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“Pai, estou vivo”

Sob os escombros do edifício Andrea, em Fortaleza (CE), David Sampaio ligou e mandou uma selfie para tranquilizar a família

É possível manter a calma, e mesmo sorrir, quando o mundo desaba, literal e tragicamente? Sim, é o que parece ensinar o estudante de arquitetura David Sampaio, de 22 anos. Ele morava no 1º andar do edifício residencial Andrea, em Dionísio Torres, bairro nobre de Fortaleza. Na terça-feira 15, por volta das 10h30, as paredes começaram a tremer e, rapidamente, ruíram. Sampaio saiu correndo, mas só conseguiu chegar ao hall do prédio. A construção de sete andares caiu sobre ele. Com parte do corpo sob cimento, pedras e areia, telefonou para o pai: “Estou vivo, estou bem. Pode ficar calmo”. Minutos depois, o estudante começou a receber diversas ligações de parentes e decidiu, então, pôr fim a qualquer dúvida, enviando uma selfie ao grupo de WhatsApp da família. Retirado dos escombros, não apresentava sinais de ferimentos graves. Foi levado a um hospital particular da cidade e até a quinta-feira 17 permanecia em observação. Além de seis desaparecidos, cinco mortes foram confirmadas, triste rescaldo de uma operação de resgate que envolveu ao menos 400 pessoas, incluindo bombeiros, policiais, agentes de saúde e cães farejadores. Ainda não há informações oficiais sobre as causas do acidente. Vídeos que circulam na internet revelam as condições precárias do edifício — que passava por reformas. O próprio Sampaio, aliás, há algumas semanas tirara foto de detalhes do mau estado do lugar. Investigações preliminares mostram que o prédio foi construído de maneira irregular. Segundo a Prefeitura Municipal de Fortaleza, até 1995 o único registro encontrado no endereço era o de uma casa.

Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2019, edição nº 2657