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Retórica de guerra

'1964 — O Brasil entre Armas e Livros' até faz críticas à ditadura e condena a tortura — mas dá amparo teórico à atitude beligerante do governo Bolsonaro

Ainda não foi devidamente discutido o documentário 1964 — O Brasil entre Armas e Livros. No entanto, o filme da Brasil Paralelo — produtora de conteúdo que já alcançou 20 milhões de espectadores e cuja orientação é conservadora — é importante, pois ajuda a decifrar a esfinge que ameaça a inteligência de muitos: o caráter bélico do governo de Jair Messias Bolsonaro. Por que, após 100 dias de exercício do poder, a insistência numa retórica agônica, definidora de campanhas eleitorais, mas que o bom-senso recomenda abandonar logo após o resultado do pleito? Afinal, além de navegar, governar é preciso. A resposta encontra-se no documentário; mais precisamente em seu subtítulo.

Eis a premissa que organiza o filme: a história brasileira só se torna inteligível quando inserida no contexto internacional. Tal moldura favorece a explicação de processos complexos por meio de teorias conspiratórias. Desse modo, a compreensão do golpe de março de 1964 exige a reconstrução das circunstâncias da Guerra Fria. Esta, por sua vez, demanda um recuo estratégico à Revolução de Outubro de 1917. Assim, o momento “armas” é entendido no seio de uma disputa planetária que opôs soviéticos a americanos. Na narração do filme: “Os Estados Unidos protegem as Américas do comunismo”.

Procedimento idêntico retorna no instante “livros”, próximo ao fim do documentário. Na narrativa apresentada, o triunfo paradoxal da esquerda brasileira, militarmente derrotada, mas vitoriosa no campo da cultura, foi mais uma vez gestado no âmbito de um movimento internacional. Agora, tratava­-se das rebeliões estudantis de 1968 e das consequências da contracultura, instrumentalizadas por um avatar da perfídia comunista: entra em cena o espectro do “marxismo cultural”.

Um passo atrás para discutir os eixos narrativos do filme. O plural se impõe, pois a complexidade de sua articulação não foi ainda debatida. Há pelo menos cinco ou seis gradações que convergem numa interpretação global do período 1964-1985. Tal interpretação favorece o modelo da guerra cultural infelizmente em curso e que, se levado adiante, provocará uma ruptura inédita e provavelmente conduzirá à paralisia de áreas essenciais da administração pública — exatamente o que ocorreu de forma dramática com o MEC, o mais importante ministério da República.

Vamos lá. Eixo inicial, tal como proposto pelos realizadores do filme: o movimento militar de 1964 foi o resultado de uma demanda civil pela restauração da ordem pública diante da ameaça de implantação de uma ditadura comunista no país. Portanto, em lugar de golpe, destaca-se a ideia de revolução ou de contrarrevolução. Segundo e terceiro momentos: a linha dura do Exército meteu os pés pelas mãos ao não realizar as eleições em 1965, prorrogando o mandato do marechal Castelo Branco até 1967. A ascensão do marechal Artur da Costa e Silva e sobretudo a promulgação do AI-5 são vistas como aspectos francamente negativos. Aqui, realiza-se uma clara crítica ao regime militar. Vale reconhecer: o documentário não apoia a ditadura e condena explicitamente a tortura.

Quarto instante: a ditadura, especialmente durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici, cometeu um erro estratégico fundamental, que apenas foi ampliado no quinto momento, constituído pelo processo de abertura dos governos Geisel e Figueiredo. Dessa interpretação se alimenta a guerra cultural açulada pelo grupo bolsonarista menos comprometido com a governabilidade: os militares se contentaram em derrotar a esquerda militarmente, porém não se ocuparam em inviabilizá-la culturalmente. Chegamos ao sexto e último instante narrativo — e essa simples enumeração revela a sofisticação da forma (muito embora o conteúdo seja dominado por um maniqueísmo constrangedor): o campo da esquerda assimilou a derrota da guerrilha armada por meio da importação de uma conspiração de proporções planetárias — o marxismo cultural, através do estudo da obra do italiano Antonio Gramsci.

“Urgente é reverter a trágica situação do Ministério da Educação. Urgente é retomar o diálogo, em lugar de alimentar o desejo de eliminação do outro”

Voltamos ao subtítulo: O Brasil entre Armas e Livros. A ditadura triunfou no território das armas, mas, sem um entendimento apurado da dinâmica das forças mundiais nas décadas de 60 e 70, cedeu terreno na área da cultura, o que se revelou um erro decisivo. Por isso, a corrente cultural do bolsonarismo — denominá-la ideológica não é preciso, uma vez que nenhuma corrente política pode deixar de sê­-lo — considera que o triunfo eleitoral importa muito menos do que a razia prometida nas instituições de ensino, no mundo do entretenimento, na esfera pública como um todo, aí incluindo especialmente a mídia. Nesse sentido, recorda as revoluções fundamentalistas que se interessam muito pouco pela administração da coisa pública e, pelo contrário, se imiscuem indiscretamente em todos os domínios da esfera privada. E isso com base numa interpretação delirante do “marxismo cultural”.

Eis o que se afirma, com uma trilha sonora sombria: “O fundador do Partido Comunista Italiano passa a escrever os Cadernos do Cárcere, onde relata que a estratégia marxista deve ocorrer no meio cultural, destruindo todos os valores, a moral, a religião e a família”. Esqueçamos a redação pouco elegante — “onde relata que” — e concentremo-nos na manipulação de dados. Gramsci não “passou a escrever” os Cadernos do Cárcere espontaneamente: ele foi encarcerado de 1926 a 1934, e faleceu três anos depois, em razão das condições a que foi submetido na prisão. Confundir o conceito e a prática de hegemonia com a “destruição” acima de tudo e de todos é, do ponto de vista filosófico, o mesmo que imaginar que um colar de palavrões equivale a uma argumentação de peso. Somente mais um exemplo: o filme denomina a mais importante organização da guerrilha no Brasil, a ALN, fundada por Carlos Marighella, de Aliança Libertadora Nacional, em lugar do correto Ação Libertadora Nacional! Trata-se de confusão escolar com a Aliança Nacional Libertadora, frente política atuante nos anos 1930. Erros similares pontuam todo o documentário, evidenciando um amadorismo surpreendente em questões básicas de metodologia.

Associar cultura com guerra já não é uma deformação sintomática do estado crítico a que chegamos? Não precisamos de guerra cultural! Urgente é reverter a trágica situação do Ministério da Educação, paralisado por estultices muitas e inépcias várias. Urgente é retomar o diálogo, em lugar de alimentar o desejo de eliminação do outro.

* João Cezar de Castro Rocha é professor da Uerj e colunista de VEJA

Publicado em VEJA de 17 de abril de 2019, edição nº 2630

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