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Vida seca na cidade grande

A realidade é incontornável: pode até chover muito nas próximas semanas, mas 2015 será um ano sem água nas metrópoles do Sudeste

No Brasil, sempre que se falava de seca, a primeira imagem que vinha à mente era o chão trincado da aridez do sertão nordestino, transformada em obra-prima no romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, de 1938. “Um dia… Sim, quando as secas desaparecessem e tudo andasse direito… Seria que as secas iriam desaparecer e tudo andar certo? Não sabia (…) Livres daquele perigo, os meninos poderiam falar, perguntar, encher-se de caprichos.” Um dia, será que grandes metrópoles como São Paulo e Rio caprichosamente terão vidas secas como a de Fabiano e a de Baleia? Estamos ainda longe desse quadro, evidentemente traumático, mas a atual crise hídrica na Região Sudeste autoriza pesadelos. Há uma “força colossal da natureza”, para usar uma expressão do historiador francês Fernand Braudel, abatendo-se sobre a região.

No chamado Sistema Cantareira, que abastece a Grande São Paulo, os especialistas sempre miraram o ano de 1953 como o mais crítico, aquele em que o reservatório chegou pela primeira vez a um patamar alarmante, a apenas 39% de sua capacidade – manda a boa norma da engenharia que todo sistema deve estar preparado para qualquer evento extremo, e um pouco mais, como se tivesse um colchão de segurança. 1953 era o marco, e dava-se como certo que uma dificuldade semelhante àquela seria contornada. Mas houve o climaticamente imprevisível, e 2014 viu os reservatórios baixar à metade do que se observara em 1953 – e em 2015, apenas em janeiro, a queda é ainda maior. Do ponto de vista político, ante essa linha histórica acachapante, a ordem agora é não olhar para trás, o que não significa esquecer que houve lentidão em decisões passadas. Trata-se, emergencialmente, de resolver a escassez imediata. “É torcer pelo melhor, mas estar preparado para o pior”, diz Jerson Kelman, presidente da Sabesp, a empresa de saneamento básico de São Paulo. Se houvesse outros reservatórios, o problema estaria praticamente resolvido, mas não há. Cabe aqui um exercício hipotético, embora o “se” nunca seja muito conveniente.

Se, há uma década, uma autoridade pública sugerisse fazer novas represas, seria acusada de jogar dinheiro fora, mancomunada com empreiteiras, em detrimento de tantos problemas mais graves. Afinal, no “Sul maravilha” água sempre foi solução – nunca problema. Seria como sugerir que se construísse um estádio de beisebol no Rio de Janeiro com capacidade para 500 000 torcedores. Ante a impossibilidade de soluções definitivas a curto prazo, e como 2015 será decisivo, grandes obras serão tocadas, mas seus resultados demorarão a chegar, talvez em 2017 ou 2018. No aqui e agora, os técnicos procuram na região da Mata Atlântica, na franja da região metropolitana de São Paulo, de chuvas abundantes, rios nos quais possam ser colocadas instalações provisórias, de modo a levar água para os centros urbanos – um pouco ao modo tradicional do Nordeste. Buscam-se, também, maneiras de frear o desperdício nas tubulações e as perdas comerciais dos chamados “gatos”, além da redução consciente do consumo. A longo prazo, num período de dez anos, uma das apostas é substituir os 64 000 quilômetros de canos subterrâneos que abastecem a Grande São Paulo, com o objetivo de reduzir vazamentos. São boas iniciativas para impedir que vidas sequem.

Vidas Secas foi publicado em um período no qual sete entre dez brasileiros viviam em zonas rurais, e a grande maioria sofria com intempéries climáticas. Hoje, oito entre dez estão em centros urbanos e tudo melhorou, como o acesso à educação e a serviços de saúde. É assustador, portanto, imaginar que aquele retrato árido possa chegar às grandes cidades. A urbanização é um dado definidor de nosso tempo, e o impulso para o consumo proporcionado pelo cotidiano das metrópoles é que faz tudo mais explosivo quando algo dá errado. No Brasil, água e energia são irmãs siamesas, para o bem e para o mal, e um duplo apagão como o da semana passada é a tempestade perfeita. Em um país cuja matriz energética é essencialmente hídrica, responsável por 75% da emissão de eletricidade, faltar água é o atalho para apagar a luz.

