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Vidas cruzadas

Polícia investiga suposta imprudência ao volante de um piloto de 19 anos que resultou na morte de uma menina de 18 anos num condomínio de luxo em São Paulo

Durante as festas natalinas, os condomínios fechados afastados das grandes cidades ficam ainda mais cheios do que nos fins de semana comuns. O Quinta da Baroneza, casario de alto padrão em Bragança Paulista, a 80 quilômetros de São Paulo, estava apinhado na véspera do Natal. No sábado 22, em torno das 14 horas, deu-­se uma tragédia. Luca Seripieri, de 19 anos, piloto profissional na categoria Porsche Império GT3, bateu com seu Mini Cooper conversível numa árvore. Além do garoto, havia outros quatro jovens no automóvel: três foram arremessados para fora do veículo, dois ficaram presos às ferragens. Com hemorragia e traumatismo craniano, Thais Marmo Novak, estudante de direito de 18 anos, foi transferida de helicóptero para o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, e morreu no dia seguinte. Luca sofreu um coágulo na cabeça, passou pela UTI, mas já não corre risco. As outras três pessoas passam bem.

Os passageiros receberam primeiros socorros em hospitais da região. A movimentação foi rápida e envolveu os médicos que têm casa no condomínio. A polícia agora investiga as causas e alinhava os desdobramentos do acidente. O carro foi removido apenas meia hora após a colisão, o que impediu a realização de perícia no local. A polícia de Bragança Paulista só foi informada sobre o acidente oito horas depois de ele ter acontecido. Advogados de Luca dizem que o Corpo de Bombeiros liberou a cena. A corporação será investigada para saber por que não cumpriu o protocolo de acionar a Polícia Civil. Há no asfalto marca forte de freada de pneu. “Solicitamos as fitas das imagens de segurança para investigar. Existe a hipótese de que o carro estivesse em alta velocidade”, diz o delegado Sandro Montanari, responsável pelo caso. Se Luca for condenado, sua pena pode variar de perda da habilitação a quatro anos de reclusão.

INVESTIGAÇÃO - Thais Marmo Novak e Luca Seripieri: análise de marca de pneu no asfalto para apurar a velocidade do carro INVESTIGAÇÃO - Thais Marmo Novak e Luca Seripieri: análise de marca de pneu no asfalto para apurar a velocidade do carro

INVESTIGAÇÃO - Thais Marmo Novak e Luca Seripieri: análise de marca de pneu no asfalto para apurar a velocidade do carro (./.)

O Quinta da Baroneza tem regra rígida quanto à velocidade em suas dependências. O limite permitido é de 30 quilômetros por hora. Há radares e guardas com o objetivo específico de fazer valer a restrição. O condômino que ultrapassar tal limite arcará com uma multa de 2 000 reais. Há outra agravante. O local do acidente fica perto da “prainha”, lago artificial com ondas e areia. No momento da batida, dezenas de crianças brincavam de skate, patinete e bicicleta pelas imediações.

Estudante do 1º ano de direito da PUC-SP, Thais foi com amigas e a irmã, Julia (também hospitalizada, mas fora de risco), passar o fim de semana na casa do pai de Luca, José Seripieri Jr., fundador da Qualicorp, administradora de planos de saúde avaliada em 4 bilhões de reais. O garoto (“um menino muito bom”, dizem amigos da família) mora entre Nova York e São Paulo e, até o mês passado, namorava Mayla Araújo, integrante do BBB 17. A Baroneza foi o local escolhido por Seripieri Jr. para se casar com a segunda mulher, a jornalista Daniela Filomeno, em 2014. Em meio aos convidados estavam Lula e Marisa Letícia, Fernando Had­dad e Ana Estela, José Serra e Gilberto Kassab. Lançado há vinte anos, o condomínio tem casas de 5 000 metros quadrados de área construída, com valor de mercado superior a 10 milhões de reais. Rubinho Barrichello e Kaká possuem residências ali.

O caseiro de Luca afirmou aos policiais que, no dia do acidente, o garoto acordou por volta das 13 horas. A família Seripieri assegura que ele não estava alcoolizado, embora alguns moradores tenham dito o contrário. Não foi feito exame toxicológico. “A família de Thais Marmo Novak foi avisada de imediato e seguiu para Bragança com o pai de Luca”, escreveram os advogados do piloto em comunicado a VEJA. Thais tinha duas irmãs. Em rede social, sua mãe, Vanessa Marmo, lamentou: “Deus resolveu levar para si parte da minha vida, do meu coração. Linda, suave, encantadora e inteligente, com certeza este mundo não era para você, meu amor”. Da tragédia fica uma lição: qualquer abuso, mesmo que seja apenas o da velocidade, é sempre perigoso.

Publicado em VEJA de 2 de janeiro de 2019, edição nº 2615