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Serra a VEJA: ‘Quero debater a cidade, não especular sobre 2014’

Candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo diz que pretende tornar a cidade "mais acolhedora", defende a gestão de Gilberto Kassab e afirma que o PT se tornou um partido especialista em "se apropriar da máquina do estado"

Por Carolina Freitas Atualizado em 10 dez 2018, 10h54 - Publicado em 19 jul 2012, 13h30

José Serra disputa a prefeitura da maior cidade do país, mas não consegue se desvencilhar da imagem de presidenciável. A sina tanto pode ser um trunfo quanto um fardo para a campanha do tucano. Em entrevista ao site de VEJA, o ex-prefeito, ex-governador e duas vezes candidato a presidente José Serra não discutiu o cenário eleitoral para 2014 e prometeu, caso eleito, cumprir “plenamente” seu mandato de prefeito. “Eu quero debater a cidade, não especular sobre 2014”, disse Serra. “Sou candidato a prefeito para exercer plenamente o meu mandato, mas não vou me aposentar da vida pública, ainda tenho muitos anos pela frente.” O candidato tucano diz que o impacto de eleições municipais sobre o pleito nacional seguinte é sempre incerto, mas acredita que a disputa em São Paulo tem um significado político que transcende a esfera local: “Um problema que atrapalha o desenvolvimento da democracia brasileira é a apropriação do estado por um partido. O PT é especialista nisso. Para a democracia brasileira, é importante que São Paulo não entre nessa esfera de manipulação”. Coligado ao PSD, do prefeito Gilberto Kassab, o candidato disse não ver problemas em associar sua imagem à do prefeito – que está com a popularidade em baixa. Segundo a última pesquisa Datafolha, apenas 24% dos paulistanos avalia a gestão Kassab como boa ou ótima. Na entrevista concedida ao site de VEJA, Serra falou ainda sobre suas propostas para a cidade e sobre as divergências internas do PSDB. O que motiva o senhor a disputar a prefeitura de São Paulo? Meu amor pela cidade, minha vocação para atuar na vida pública e as circunstâncias políticas. É muito importante em São Paulo ter uma prefeitura afinada com o governo do estado, que prossiga programas, mantenha a situação financeira em bom estado e continue a impulsionar São Paulo para frente. Como foi o processo de tomada de decisão para disputar a prefeitura? É sempre uma questão de meditação. É mais um processo interior do que de ouvir opiniões aqui ou acolá, embora a gente acabe ouvindo, porque as pessoas vêm e dão opinião mesmo que você não peça. É uma decisão que aparece em um determinado momento. O senhor é apontado como favorito. Concorda com essa avaliação? Hoje, pelas pesquisas, sim, mas pesquisa não ganha eleição. A primeira condição para ganhar é não achar que já ganhou. Você tem de dar a batalha até o último dia. O resultado de São Paulo influencia as eleições presidenciais de 2014? Sempre tem algum reflexo, mas não é algo unívoco. Depende do que acontecer com o Brasil. Por exemplo, Erundina ganhou em São Paulo em 1988. No ano seguinte, Lula foi o quarto colocado em São Paulo na eleição presidencial. Ou seja, a vitória do PT, ao invés de ajudar, acabou prejudicando. Às vezes ajuda, às vezes atrapalha. O senhor disse no primeiro dia de campanha que a vitória do PSDB em São Paulo firmaria a democracia no Brasil. Por quê? Um problema que atrapalha o desenvolvimento da democracia brasileira é a apropriação do estado por um partido. É um novo tipo de patrimonialismo, o patrimonialismo bolchevique e sindical. Você pega o estado para si e usa a seu bel prazer. O PT é especialista nisso. Só falta a eles São Paulo, a capital ou o estado. Para a democracia brasileira, é importante que São Paulo não entre nessa esfera de manipulação. O ex-presidente Lula tem colocado muita energia na campanha deste ano em São Paulo. Como o senhor vai fazer frente a essa força? Nada especial. É um direito dele. Ele já se posicionou em eleições anteriores. Em 2004, quando eu fui eleito prefeito, ele apoiou a Marta Suplicy. Em 2006, quando eu fui eleito governador no primeiro turno, ele apoiou Aloizio Mercadante – foi a época em que eles fizeram o Dossiê dos Aloprados. Em 2010, ele apoiou a Dilma, mas em São Paulo eu ganhei, na capital e no estado. Faz parte da democracia. Eu não sou contra Lula nem ninguém participar. É normal. O senhor acha que o fato de o julgamento do mensalão ser em agosto influenciará no debate eleitoral? Não sei. Alguma influência vai ter. De que natureza? Não sei. Tenho muita curiosidade, mas