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Cérebro de idosos pode ser tão rápido quanto o de jovens em alguns aspectos

Pessoas mais velhas são mais lentas para tomar decisões porque buscam mais precisão. Se for pedido que acelerem o processo, os idosos respondem testes com a mesma velocidade dos jovens, revela estudo

O envelhecimento faz com que o corpo perca agilidade e velocidade. Atletas geralmente se aposentam mais cedo do que a maioria dos trabalhadores. Na cérebro, porém, a história é diferente. Ao contrário de músculos e articulações, o cérebro dos idosos pode se comportar como o de jovens e crianças em várias situações, como a velocidade para tomar decisões. A descoberta é importante para o estudo da neurociência e foi publicada na edição online da revista Child Development.

“A visão antiga era de que todo o processo cognitivo decaia com a idade”, explica Roger Ratcliff, psicólogo da Universidade do Estado de Ohio, nos Estados Unidos. “Mas estamos descobrindo que não existe esse declínio uniforme. Há coisas que pessoas mais velhas podem fazer tão bem quanto os jovens”, completa.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Children Are Not Like Older Adults: A Diffusion Model Analysis of Developmental Changes in Speeded Responses

Onde foi divulgada: revista Child Development

Quem fez: Roger Ratcliff, Jessica Love, Clarissa Thompson e John Opfer

Instituição: Universidade do Estado de Ohio, EUA

Dados de amostragem: 130 crianças e 72 adultos nos EUA

Resultado: Crianças pequenas resolvem problemas simples mais lentamente e com menos precisão do que adultos. Idosos têm precisão parecida com a dos jovens, mas resolvem os problemas mais lentamente porque buscam mais certeza. Se treinados, realizam os testes com a mesma velocidade dos jovens.

Os pesquisadores aplicaram em voluntários de várias idades um modelo de resolução de problemas que considera o tempo e a precisão das respostas. A maioria dos modelos usados nesse tipo de pesquisa considera apenas um desses aspectos. “Alguns estudos sobre a velhice mostram que idosos não perdem em precisão. Outros chegam à conclusão de que eles perdem em velocidade. Nós olhamos os dois cenários juntos para conciliar os resultados”, disse Ratcliff.

A equipe aplicou vários testes em crianças, adultos e idosos. Em um deles, os participantes precisavam pressionar teclas para dizer se o número de asteriscos que aparecia em uma tela de computador era pequeno (31 a 50) ou grande (51 a 70). Em outro, precisavam dizer se o grupo de letras que aparecia na tela formava ou não uma palavra em inglês.

Ratcliff e seus colegas estudam processos cognitivos e envelhecimento há mais de uma década, mas foi a pesquisa recente com crianças que fez com que eles chegassem às novas conclusões. Nos testes, as crianças pequenas têm tempos de resposta mais longos e pouca precisão. Já crianças mais velhas e adolescentes respondem mais rápido e acertam mais.

Os idosos têm nível de precisão próximo ao dos jovens, mas demoram mais para responder os problemas. Segundo os cientistas, isso não ocorre porque o cérebro processa as informações mais lentamente, mas por causa de uma análise mais detalhada, que evite erros.

“Pessoas mais velhas não querem cometer erros e isso as deixa mais lentas. Descobrimos que é difícil tirá-las desse hábito, mas é possível com a devida prática”, diz Gail McKoon, outro psicólogo da mesma universidade. Estimulados a acelerar o tempo de resposta, os idosos resolvem questões tão rápido e com a mesma precisão de jovens adultos. “Para estas tarefas simples, de tomada de decisão velocidade e precisão está intacta mesmo até aos 85, 90 anos”, afirma McKoon.

Em outros aspectos, porém, a velhice cobra seu preço. Os testes mostraram que a precisão na memória associativa diminui com o passar dos anos. Pessoas mais velhas são muito menos propensas, por exemplo, a lembrar que estudaram um par de palavras do que os jovens.

A importância do estudo é mostrar que o cérebro não envelhece de maneira uniforme, como os demais tecidos.