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Perito revisor sustenta que PC e Suzana foram assassinados

Médico legista da USP, Daniel Muñoz afirma que não existem provas de que Suzana atirou em PC e se suicidou em seguida – tese da defesa dos réus

Por Da Redação 9 Maio 2013, 15h19

O médico legista da Universidade de São Paulo (USP) Daniel Muñoz, um dos peritos que revisaram as provas e fizeram o trabalho de contra perícia na morte de Paulo César Farias e Suzana Marcolino, afirmou nesta quinta-feira no tribunal do júri em Maceió (AL) que as análises indicaram, tecnicamente, que o casal foi assassinado. Ele descartou a possibilidade de Suzana ter atirado em PC Farias e se suicidado em seguida – tese de crime passional sustentada pela defesa dos quatro ex-seguranças réus no processo.

“Não existe prova alguma que se sustente de que Suzana tenha atirado em PC”, afirmou o Muñoz ao júri. “As provas de suicídio da Suzana estão inválidas.” Nesta quarta, em depoimento ao júri, peritos da Polícia Civil de Alagoas haviam endossado a tese de crime passional.

O perito apresentou aos jurados como fez, a partir de maio de 1997 (o crime ocorreu em junho de 1996), a revisão das provas e dos primeiros laudos periciais, usados para embasar a tese de crime passional seguido de suicídio. Este trabalho havia sido realizado por peritos de Alagoas auxiliados depois por Badan Palhares, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mas depois foi descartado.

A perícia inicial concluiu que Suzana atirou contra o próprio tórax com as mãos por trás da arma e acionando o gatilho com os polegares (empunhadura anômala) e ficou com resíduos nas palmas das mãos. Muñoz contestou: “Não há como ela atirar contra o próprio tórax e ter resíduo nas palmas das mãos. Só haveria uma saída: ela estava com mãos ao lado da arma, uma posição de defesa. A maior quantidade de resíduo na região palmar é a favor da hipótese de homicídio, não de suicídio”.

Ele afirmou que reproduziu as condições do tiro descritas na perícia de Badan e da polícia de Alagoas, fazendo testes com modelos. O médico legista apresentou fotos e vídeos aos jurados. Ele contestou a altura de Suzana registrada no laudo e a altura da perfuração que a bala do revólver deixou no corpo de Suzana (nono arco costal), além da distância do tiro. Segundo concluiu, a arma não estava encostada no tórax de Suzana, como é comum em tiros suicidas, mas à três centímetros dela. Questionado pela defesa, Muñoz disse ser “raro” alguém tirar a própria vida com um tiro a distância. Para o perito, Suzana também não estava sentada na cama, mas em movimento de se sentar ou se levantar quando foi baleada.

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Vestígios – Outra contestação de Muñoz foi a ausência de vestígios na arma. O técnico afirmou que, pela distância do tiro, deveria haver sangue espalhado no revólver (havia na camisola, no antebraço e na cama) e impressões digitais de quem o manuseou. Nada disso foi encontrado.

“A mão e a arma ficariam sujas com o refluxo de sangue do tiros. Os testes mostram isso. A hipótese lógica é que alguém limpou a arma. E se limpa a arma para tirar impressões digitais. O que não ocorre em caso de suicídio. Isso é prova cabal do homicídio da Suzana”, afirmou Muñoz.

O perito disse também que as provas foram contaminadas por lavagens com água mineral, no local do crime, e posteriormente com água de torneira na análise dos cadáveres. Os mesmos resíduos de tiro indicados no início, segundo ele, foram encontrados nas mãos de PC e Suzana (cloro, alumínio, potássio). Ele sugeriu, então, que a equipe de perícia de Alagoas deveira ter concluído que PC também atirou – o que não ocorreu.

A análise de Muñoz serviu para sustentar a acusação contra os réus José Geraldo da Silva, Adeildo dos Santos, Reinaldo de Lima Filho e Josemar Faustino, que faziam a segurança de PC e estão em julgamento por participação nas mortes ou de omissão. Eles estavam no local do crime, a casa de praia do empresário.

Histórico – PC Farias foi o cabeça do esquema corrupto instaurado no governo de Fernando Collor no início dos anos 90. Em troca de dinheiro, facilitava a vida de empresários interessados em tocar obras públicas, aproveitando-se da influência que exercia sobre o então presidente. PC nomeou, demitiu e influenciou as decisões do governo Collor. Comandando um esquema de poder paralelo, traficou influência e desviou recursos públicos, como ficaria provado por uma série de documentos revelados por VEJA na época.

Em 1993, ao ter sua prisão preventiva decretada, PC fugiu do país para a Tailândia – e voltou algemado. No ano seguinte, foi condenado a sete anos de prisão por falsidade ideológica e sonegação fiscal. Cumpriu um ano e meio de prisão, até obter a liberdade condicional por decisão do Supremo Tribunal Federal. Fora da cadeia, tentou retomar sua vida como empresário, até que foi encontrado morto ao lado de sua namorada, na casa de praia do empresário em Guaxuma, litoral norte de Alagoas.

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