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Cubo do apocalipse: cientistas rastreiam origens da bomba atômica nazista

Mais de 600 artefatos cúbicos de urânio foram tirados da Alemanha no fim do conflito

Por Alessandro Giannini Atualizado em 3 set 2021, 09h54 - Publicado em 4 set 2021, 08h00

No dia 23 de abril de 1945, tropas americanas e britânicas adentraram a pequena cidade de Haigerloch, no sul da Alemanha. Àquela altura, o regime nazista já estava prostrado e o conflito na Europa, praticamente liquidado. Mesmo assim, os soldados ainda tinham uma missão a cumprir: encontrar o laboratório onde, segundo o serviço de Inteligência aliado, físicos alemães estavam em vias de conseguir enriquecer urânio, gerando combustível para uma arma cuja fabricação mudaria o rumo da guerra. Em uma instalação secreta, os militares acharam o reator e mais de 600 cubos de urânio, com 5 centímetros de largura cada um, que seriam recolhidos e tirados da Alemanha. Ainda hoje o paradeiro dos artefatos é uma incógnita: parte pode ter sido usada na bomba atômica americana — detonada no Deserto do Novo México em 16 de julho daquele ano e sobre Hiroshima menos de um mês depois. Outro montante estaria nas mãos de colecionadores, mas pelo menos um exemplar aparentemente foi parar no Pacific Northwest National Laboratory (PNNL), localizado no estado de Washington. Agora, os cientistas desse laboratório anunciaram um novo método para identificar a origem do urânio. O objetivo, além de comprovar a procedência do histórico cubo, é aplicar o método no rastreamento de material radioativo obtido ilegalmente e coibir seu contrabando.

Engana-se quem pensa que o esforço militar contra o Reich foi exagerado e que a Alemanha capitularia com o tempo. Entre 1938 e 1939, antes mesmo de Hitler invadir a Polônia, os químicos Otto Hahn e Fritz Strassmann descobriram o caminho para a fissão nuclear, que desprende uma quantidade enorme de energia no processo. Durante a II Guerra Mundial, quando os americanos ainda nem aventavam a ideia, cientistas alemães já estudavam maneiras de enriquecer urânio com o intento de obter a reação em cadeia que levaria à bomba atômica. Dois nomes se destacavam à época: o físico Kurt Diebner e seu colega mais famoso, Werner Heisenberg, pai da mecânica quântica e ganhador do Prêmio Nobel de Física. Heisenberg estava tão próximo de atingir seu objetivo que, até hoje, se especula se ele não teria falhado de propósito para sabotar os nazistas. Já no estertor das batalhas, a fim de se esconder do inimigo, o cientista transferiu — ou foi forçado a transferir — seu laboratório para um depósito de cerveja em Haigerloch. O reator rudimentar de Heisenberg consistia em um tanque onde o urânio, separado em cubos, era mergulhado em água pesada.

PESQUISA - A cientista Brittany Robertson e seu prêmio: a origem do urânio -
PESQUISA – A cientista Brittany Robertson e seu prêmio: a origem do urânio – Andrea Starr/PNNL/.

Quando as tropas aliadas chegaram a Haigerloch, localizaram o laboratório, os equipamentos e, é claro, os cubos. A ideia era explodir o depósito, mas um pároco da cidade convenceu o comandante americano a apenas inutilizar o local. No mesmo espaço está hoje instalado o Museu Atomkeller, que conta a história do programa nuclear alemão e exibe uma réplica do reator original. Acredita-se que, além dos cubos encontrados no laboratório de Heisenberg, outros 600 teriam sido manufaturados para Diebner. Se não forem enriquecidos, eles são apenas matéria bruta inerte — apesar de toda a lenda que os cerca. Os cientistas do PNNL ainda não podem cravar que o cubo com o qual trabalham é um dos que foram usados nas experiências de Heisenberg ou Diebner. Antes de tudo, eles precisam rastrear a origem para depois compará-lo a outros artefatos feitos na II Guerra. Só assim poderão ter certeza de quais foram utilizados no programa nazista e saber, entre outras coisas, por que o genial Heisenberg teria fracassado.

GÊNIO INDECISO - Heisenberg: o físico pode ter se autossabotado -
GÊNIO INDECISO - Heisenberg: o físico pode ter se autossabotado – profimedia.com/.

Para provar a tese, Jon Schwantes e Brittany Robertson, cientistas americanos que lideram o estudo, vão usar um método de datação que estima a idade de um objeto avaliando os produtos de decomposição encontrados nele. O cubo que está sendo estudado foi enviado ao PNNL pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos em meados dos anos 1990, mas sem informações sobre sua fonte. Os primeiros testes, realizados recentemente, evidenciam que o objeto é do mesmo período do programa nuclear nazista. Como parte de sua pesquisa, Brittany está tentando cotejar traços de elementos encontrados nas análises com amostras de minas de urânio. Caso combinem, será possível determinar de onde os nazistas extraíram o elemento. Minas na antiga Checoslováquia e no Congo eram ambas acessíveis aos nazistas naquele período.

É de fato aterrador pensar qual seria o desfecho do maior conflito mundial da história caso os nazistas tivessem herdado o trabalho de mentes tão brilhantes. Com os foguetes V2 para transportar a bomba, o mundo viveria outra realidade, talvez similar à distopia apresentada em O Homem do Castelo Alto, romance do premiado Philip K. Dick, escrito em 1962 e transformado em série de TV em 2015. É factível considerar que Heisenberg tenha falhado não por altruísmo, mas devido a um erro de cálculo, o qual, por sua vez, poderia ter sido corrigido por algum outro gênio alemão, como, por exemplo, Albert Einstein. Mas Einstein, o maior físico de todos os tempos, de origem judaica, emigrou da Alemanha após a ascensão de Hitler, em 1933 — a decisão mais sábia que tomou na vida.

Publicado em VEJA de 8 de setembro de 2021, edição nº 2754

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