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Cientistas extraem DNA de Luzio, mais antigo paulista que se tem notícia

Análise genética ajuda a mapear ocupação da América do Sul e reconstituir relações entre comunidades sambaquis

Por Marília Monitchele Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 31 jul 2023, 12h00

Um estudo publicado hoje, 31, na revista Nature Ecology & Evolution, traz novidades sobre a herança genética do mais antigo esqueleto humano encontrado em São Paulo, apelidado pelos cientistas como Luzio. Análises de DNA revelam que ele fazia parte de uma população ancestral que percorreu as Américas há pelo menos 16 000 anos e deu origem a povos indígenas atuais, como os Tupi. 

Com aproximadamente 10 000 anos de idade, Luzio recebeu esse nome devido a seus traços, que se assemelhavam aos de Luzia, crânio mais antigo — cerca de 12 500 anos — encontrado no Brasil. Ambos tinham características parecidas com as dos atuais aborígenes e africanos, com traços negroides. Esses atributos abriram espaço para a hipótese de uma dupla migração, que defende que os grupos humanos de Luzio e Luzia não deixaram descendentes no continente americano e que os indígenas atuais teriam derivado de antigas populações vindas da Ásia, que migraram e aqui se estabeleceram posteriormente. Essa teoria, porém, passou a ser confrontada por estudos genéticos recentes, como o publicado hoje. 

O artigo também oferece uma explicação para um dos maiores mistérios da arqueologia: o desaparecimento das comunidades litorâneas mais antigas, construtoras dos sambaquis. Os montes são produto da deposição a longo prazo de conchas, restos de peixe, plantas, artefatos e sedimentos locais. Sabe-se que foram usados como marcadores de território, habitação e para cerimônias funerárias. No entanto, a origem e o declínio das sociedades sambaquieiras são menos claras.  

“Os sambaquis, depois das sociedades andinas, são os fenômenos demográficos pré-coloniais da América do Sul de maior expressão”, diz André Strauss, arqueólogo do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP e um dos autores do estudo. “Eram enormes sociedades que habitavam a costa brasileira entre dois e três mil anos atrás e, de repente, desapareceram. Há mais de um século os arqueólogos tentam entender o porquê disso.”

Sambaqui Ipoã Santa Catarina
Ao longo de um trecho de mais de 3.000 quilômetros na costa atlântica do Brasil, existem inúmeros sambaquis, montes de conchas e outros materiais. Sambaqui Ipoã, Santa Catarina (Ximena Suarez Villagran/Reprodução)

O estudo reconstitui o DNA de 34 indivíduos encontrados em diferentes regiões da costa brasileira, e inclui Luzio, além de outros fósseis que vieram de sambaquis e outras partes de oito sítios arqueológicos. “Esse é o primeiro trabalho a nível continental que traz novidades sobre a composição genética das populações americanas pré-coloniais”, diz Ximena Suarez Villagran, coautora do estudo. “Ele mostra que não havia grupos homogêneos, ou seja, não eram as mesmas populações que habitavam toda a costa brasileira como tradicionalmente se acreditava. Esse é um dado inédito”.  

As análises de DNA revelaram comunidades geneticamente heterogêneas com semelhanças culturais, mas com variações biológicas significativas, sobretudo entre as comunidades costeiras do sul e sudeste. Isso significa que as populações costeiras não estavam geneticamente isoladas, como se supunha inicialmente, mas se relacionavam com outras comunidades interioranas. Esse longo processo de miscigenação pode ter contribuído para as diferenças regionais de comunidades sambaquieiras. 

Quanto ao desaparecimento dessas populações, acredita-se em uma substituição gradual na cultura sambaquieira, com o declínio na construção de sambaquis e a introdução da cultura ceramista, além de mudanças ambientais na costa, que diminuíram a qualidade de vida, afetando esses grupos humanos e contribuindo para o seu colapso. 

Os dados recolhidos também estabelecem que Luzio era, de fato, um ancestral indígena, que derivou de uma única onda migratória que chegou às Américas há cerca de 16 000 anos. Seu DNA também indicou que os sambaquis fluviais se diferenciam dos sambaquis costeiros. Esta descoberta indica que houve duas migrações sambaquieiras distintas, uma para o interior e outra ao longo da costa litorânea brasileira. “Luzio é definitivamente um sambaqui fluvial que nos ajuda a contar a história de chegada e ocupação dos primeiros humanos na América do Sul”, sintetiza Thiago Ferraz, principal autor do artigo.

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