maior motivação da pesquisa espacial?

Uma das coisas que mais queremos saber, como seres humanos, é de onde viemos. O que significa nossa vida? Como ela foi formada? Como os planetas foram formados? Qual é a origem da nossa história? É por isso que Marte é um planeta muito importante. Sendo o planeta mais parecido com a Terra, ele provavelmente foi formado na mesma época do nosso. Porém tudo indica que teve um processo bem diferente por alguma razão que desconhecemos. E conhecendo Marte, quem sabe poderemos entender de onde os planetas vieram e de onde viemos? Essa é parte da nossa exploração.

Como o senhor enxerga o trabalho de exploração espacial?

O sonho dos bandeirantes era expandir os limites das nossas fronteiras, chegar do outro lado do pacífico. Naquela época, a cordilheira dos Andes foi um grande obstáculo. No entanto, desbravamos as florestas, os rios e os territórios inexplorados até então. Você pode aplicar o mesmo conceito ao ser humano. Nosso espírito não mudou desde àquela época – continua sendo desbravador, questionador e sonhador.

Muitas pessoas entendem que o dinheiro investido em pesquisas espaciais deveria ser direcionado a problemas enfrentados aqui na Terra, como a pobreza e desastres naturais. Como o senhor lida com isso?

E eu pergunto a elas: as expedições dos bandeirantes foram um grande desperdício? É possível que naquela época muitos portugueses diziam “Por que precisamos ir para este matagal? Qual o sentido disso?”. É a mesma coisa, é uma filosofia. Primeiro, somos exploradores, queremos conhecer outros lugares, conhecer a nossa origem. É importante entender e estudar sobre a origem da família de cada um? Quanto investimento fazemos pessoalmente para entendermos os ramos das nossas famílias e de onde elas vieram? É a mesma coisa. Queremos entender a nossa origem. Estamos aqui sozinhos? Somos o único tipo de vida nesse formato em milhões de planetas que existem no universo?

O que o senhor diria para os jovens estudantes que estão lendo essa entrevista e gostariam de trabalhar com pesquisa espacial?

A recomendação é a mesma que dei para os meus filhos. Primeiro, é preciso estudar bastante, tem que ser dedicado ao assunto, ter muita persistência e muita paciência. Tem que fazer os trabalhos da escola e tem que estudar muitas áreas diferentes. Isso se aplica não apenas à NASA, Europa ou Brasil, mas a muitas áreas técnicas e de negócios. Muitas pessoas da área científica, mais cedo ou mais tarde, vão trabalhar na área de negócios. É muito importante que você seja um aluno dedicado, que está interessado em fazer os trabalhos e estudar muito. É igualmente importante que você tenha uma mente bem aberta e olhe bastante como as diferentes áreas científicas e não-científicas se complementam. Espero que muitos jovens brasileiros procurem essa área e vão trabalhar no programa espacial brasileiro. O Brasil tem uma capacidade tremenda na área espacial com cientistas e engenheiros com grande capacidade e grande expertise em muitas áreas.