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Universal usa igrejas para “Os Dez Mandamentos” alcançar recorde de bilheteria

Assistir ao filme da história de Moisés virou o décimo-primeiro mandamento para os fiéis da Universal. Resultado: 1,5 milhão de ingressos vendidos duas semanas antes da estreia

Parece imagem de sermão de pastor da Igreja Universal: em embate no mundo das trevas — no caso, o cinema –, Moisés está dando uma surra nos vampiros. Na semana passada, a Record Filmes, braço cinematográfico da rede de TV de propriedade da igreja do bispo Edir Macedo, anunciou que Os Dez Mandamentos havia alcançado a marca de 1,5 milhão de ingressos adquiridos na pré-venda, a maior da história do cinema brasileiro – mais do dobro do campeão até então, o terceiro episódio da saga dos bebedores de sangue, Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2 (645 000). Isso apenas doze dias depois do início das vendas e faltando quinze para a estreia em 28 de janeiro, de novo em moldes monumentais: neste primeiro momento, o filme vai ser projetado em nada menos que 1 000 salas em todo o país. Não se trata, porém, de um movimento espontâneo de espectadores – que, de resto, em grande parte, já viram esse filme, uma adaptação da novela do mesmo nome exibida pela TV Record. A multiplicação de ingressos pré-vendidos é resultado de uma intensa e bem planejada estratégica da Igreja Universal para levar o filme a bater recordes de bilheteria e ultrapassar os 100 milhões de espectadores do fenômeno Tropa de Elite 2, de 2010 (400 000 na pré-venda).

Desde o início do ano, pastores da igreja e seus auxiliares, os obreiros, em todo o país estão sendo incentivados a mobilizar os fiéis para comprar entradas para o filme. “Recebi a informação de que uma única igreja de Belo Horizonte comprou um lote de 23 000 ingressos”, diz Marcio Fraccaroli, presidente da Paris Filmes, responsável pela distribuição de Os Dez Mandamentos. Na Rede Aleluia, cadeia de rádios de propriedade da Universal, os intervalos comerciais são entremeados de depoimentos recomendando o filme. “Nós de Petrópolis estamos empenhados nessa missão. No dia 28, a cidade vai parar”, afirma uma entusiasmada obreira. Nos templos, a divulgação é aberta e a adesão rende até prêmios. Em Curitiba, uma igreja está sorteando aparelhos de TV e geladeiras entre os compradores de ingressos. Na Catedral Mundial da Fé, na Zona Norte do Rio de Janeiro, uma faixa anuncia o longa na área de circulação de fieis. “A Universal age como empresa e apresenta bons resultados, porque sua capacidade de mobilização é muito maior que a da Igreja Católica, por exemplo”, afirma o demógrafo José Eustáquio Alves, autor de pesquisas sobre grupos religiosos.

A trajetória de Moisés, culminando com a abertura do Mar Vermelho para a fuga dos escravos judeus no Egito (estendida por três capítulos), foi exibida como novela na TV Record de março a novembro do ano passado e, em alguns momentos, colocou a emissora em primeiro lugar em audiência no horário nobre. Além de cenas já mostradas, o filme promete passagens inéditas e um final diferente. “O sucesso mostra que todos gostam de assistir a esse tipo de produção, não apenas os evangélicos, mas judeus, espíritas e muçulmanos”, afirma Douglas Tavolaro, produtor-executivo do filme.

Alcançar o reino dos números astronômicos não é novidade na Igreja Universal, denominação que arrebanha 1,9 milhão de fieis no Brasil. O Templo de Salomão, inaugurado em São Paulo em 2014, é o maior do país, capaz de acomodar 10 000 pessoas. Estratégia semelhante à usada agora no filme levou a trilogia Nada a Perder, biografia do bispo Macedo assinada por Tavolaro, ao topo da lista de livros mais vendidos do Brasil entre 2014 e 2015. As igrejas compraram milhares de exemplares e fixavam metas para os pastores os revenderem à congregação, estimulando a competição. Quando as livrarias abriram as portas para o lançamento, ônibus fretados pela igreja transportavam levas de fieis que formavam filas quilométricas na porta. Em uma única tarde, a livraria chegava a comercializar 10 000 exemplares. “Havia uma obsessão de vender mais que Ágape, do padre Marcelo Rossi”, afirma um ex-diretor da editora do Nada a Perder, a Planeta. Até agora, o objetivo não foi alcançado: os três volumes da biografia do bispo venderam 5 milhões de exemplares; o livro do padre, 10 milhões.

No plano cinematográfico, o próximo projeto da Record Filmes é levar às telas a história da vida de Edir Macedo. A direção será de Alexandre Avancini, diretor de Os Dez Mandamentos e chefe da divisão de novelas da emissora, e emissários buscam uma produtora americana para colocar o projeto de pé. Falta definir o elenco – Wagner Moura, cotado para o papel principal, descartou a possibilidade. No plano político, os projetos da Universal são mais imediatos. O partido da igreja, PRB, quer eleger em 2016, de uma tacada só, o senador Marcelo Crivella, sobrinho de Macedo, e o deputado federal Celso Russomano prefeitos de Rio de Janeiro e São Paulo, respectivamente. Por enquanto, nas pesquisas eleitorais, ambos lideram as intenções de votos.