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Suzane, Sandra e o jogo de sobrevivência na cadeia

Muito mais do que um romance, casamento expõe a intrincada rede de alianças por poder e proteção dentro de um presídio. Em Tremembé, alianças são vitais

Enquanto assistia à cerimônia de casamento de duas presas, celebrado por um juiz de paz na Penitenciária Feminina I de Tremembé, há cerca de 15 dias, Suzane Richthofen deu uma declaração pouco romântica. Perguntada se desejava se casar com Sandra Regina Ruiz Gomes, condenada a 24 anos pelo sequestro seguido de morte de um garoto de 14 anos, afirmou: “Não quero me casar não”. Suzane se relaciona com ‘Sandrão’ há pelo menos dois anos – e desde setembro vive com a parceira em uma cela especial, destinada às presas casadas. Mas a relação foi formalizada apenas por meio de um documento de reconhecimento de relacionamento afetivo, exigido pela administração do local. A resposta da jovem condenada pela morte dos pais é um indício de como as relações amorosas estabelecidas dentro da prisão são bem diferentes das mantidas fora das grades. Embora sejam muitos os pares formados por presas em Tremembé, são poucas as que celebram a união. Mais do que um vínculo afetivo, o namoro entre presas faz parte da dinâmica do encarceramento, em que detentas mais influentes emprestam seu capital de liderança à companheira escolhida – e tiram proveito do relacionamento para obter benefícios, como ocupar as celas maiores, destinadas somente às casadas. Atualmente, no presídio de Tremembé, a cela das casadas na ala das condenadas por crimes hediondos é dividida por Suzane, Sandra e mais sete casais. De acordo com a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), a prisão feminina de Tremembé abriga 212 detentas.

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Sandra, também chamada de Sandrão, não foi escolhida à toa por Suzane. Chefe de cela quando ainda não vivia na parte destinada às casadas, a sequestradora tem papel de liderança reforçado por alguns fatores: está há bastante tempo presa – foi condenada em novembro de 2005 – e é disputada pelas demais presas. Seus olhos claros, seu porte de rapagão e a simpatia são atributos que despertam paixões. Sandrão se recusa a usar calcinhas e, como é proibido entrar cueca na cadeia feminina, usa shorts no lugar da roupa íntima. Líder e popular, Sandra só se relaciona com “celebridades”, como a ex-namorada Elize Matsunaga, condenada por assassinar e esquartejar o marido, Marcos Matsunaga. O fim do relacionamento com Elize foi natural e não houve brigas. “Não era para dar certo”, costuma dizer Elize sobre a separação. A liderança de Sandra é reforçada pela fama de agressiva que adquiriu após perder o direito a progressão para o regime semiaberto em fevereiro de 2011, ao agredir um agente penitenciário no Centro de Ressocialização Feminino de São José dos Campos, no interior de São Paulo.

Nas prisões femininas, são comuns os romances homossexuais circunstanciais. Primeiro, porque as presas, ao contrário dos condenados do sexo masculino, com frequência são abandonadas pela família e recebem poucas visitas. Suzane e Sandrão nunca recebem ninguém, nem nas festas de fim de ano. A vulnerabilidade emocional é reforçada pelas constantes ameaças físicas, mais intensas contra mulheres jovens, bonitas e recém-chegadas. Cerca de 59% das mulheres encarceradas têm menos de 29 anos e a maioria não tem histórico criminal – 55% delas estão na cadeia por tráfico de drogas. Relações sexuais não são consentidas pela direção do presídio, mas acontecem, sempre camufladas por lençóis e toalhas penduradas nos beliches dentro das celas. “Não é só a carência afetiva, personalidades com doença de caráter são altamente manipuladoras e por isso se aliam dentro da prisão”, diz o psiquiatra forense Guido Palomba.

Assim que uma presa entra no sistema penitenciário, é obrigada, de uma forma ou de outra, a formar alianças de poder. E percebe essa urgência já nas primeiras refeições. Há presídios em que as recém-chegadas são obrigadas a dar suas sobremesas à líder, como uma forma de garantir que não serão violentadas ou agredidas. “As alianças de poder são importantes para as presas manterem sua integridade física e um mínimo de tranquilidade durante a pena”, diz Adriana Nunes Martorelli, presidente da Comissão de Política Criminal e Penitenciária da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB/SP) e membro do Conselho Penitenciário do Estado de São Paulo.

A própria Suzane passou por maus bocados quando chegou a Tremembé, em 2007, transferida da Penitenciária Feminina de Ribeirão Preto, onde recebia ameaças de morte. Em Tremembé, as presas são divididas pelo tipo de crime cometido. Mas a ala de crimes hediondos era pouco habitada quando Suzane chegou ao local. Dessa forma, dividia espaço com detentas condenadas por crimes variados. Em represália por ter matado os pais, era obrigada a comer alimentos nos quais as outras presas cuspiam.

Geralmente, a hierarquia dentro dos presídios é definida pelo cargo ocupado pelos presos nas facções criminosas das quais fazem parte. Apesar de a Penitenciária Feminina I de Tremembé não abrigar membros de facções criminosas, lá cumprem pena mulheres de líderes do Primeiro Comando da Capital (PCC), que seguem o código de conduta da facção. Matar os pais ou crianças é algo inaceitável para esses bandidos: quem comete esse tipo de crime é constantemente ameaçado dentro da cadeia. Na gíria da prisão, Suzane e Ana Carolina Jatobá, condenada pelo assassinato da menina Isabela, são “coisas”, presas inimigas da facção criminosa.

Depois de mais de sete anos presa, Suzane tem conseguido se manter a salvo em Tremembé. A possibilidade de ir para o Centro de Ressocialização Feminino de São José dos Campos, no interior de São Paulo, onde vivem integrantes do crime organizado, foi um dos motivos que a fez desistir de aceitar a progressão de sua pena para o regime semiaberto, em agosto. Um mês depois, ela assinou o termo de compromisso com Sandrão. Mais do que a paixão, foi a constante preocupação com a integridade física que manteve Suzane em Tremembé.

Em breve, porém, Suzane poderá ter de encontrar outro ponto de apoio para manter a liderança na cadeia. Sandrão pode voltar ao regime semiaberto: seu pedido de progressão de pena foi registrado na Vara de Execuções Criminais de Taubaté no início de setembro. Como sua pena é alta, ela foi submetida a um exame criminológico para avaliar sua periculosidade. Agora, falta só a decisão do juiz de execuções penais.