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Relatório da Kroll expõe caixa-preta do Cruzeiro

Documento detalha pagamentos suspeitos envolvendo familiares, amigos e despesas pessoais de ex-dirigentes do clube mineiro

Por Thiago Bronzatto - Atualizado em 14 set 2020, 09h39 - Publicado em 13 set 2020, 12h25

O Cruzeiro vive a pior crise de sua história. Após cair para a série B do Campeonato Brasileiro, a equipe vem sofrendo sucessivas derrotas nesta temporada e agora flerta com a zona do rebaixamento à terceira divisão. Mas não é só dentro de campo que o time enfrenta uma situação dramática. A má gestão de seus ex-dirigentes se tornou um caso de polícia, com suspeita de desvio de dinheiro. A situação do clube poderá se agravar ainda mais nos próximos meses. VEJA teve acesso à íntegra de um relatório sigiloso produzido pela empresa de investigação Kroll sobre transações irregulares envolvendo o Cruzeiro entre os anos de 2017 e 2019. O material, encaminhado ao Ministério Público e à Polícia Civil de Minas Gerais, revela os detalhes da caixa-preta do clube.

As apurações envolveram a análise de 795 documentos, 1 116 operações financeiras, 803 comunicações eletrônicas e o mapeamento de 645 pessoas que tinham relações com ex-diretores, empresários e ex-jogadores da equipe. Nesse pente-fino, foram descobertos 39,3 milhões de reais em pagamentos suspeitos. Uma parte desses valores, 14,5 milhões de reais, foi destinada a empresas vinculadas a ex-diretores, seus familiares e conselheiros. Entre os beneficiados, segundo a Kroll, estão “empresas em nome de esposas de dirigentes”. Outra parte, de 13,2 milhões de reais, foi repassada em comissões para intermediários em negociações de jogadores, que não possuíam cadastros na CBF, o que é vedado pelo regulamento nacional de registro e transferência de atletas de futebol. Além disso, foram transferidos 2,1 milhões de reais para consultorias jurídica, tributária e de engenharia, “com descritivo genérico de atividades e sem comprovação de serviços prestados”.

Ao longo da investigação, a Kroll descobriu, por exemplo, que o Cruzeiro assinou um contrato de 1,2 milhão de reais com uma empresa que teria ligações com a companheira de um ex-dirigente. Outros repasses suspeitos identificados envolveram um atleta de 13 anos de idade. Para manter em sua categoria de base o jovem talento, o clube assinou um contrato de 102 961 reais com uma consultoria esportiva cujos sócios são os pais do garoto. Além disso, o pai do jogador foi contratado como “assessor da vice-presidência”, com salário bruto de 15 000 reais. Essas transações, segundo a Kroll, seriam uma forma de burlar a Lei Pelé, que veda a remuneração de atletas menores de idade.

Além disso, foram identificados pagamentos de faturas de cartão de crédito corporativo de 1 milhão de reais — que, segundo a Kroll, não eram “condizentes com atividades regulares de representação do clube”. Há casos de gastos com casa noturna de entretenimento adulto, resorts, clínica de estética, supermercados, lojas de terno, aquisição de eletroeletrônicos e calçados. As despesas com salários também deram um salto significativo de 50% entre 2018 e 2019. Esse é um exemplo de como os desembolsos da equipe celeste passaram de 770 milhões de reais, em 2018, para 1,1 bilhão de reais.

Essas e outras informações estão sendo analisadas pelo Ministério Público e pela Polícia Civil de Minas Gerais, que apuram suspeitas de lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e formação de organização criminosa. “Estamos cooperando com as autoridades, fornecendo todos documentos solicitados, e entramos com quatros ações, pedindo o bloqueio de valores de ex-dirigentes”, diz Sérgio Santos Rodrigues, presidente do Cruzeiro.

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