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“Passei a acreditar em destino”, diz estudante que socorreu ciclista atropelado na Paulista

Thiago Chagas dos Santos prestou os primeiros socorros ao ciclista David Santos Souza enquanto esperavam por 20 minutos a ambulância do Samu

Por Branca Nunes - 15 mar 2013, 19h51

Talvez porque os dois tenham “Santos” no nome, um anjo da guarda resolveu interferir para fazer com que o caminho de Thiago Chagas dos Santos cruzasse o de David Santos Souza. O ponto de convergência aconteceu às 5h45 do domingo, 10 de março, na Avenida Paulista, em São Paulo.

Desde a véspera, nada havia saído como Thiago planejara. Na noite do sábado, o estudante de publicidade soube, poucas horas antes do início, que fora cancelada por causa da chuva a festa em que trabalharia como DJ. Diante do imprevisto, trocou o estúdio que abrigaria o evento, ao lado da estação Carrão do metrô, na Zona Leste da capital, por uma boate na Bela Vista. O lugar pareceu ideal para comemorar o Dia do DJ e, simultaneamente, o aniversário de cinco anos de namoro. Como planejava beber, deixou o carro em casa.

Thiago Chagas dos Santos, estudante que socorreu o ciclista David Santos Souza, atropelado na Avenida Paulista em 10 de março de 2013
Thiago Chagas dos Santos, estudante que socorreu o ciclista David Santos Souza, atropelado na Avenida Paulista em 10 de março de 2013 VEJA

Saiu da boate pouco depois das 5h e caminhou com os amigos em direção à estação Brigadeiro do metrô, na Avenida Paulista. Seria bem mais barato entrar em um dos vagões, seguir até a estação Conceição e embarcar num táxi para casa, na Avenida Washington Luis. Mas parou na catraca. De lá, ele e Agenor Pereira Júnior deram meia volta e subiram as escadas rolantes para pegar um táxi do outro lado da avenida. Foi então que Thiago viu o carro do estudante de psicologia Alex Kozloff Siwek, de 21 anos, atropelar David. Limpador de janelas em grandes edifícios, David seguia para o trabalho de bicicleta por uma das ciclofaixas de lazer que são montadas na cidade aos domingos – a ciclofaixa ainda não estava em operação no momento do acidente, mas os cones já estavam enfileirados na via.

O acidente – Thiago correu até David enquanto pedia para Agenor telefonar para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Naquele momento, colocou em prática todo o ensinamento aprendido nos três anos de faculdade de enfermagem, dois cursos técnicos – um de enfermagem e outro de assistência pré-hospitalar – e no curso de primeiros-socorros que frequentou durante as aulas para comissário de bordo.

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Para evitar lesões na coluna, colocou David na posição correta, fez respiração boca a boca e massagem cardíaca, improvisou um torniquete com um cadarço para estancar o sangue do braço amputado e empenhou-se em manter o ciclista acordado. “Qual é o seu nome?”, perguntava. “Você se lembra do que aconteceu? Para onde você estava indo? O que você faz?”. As perguntas continuaram até a chegada da ambulância, 20 minutos depois.

David não se queixava de dores. Só o incomodava uma queimação nas pernas – sintoma de hemorragia. Uma voz comentou que ele estava sem o braço e David se desesperou. Procurava com a mão esquerda a parte amputada. “Eu perdi meu braço?”, repetia. Thiago procurava acalmá-lo: “Não, estou aqui segurando sua mão”.

Em vão, Agenor procurou insistentemente o braço de David. Até aquele momento, ninguém poderia imaginar que Alex, além de não prestar socorro ao atropelado, jogaria o membro num córrego imundo do outro lado da cidade.

Socorro – Com a chegada do Samu, Thiago ajudou os socorristas a enfaixarem o braço de David e seguiu com ele para o hospital. Também foi ele quem transmitiu a notícia terrível para a mãe de David, a empregada doméstica Antonia Santos.

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Depois daquele domingo, Thiago e David encontraram-se pessoalmente apenas uma vez e conversaram por telefone. “Nos tornamos amigos”, conta Thiago. “A mãe dele me chamou de filho.”

São evidentes as mudanças sofridas pelo estudante de publicidade desde o dia do acidente. “Passei muito tempo da minha vida chateado, perguntando por que havia perdido tanto tempo com a faculdade de enfermagem. Hoje, sei que se não fosse esse conhecimento, talvez não tivesse conseguido ajudar o David”, diz Thiago. “Passei a acreditar em destino. Se tudo tivesse saído como programado, não era para eu estar ali.”

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Thiago também vive dias de celebridade. “Muita gente que eu não conheço vem falar comigo na rua”, conta. “Eles agradecem e comentam que atitudes como a minha mostram que ainda há esperança na humanidade. Mas todos os dias nos prontos-socorros dezenas de pessoas fazem o que eu fiz”. As manifestações de humildade não o impedem de enxergar a realidade: “estou começando a ficar um pouquinho orgulhoso de mim”.

Quando lembra do dia do acidente, ele se pergunta como conseguiu agir com uma frieza que o surpreendeu. E o que pensa de Alex? “Foi tão frio quanto eu”, responde. “Ele teve uma hora e meia para pensar o que fazer com o braço antes de jogá-lo fora.”

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Em sua página no Facebook, Thiago exibe seis citações de grandes escritores, filósofos e cineastas. Pelo que diz, agora entende melhor a definição de felicidade escrita por Érico Veríssimo: “Felicidade é a certeza de que nossa vida não está se passando inutilmente”.

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