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Como as emissões de carbono podem fazer a maresia desaparecer

Segundo estudo, a acidificação dos oceanos causada pelo acúmulo de gás carbônico tem alterado o aroma do mar – e algumas espécies podem não resistir

Por Da redação - Atualizado em 8 jul 2016, 19h35 - Publicado em 8 jul 2016, 16h57

Cientistas britânicos descobriram que a maresia pode desaparecer. De acordo com pesquisa publicada na última semana no periódico científico Global Change Biology, o sumiço do aroma do mar é uma das consequências menos conhecidas da acidificação dos oceanos, causada pelo acúmulo de CO2, o dióxido de carbono. Para muitas espécies de animais que dependem da identificação desse cheiro para a sobrevivência, essa alteração pode ser fatal.

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Oceanos ácidos – Tornou-se consenso entre os cientistas que o dióxido de carbono produzido pela queima de combustíveis fósseis é o responsável pelo aquecimento global. Menos conhecidos são seus efeitos nos oceanos, que absorvem boa parte do carbono produzido pela ação humana. Quando o CO2 chega aos mares, o poluente se transforma em ácido carbônico, alterando o nível de acidez da água. Nas últimas décadas, o pH dos mares vem diminuindo a um ritmo cada vez mais acelerado (quanto menor o pH, maior a acidez).

O efeito das emissões de carbono no ambiente marinho já foi medido pelos cientistas: desde o início da Revolução Industrial, o pH dos oceanos caiu de 8,2 para 8,1. Não parece muito, mas a escala do pH é feita por uma equação que utiliza logaritmos, e a pequena queda significa que os oceanos estão 30% mais ácidos agora do que há 200 anos. “Se as coisas continuarem como estão, podemos prever que os oceanos estarão 150% mais ácidos no fim deste século, com um pH que chegará a 7,7”, escreveu Mark Lorch, líder da pesquisa do Global Chance Biology ao site do britânico The Guardian.

Segundo Lorch, alguns efeitos do aumento da acidez na água para os invertebrados são conhecidos. Animais com casca apresentam dificuldades na formação das conchas, e em alguns casos, as conchas que conseguem se formar começam a dissolver-se devido à elevada acidez da água. Além disso, peixes como o peixe-palhaço, caracóis e caranguejos passam a se comportar de forma estranha em águas com menor pH (os caranguejos, por exemplo, param de cuidar de seus ovos enquanto os caracóis não se grudam em rochas e entram em mar aberto).

O que os pesquisadores perceberam é que, além dessas consequências, a elevada acidez causa alterações nas moléculas marinhas, o que leva à transformação de seu cheiro. Com isso, os animais têm dificuldades para reconhecer os aromas que representam locais familiares, fazendo com que entrem em mar aberto e se exponham a perigos. O reconhecimento de moléculas pelo cheiro também é utilizado por esses animais para rastrear predadores, comida e parceiros sexuais. Com a mudança no pH do mar, portanto, o ciclo natural de diversas espécies marinhas pode ser modificado.

Pesquisa publicada pelo periódico Science Advances nesta semana também mostra como a acidificação dos oceanos altera o funcionamento de outro importante ser vivo marinho, o fitoplâncton (microalgas que produzem 48% do oxigênio gerado no planeta). Na análise, os cientistas descrevem como a Emiliania huxleyi, uma espécie de fitoplâncton que usa o gás carbônico dissolvido no oceano para produzir conchas de calcita, um mineral que funciona como excelente coletor de carbono, tem sua capacidade de produção de conchas reduzida. Com isso, o carbono captado pelo oceano pode ser drasticamente reduzido nos próximos anos.

Catástrofe marinha – De acordo com os pesquisadores, a alteração da maresia e os efeitos nos invertebrados e micro-organismos marinhos podem ser apenas indícios das grandes transformações que o ambiente deverá sofrer se as emissões de carbono continuarem no mesmo ritmo. Em um futuro próximo, todo o ciclo vital – já que o carbono é uma das principais moléculas formadoras de vida – tende a ser alterado. “Os oceanos do futuro próximo poderão ter um cheiro muito diferente do atual e os ecossistemas marinhos talvez não tenham tempo para se adaptar a ele”, afirmou Lorch no The Guardian.

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