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Por dentro da Estação Comandante Ferraz

Vinte anos depois de inaugurada, a base conta com alojamento, biblioteca, cozinha, centro cirúrgico emergencial e auditório

Por Branca Nunes - 25 fev 2012, 16h49

Como sobreviver no continente mais isolado, frio, ventoso e seco da Terra? Foi pensando em como resolver essa questão que a Estação Comandante Ferraz, base militar brasileira de pesquisas na Antártida, foi construída no verão de 1984 na península Keller, no arquipélago Shetland do Sul. Um incêndio ocorrido na madrugada deste sábado destruiu a maior parte da estação e comprometeu entre 35% e 40% dos estudos científicos do país no continente gelado.

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Batizada em homenagem ao hidrógrafo e oceanógrafo Luiz Antonio de Carvalho Ferraz (1940-1982), oficial da Marinha que participou da elaboração do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), a estação nasceu a partir de oito containers. Segundo o documento Coleção Explorando o Ensino – Antártica, disponível no site do Ministério da Ciência e da Tecnologia, esses módulos abrigavam casa de motores, dormitórios, cozinha, refeitório, equipamentos de radiocomunicação e sistema de aquecimento de neve e gelo para abastecimento de água.

Em 2004, vinte anos depois de inaugurada, a Comandante Ferraz contava com mais de 60 módulos que incluíam camarotes para os pesquisadores, alojamento, banheiros masculino e feminino, sala de estar e jantar, biblioteca, cozinha, armazéns, lavanderia, ginásio esportivo, enfermaria, centro cirúrgico emergencial, oficina mecânica, eletrônica e de carpintaria, sala de rádio, câmaras frigoríficas, auditório, sala de secagem de roupas e heliponto. Uma reforma realizada em 2006 ampliou o espaço útil de 1.650 para 2.250 metros quadrados.

“A estação é bem mais confortável do que os acampamentos espalhados pelo continente”, conta Jefferson Simões, diretor do Centro Polar e climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que coordenou a implantação do primeiro módulo científico brasileiro no continente antártico, no fim do ano passado. “Lá, por exemplo, temos cozinheiros e dormimos em beliches. Nos acampamentos, ficamos em sacos de dormir e temos que preparar nosso próprio alimento.”

Bar da Estação Comandante Ferraz
Bar da Estação Comandante Ferraz VEJA

Segundo Simões, a temperatura interna da estação gira em torno de 25° C e são feitas três refeições diárias. “É uma rotina de laboratório”, explica o pesquisador. “Apesar do ambiente inóspito do lado de fora, boa parte dos cientistas passa o dia em trabalhos de campo.”

Assim como a maioria das estações internacionais, a Comandante Ferraz está localizada na Ilha Rei George, a 3.100 quilômetros do litoral do Rio Grande do Sul. Os alimentos, bebidas e produtos de limpeza são armazenados para o consumo de um ano e o sistema de comunicação conta com telefone, rádio, internet e correio (as malas postais são transportadas por aviões). O lixo produzido na estação é transportado de volta ao Brasil, onde é destruído. O óleo queimado – utilizado para gerar energia e aquecer a água – também é trazido de volta.

Para suportar ventos de quase 200 quilômetros por hora, os módulos são construídos com chapas de aço, forração de madeira, isolante térmico e sistema de calefação interna. Ao que tudo indica, quase tudo foi consumido pelas chamas.

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