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Uma resposta à altura do desafio da pandemia

O papel das organizações não governamentais para aliviar os impactos da crise sanitária do coronavírus

Por Jair Resende* 3 fev 2021, 09h06

A pandemia exacerbou as profundas desigualdades que existem no Brasil. Afetou a todos, mas bateu muito mais forte em quem já estava em situação de vulnerabilidade. Na resposta do poder público ao coronavírus, o empenho e a dedicação das equipes técnicas de saúde se contrapõem à falta de planejamento e clareza de prioridades de certos setores políticos. Nesse cenário, as organizações não governamentais dos mais diferentes tamanhos se mobilizaram para dar uma resposta à altura do desafio e aliviar, na medida do possível, os impactos da crise sanitária.

O Brasil terminou 2020 com uma queda de 3,4% no PIB e mais de 14 milhões de desempregados, segundo o IBGE. Por outro lado, o Monitor das Doações da Associação Brasileira de Captadores de Recursos aponta que, no ano passado, foram destinados mais de 6,5 bilhões de reais para iniciativas relacionadas ao coronavírus. E a força de mobilização da sociedade civil foi decisiva também para a aprovação do auxílio emergencial.

Por atuarmos em parceria com organizações de pequeno porte que atendem diretamente o público em regiões de extrema vulnerabilidade de Campinas (SP), podemos testemunhar: em 2020, trabalhou-se como nunca. As entidades se mobilizaram na velocidade demandada pela urgência do momento, algo que o poder público não conseguiu fazer num primeiro momento por suas características intrínsecas ou por visões equivocadas, em alguns casos.

Instituições que funcionavam como opção ao contraturno escolar para crianças, por exemplo, tiveram de fechar suas portas, por causa da quarentena. Da noite para o dia, porém, começou a bater nessas mesmas portas um crescente número de famílias assoladas pelo desemprego. Sem renda e ainda sem auxílio emergencial, milhares de pessoas enfrentavam o fantasma da fome. O Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas estimou, em maio de 2020, que 14 milhões de pessoas poderiam entrar em situação de insegurança alimentar na América Latina e Caribe por causa da pandemia. Ficar indiferente não era uma opção.

Foi principalmente se apoiando umas nas outras que as organizações da sociedade civil encontraram força para lidar com a imensidão dos problemas que surgiam. O Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresa), por exemplo, passou a fazer reuniões semanais para que seus membros trocassem experiências sobre como lidar com um momento tão crítico.

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A crise gerada pelo coronavírus não afetou apenas as populações vulneráveis atendidas pela sociedade civil. Atingiu também a própria sustentabilidade das instituições. Em junho de 2020, a Fundação FEAC fez a pesquisa “Impacto da Pandemia nas OSC de Campinas”, da qual participaram 66 organizações de territórios vulneráveis da cidade paulista, parceiras da Fundação. O resultado foi alarmante. 52% delas disseram ter havido redução nas doações individuais.

Se parece contraditória a queda de receita diante de uma onda tão grande de solidariedade, devemos lembrar que a realidade é que a maioria das organizações é de pequeno porte, muitas vezes tocadas por voluntários, e dependem também de estratégias de captação como bazares, festas e bingos, que não puderam ser realizados por causa da Covid-19. E a mesma pesquisa apontou que 55% tiveram redução drástica de recursos dessas fontes.

Chegamos a 2021 com a pandemia tão forte quanto em seus primeiros meses. E a sociedade civil? Esta sofreu muito no ano passado. Seus colaboradores adoeceram, perderam receitas e viram as demandas sociais aumentarem. Mas não se vislumbra até agora a mesma onda de solidariedade e de urgência que gerou aqueles 6,5 bilhões de reais em doações.

Assim como na primeira onda, no entanto, ficar indiferente não é uma opção.

* Jair Resende atua há mais de 30 anos no terceiro setor, e tem experiência em ONGs, Institutos Empresariais e Fundações. É mestre em Economia do Desenvolvimento pela Università degli Studi di Milano e acumula experiências de trabalho no Brasil, na América Latina e na África. Atualmente é Superintendente Socioeducativo na Fundação FEAC.

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