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Câncer transmissível é fenômeno “comum” em oceano, diz pesquisa

A descoberta, publicada na 'Nature', identificou que células cancerígenas transmissíveis estavam migrando entre 3 diferentes espécies de moluscos no mar

Por Da redação 23 jun 2016, 15h56

Pesquisadores descobriram que células cancerígenas podem se espalhar (como um vírus) entre mariscos de diferentes espécies no oceano. A descoberta, feita por uma equipe internacional de pesquisadores e publicada na última quarta-feira na revista Nature, identificou que células cancerígenas transmissíveis estavam migrando entre três diferentes tipos de mariscos no oceano. Segundo os especialistas, isso sugere que esse tipo de câncer transmissível não é tão raro quanto se pensava – pelo menos, não no fundo do mar.

Câncer – A comunidade científica classifica como raros os casos de células cancerígenas que são transmitidas de um indivíduo para outro. Isso porque o câncer se instaura no organismo a partir de uma descontrolada divisão celular que gera células anômalas. Ao se multiplicar, essas células “defeituosas” causam danos ao corpo. Dessa forma, não é comum que o câncer migre de um organismo para o outro. Até agora, esse tipo transmissível da doença era considerado algo extremamente raro, atingindo apenas cães, morcegos da Tasmânia e um molusco da espécie Mya arenaria. No entanto, o comportamento visto pelos especialistas no fundo do mar pode levantar novos pontos de vista para análises da doença.

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Os pesquisadores, liderados pelo biólogo molecular Stephen Goff, da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, identificaram quatro tipos de câncer transmissíveis que não eram previamente conhecidos. Um deles afeta um mexilhão (Mytilus trossulusencontrado na província canadense Colúmbia Britânica, dois atingem os berbigões (Cerastoderma edule) e e outro afeta espécies de amêijoas (Polititapes aureus, também conhecidas como vôngole) encontradas na costa Ibérica. Esses mariscos haviam morrido em decorrência de severos tumores.

Ao realizar análises genéticas das células que mataram os mariscos, Goff percebeu que as amostras de DNA apresentavam genética diferente de seu hospedeiro – ou seja, as células vinham de um “intruso”. Em muitos casos, a similaridade genética dos tumores era vista em outros indivíduos da mesma espécie; no entanto, um caso excepcional chamou atenção dos pesquisadores.

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No caso das amêijoas, a amostra genética das células cancerígenas não era compatível nem mesmo com a própria espécie, mas sim, outro tipo de molusco. Assim, os pesquisadores chegaram à conclusão que uma mesma célula cancerígena havia contagiado outras espécies. “Esses cânceres transmissíveis constituem uma classe distinta de agentes infecciosos e mostram uma grande habilidade dos tumores em promover sua própria propagação e sobrevivência”, afirmam os pesquisadores no estudo. “Esta é a primeira vez que vemos algo desse tipo”, afirmou Goff à Nature.

Mesmo assim, o pesquisador tranquiliza os amantes de mexilhões (ou do mar): não existe a possibilidade das células cancerígenas vistas nos mariscos serem transmitidas para humanos – seja por meio da ingestão dos mexilhões, ou por nadar no oceano. 

Novas pesquisas – De acordo com Elizabeth Murchison, pesquisadora da Universidade de Cambridge que publicou um artigo comentando a pesquisa de Goff, como essas células conseguem sair do hospedeiro e os mecanismos de transmissão do câncer ainda são questões que não estão claras.

“O potencial das células cancerígenas de se tornarem agentes infecciosos ativos levanta questões sobre as implicações transmissões de câncer entre humanos”, afirma a pesquisadora. Murchison sinaliza que casos em humanos de células cancerígenas que foram contraídas como um vírus são bastante raros e nunca se espalham para mais de um indivíduo; mas existem – ano passado foi registrado um caso de um paciente com Aids que, com o sistema imunológico fragilizado, foi infectado por células cancerígenas de uma tênia.

“Mesmo que transmissões de células cancerígenas de pessoa-para-pessoa terem sido registradas em casos de transplantes de órgãos, gravidez, tratamentos experimentais e acidentes cirúrgicos, elas são raras e nunca se estendem para além dos dois indivíduos infectados. De maneira intrigante, no entanto, a recente descoberta de células cancerígenas de uma tênia que se espalharam no corpo do indivíduo que a hospedava consolida os resultados da atual pesquisa, de que o câncer pode invadir novas espécies hospedeiras”, disse Murchison no comentário.

“A descoberta de cânceres transmissíveis que se espalham nos oceanos é um avanço excitante e abre portas para novas vias de pesquisas sobre a doença”, afirmou.

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