vamos ter de aguardar para ver. Por que o senhor resolveu aceitar o apoio do PR, de Valdemar Costa Neto, réu do processo do mensalão? Porque o PR participa da prefeitura, apoia o governo do estado e não fez exigências de natureza doutrinária ou de cargos. Não vi nada de especial em aceitar esse apoio. Levantamento feito pelo Ibope mostrou que seis em cada dez paulistanos mudariam de cidade se pudesse. O que o poder público pode fazer para melhorar a autoestima da cidade? O fato é que continua vindo gente para cá, de altos executivos a trabalhadores. As pessoas amam a cidade. Ela poderia ser mais acolhedora, mas é uma cidade dinâmica, de trabalho. O que temos de fazer é melhorar as condições ambientais de vida: transporte, serviços públicos, tornar a cidade mais amistosa. Esse é meu propósito fundamental como prefeito. Pesquisa do Datafolha de junho mostra que, para a população, o maior problema da cidade é a saúde pública. Que proposta o senhor tem para essa área? Melhoramos muito a saúde, mas fica coisa por fazer. Hoje temos, por exemplo, um problema de marcação de consulta que não se justifica. Vejamos o caso das ressonâncias magnéticas. São Paulo, segundo critérios do Ministério da Saúde, tem de ter um aparelho de ressonância para cada 400.000 habitantes. São Paulo precisaria ter uns 27, do SUS. Já tem. De repente tem fila para a ressonância. Isso decorre de falta de organização. Temos de fazer uma gestão integrada em São Paulo, da prefeitura, estado e setores da área privada. Kassab não deve conseguir entregar os hospitais que prometeu. O senhor vai conclui-los em que prazo se eleito? As obras estão em andamento e terminam até o fim do ano com toda a certeza. Se o senhor tivesse de escolher um único projeto para realizar na cidade, qual seria? Como governador, expandi de 20 para 45 o número de escolas técnicas no estado. O número de alunos mais que duplicou na capital. Na prefeitura, eu vou criar o sistema municipal do ensino técnico e profissional, para jogar em tabelinha com o estado, e nós vamos também duplicar o número de alunos atendidos. A gestão Kassab tem apenas 24% de avaliação como “bom e ótimo” segundo a última pesquisa Datafolha. O prefeito vai subir ao seu palanque? Kassab fez uma boa prefeitura e tem avanços em muitas áreas: Cidade Limpa, urbanização de favelas, Virada Esportiva, Virada Cultural, participação com recursos para o Metrô. Ele tem uma folha de serviços boa, agora, paralelamente ele criou um partido. Ele está cuidando da cidade, mas diversificou. A questão política deu a impressão de que ele poderia estar prestando menos atenção à cidade, o que não é fato. Eu acho que ao longo do tempo, essa avaliação vai tender a melhorar. Ele vai ser um dos apoios que eu tenho, como eu tenho vários outros. Incomoda o fato de seu principal aliado, o PSD, apoiar também o PT em Belo Horizonte? Mas por que incomodaria? Nem isso, nem o contrário. Não é um assunto que me concerne. Em São Paulo o PT e o PSB estão juntos, não estão comigo. Para mim o que eles façam em Belo Horizonte é assunto deles. Lá estão brigando, mas aqui estão contra mim. Isso é Brasil. Alguns tucanos, como o secretário estadual de Energia José Aníbal, criticam o fato de a campanha dar muito espaço ao PSD. Essa crítica procede? Não, não. Isso é tititi, é fofoquinha. É fofoquinha menor que não merece ser tratada com seriedade. Não tem sentido. O senhor acredita que o PSD vai estar aliado ao PSDB nas eleições de 2014? Não tenho a menor ideia. O senhor sente que o PSDB vai chegar unido a 2014? Eu não vou falar sobre 2014. Eu sou candidato a prefeito, eu quero debater a cidade, não especular sobre 2014. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse na semana passada que os partidos brasileiros se tornaram “apenas siglas”. O senhor concorda com essa avaliação? Os partidos têm ficado cada vez mais fracos, pela manipulação do aparelho do estado em função da política conjuntural e eleitoral, na qual o PT é especialista. Isso fragiliza todo mundo, inclusive eles próprios. O aparelho de estado do Executivo está dedicado à manipulação de natureza eleitoral. É uma doença do sistema político brasileiro. O senhor disse, ao anunciar sua candidatura neste ano, que o sonho da presidência está adormecido. Que condições o fariam reavivar esse sonho? Como é que eu posso prever? Eu sou candidato a prefeito para exercer plenamente o meu mandato, mas não vou me aposentar da vida pública, ainda tenho muitos anos pela frente.

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