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Além da música, Vanzolini também marcou a ciência brasileira

Zoólogo, doutor pela Universidade Harvard — e sambista nas horas vagas —, Paulo Vanzolini publicou mais de 150 artigos científicos. Um deles, sobre a Teoria dos Refúgios, revolucionou a compreensão da evolução dos vertebrados no Brasil

Por Guilherme Rosa - Atualizado em 6 Maio 2016, 16h21 - Publicado em 29 abr 2013, 22h34

Morto no último domingo, Paulo Vanzolini se tornou conhecido nacionalmente por causa de seus sambas, que eram espécies de crônicas sobre a vida em São Paulo. Vanzolini, no entanto, não gostava de ser visto unicamente como o compositor de clássicos como Ronda e Volta por Cima. Ele não se considerava um músico, mas um cientista. Zoólogo formado na Universidade de São Paulo, com doutorado em Harvard, Vanzolini foi um dos fundadores da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e, por trinta anos, foi o diretor do Museu de Zoologia da USP. Compositor prolífico, com mais 70 canções escritas, ele só se voltava à música nas horas vagas. Vanzolini dedicava a maior parte de seu tempo ao estudo de vertebrados como répteis e anfíbios, tendo publicado mais de 150 artigos acadêmicos sobre o assunto.

Paulo Vanzolini se formou em Medicina na Universidade de São Paulo durante os anos 1940. Antes mesmo de concluir o curso, começou a trabalhar no Museu de Zoologia da Universidade, onde passou a estudar répteis – sua verdadeira paixão. Em 1949, foi para a Universidade Harvard, nos Estados Unidos, fazer pós-graduação em zoologia. Cerca de uma década depois, de volta ao Brasil, Vanzolini foi nomeado diretor do Museu, cargo que ocupou até o começo dos anos 1990. “Ele mudou radicalmente a vida da instituição. No início, a maioria dos funcionários eram médicos e veterinários. Ele percebeu a importância dos biólogos, da formação em história natural, para fazer as pesquisas de maneira mais apropriada. Ele tinha uma vocação para entender os problemas de zoologia”, diz Naercio Aquino Menezes, pesquisador do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, que foi contratado nos anos 1960 para trabalhar no Museu, durante a gestão de Vanzolini.

Um dos grandes méritos de sua direção foi ter aumentado o número de animais presentes no Museu, que passou a ter uma das maiores coleções da América Latina. A coleção de répteis e anfíbios, por exemplo, passou de 1.200 para 230.000 exemplares. “Ele tinha a consciência da importância de se coletar o maior material possível de animais para estudo, e passou a abrigar na coleção do Museu exemplares de todo o Brasil e da América do Sul. Os benefícios disso são vistos até hoje, com o grande número de pesquisas e o conhecimento da biodiversidade que essa coleção permitiu”, diz Naercio Menezes.

Refúgio – Apesar da dedicação ao Museu, Paulo Vanzolini gostava de ir campo, estudar e coletar os animais em seu habitat natural. “Ele não era zoólogo de gabinete. Organizou expedições permanentes à Amazônia, além de viajar para várias outras partes do país”, diz Naercio.

Essas viagens para a Amazônia foram essenciais para a formulação, em conjunto com outros pesquisadores, de uma tese que tornou seu nome conhecido no Brasil e no mundo: a Teoria dos Refúgios. Baseada nos trabalhos do geógrafo Aziz Ab’Saber – grande amigo do cientista – a teoria fornece uma explicação para a imensa biodiversidade encontrada na Floresta Amazônica. “Ele foi um inovador. O trabalho foi feito com base na coleta de répteis e lagartos de todo o Brasil”, diz o pesquisador Instituto de Biociências da USP.

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Segundo Vanzolini, essas espécies teriam se diferenciado durante o Pleistoceno, época geológica anterior à atual, que durou até cerca de 12.000 anos atrás. Nesse período, a região amazônica era atingida por uma sucessão imensa de períodos de seca. Quando um desses períodos atingia a região, sua vegetação se retraía, formando pequenas ilhas de floresta. Ali, as espécies que habitavam a grande mata anterior continuavam a se desenvolver e evoluir. Quando as chuvas voltavam, e a floresta se fechava novamente, as espécies que voltavam a se encontrar já não eram mais as mesmas: haviam se diferenciado com o passar do tempo.

Hoje, a teoria é contestada por uma série de outros estudos, que questionam, entre outras ideias, a época exata da diferenciação das espécies. Mas ela serviu para que os pesquisadores brasileiros começassem a pensar na evolução das espécies locais, e muitas das ideias de Vanzolini ainda são influentes entre os cientistas da área. “Esse estudo causou um grande impacto. Ele revolucionou o que se conhecia sobre origem e a evolução de vertebrados na América do Sul”, diz Naercio.

Boemia e música- Vanzolini era um pesquisador dedicado. Segundo Naercio, era comum que ele ficasse mais de 15 horas por dia no laboratório, inclusive aos finais de semana. Mas, sempre que podia, encontrava algum tempo para ir beber com os amigos nos bares de São Paulo. “Ele tinha esse lado boêmio. Muitas vezes, quando a gente ficava trabalhando até tarde, ele saía e ia direto relaxar em algum bar. Ele tinha grandes amigos na área musical, com os quais convivia principalmente à noite, como o cantor Noite Ilustrada”, diz o pesquisador.

Era nesses momentos de boemia que Vanzolini exercia seu lado de músico e compunha boa parte de suas canções. Ele costumava dizer que a música não lhe dava muito dinheiro, e que tudo que ganhava era investido no acervo de sua biblioteca particular, com 25.000 livros – doados ao Museu de Zoologia em 2008. Segundo o governo de São Paulo, o acervo tem valor estimado em 600.000 reais.

Como reconhecimento à sua contribuição científica, ele recebeu uma série de prêmios, da Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico ao prêmio da Fundação Guggenheim, em Nova Iorque. Com menos pompa, mas demonstrando o reconhecimento de seus pares, várias espécies de animais foram nomeadas em sua homenagem, como o macaco Saimiri vanzolinii, o sapo Alsodes vanzolinii e a aranha Alpaida vanzolinii.

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