Na semana passada, o volume de água disponível para cada habitante das duas maiores capitais do país, São Paulo e Rio, era o mesmo, proporcionalmente, que aquele que está ao alcance de quem vive no sertão. No estado paulista, onde reside um quinto da população brasileira e é produzido um terço do PIB nacional, o volume das represas pode durar apenas até março. Na sexta-feira 23, o Cantareira operava com 5,3% de capacidade, já tendo sido usados dois volumes mortos. No Rio, a reserva de Paraibuna, o principal abastecedor dos fluminenses, entrou na semana passada em seu primeiro volume morto. O nível de água dos quatro reservatórios desse sistema está em apenas 0,82% da capacidade. A Zona Oeste registra falta de água, e condomínios de luxo da Barra da Tijuca apelam para caminhões-pipa. Na favela do Terreirão, no Recreio dos Bandeirantes, as pessoas fazem fila para colocar baldes sob um cano quebrado de uma bica conhecida como “dos jacarés”. O nome se dá porque ali vivem jacarés que intimidam moradores, agora obrigados a resgatar coragem para tirar água do local. “Cheguei a escorregar enquanto enchia o balde, e um deles quase me mordeu”, relatou Juliana da Conceição Silva, grávida de sete meses, moradora do Terreirão, acompanhada de dezenas de moradores na aventura. Em Belo Horizonte, a companhia de saneamento Copasa afirmou ser necessário reduzir o consumo em 30% para evitar racionamento.

Diminuir o consumo é o caminho natural em períodos sem abundância, e os cidadãos tendem a ser mais ágeis, na mudança de comportamento, que os governos. Mas não será fácil. Um paulista, o mais afetado pela seca, usa 188 litros de água por dia – um gasto 25% menor que o da população do Rio e não muito distante do de europeus. A margem de corte domiciliar, portanto, é razoavelmente pequena. O berço da crise está em uma combinação, sempre drástica, de dois fatores. Primeiro, a imprevisibilidade da natureza: faz dois anos que chove abaixo da média, fruto de uma anormalidade climática, que muitos cientistas atribuem ao aquecimento global. A segunda razão é atávica, mais antiga que os livros de Graciliano: a falta de gerência, por vezes descaso, das autoridades.

Apesar de não ter sido possível prevê-los com precisão, o calorão e a falta de chuva não são uma total surpresa. Segundo dados da Nasa, a agência espacial americana, nove dos dez anos mais quentes já registrados ocorreram de 2000 para cá, sendo que 2014 foi o recordista. “Sabe-se que o clima será cada vez mais extremo e imprevisível”, analisa Helio Mattar, presidente do Instituto Akatu, reputada ONG de sustentabilidade. “Governos devem agir com antecipação, e a população tem de se conscientizar.” Em resumo, o único modo de lidar com a imprevisibilidade é tecer planos, e eles rarea­ram – ainda que a natureza tenha sido mais inclemente que o imaginado.

Embora o regime de restrição soe como sentença aos ouvidos brasileiros, ele é rotineiro em várias partes do mundo. “A escassez fez com que países como Israel e Japão desenvolvessem até sistemas para transformar esgoto em água potável”, diz o engenheiro e consultor Gesner Oliveira, ex-presidente da Sabesp. Mesmo sem dispor da tecnologia de ponta, os beduínos aprenderam ao longo da história a sobreviver com o mínimo de água. Nômades, vagam por desertos árabes e, quando encontram poços, armam suas tendas e abastecem gamelas. Povos como os beduínos tratam a água como ouro há milênios. O Brasil, rico em rios e lagos, não está acostumado a essa realidade. Não se trata, evidentemente, de supor que, da noite para o dia, nos tornemos beduínos, e muito menos convém tirar responsabilidade das autoridades. Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, tem sua parcela de culpa, mas agora a travessia do deserto vai exigir sacrifício individual pelo bem coletivo.

(Com reportagem de Cecília Ritto e Hugo Pernet)

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