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O que explica a ligação entre bicheiro e Ronnie Lessa na morte de Marielle

Aproximação entre ex-PM com Rogério Andrade desencadeou nova linha de investigação do Ministério Público

Por Adriana Cruz, Ricardo Ferraz Atualizado em 12 Maio 2022, 17h38 - Publicado em 12 Maio 2022, 07h00

Desde que o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes ocorreu, em março de 2018, amigos, parentes e apoiadores políticos não se cansam de perguntar: quem matou e quem mandou matar a vereadora do PSOL e seu motorista? A primeira parte da questão parece pacificada. A polícia e o Ministério Público  sustentam que a autoria dos disparos coube a Ronnie Lessa, ex-policial do Bope, ligado ao grupo de matadores “Escritório do Crime”, que se encontra preso preventivamente em Mato Grosso do Sul. O mandante do homicídio, no entanto, segue desconhecido. Diversos caminhos foram percorridos pelos cinco delegados encarregados do caso, mas se revelaram verdadeiros becos sem saída. Agora, o Ministério Público do Rio de Janeiro, apresenta uma nova linha de investigação que envolve Rogério de Andrade, um dos principais capos do jogo do bicho carioca.

A versão está ligada à Operação Calígula, deflagrada nesta terça-feira, 10, que mirou a organização criminosa supostamente chefiada por Rogério. Ela revelou que a proximidade entre Ronnie Lessa e o bicheiro era muito maior do que se imaginava até então e ocorre em um contexto de disputa e ampliação dos pontos de máquinas de caça-níqueis em um dos bairros mais nobres do Rio, a Barra da Tijuca. A quebra do sigilo telemático do PM reformado revelou conversas que mostram uma aproximação dos dois personagens frequentes nas páginas policiais. Apenas um mês após o crime, uma troca de mensagens entre Lessa diz a um de seus comparsas que esteve com o contraventor e que ele “estava feliz como pinto no lixo”, com a parceria.

Fontes do Gaeco, o grupo especial de combate ao crime organizado do MP fluminense, garantem que já há evidências suficientes para justificar mais uma reviravolta no caso. “As provas estão em sigilo para não atrapalhar as investigações, mas é uma linha muito forte e substancial”, diz uma pessoa diretamente ligada às investigações. Segundo os promotores, a aproximação de Rogério e Lessa seria uma recompensa pelo fato de ele ter executado o homicídio. “Rogério tinha todos os meios para expandir seus negócios, não precisaria de Lessa para nada”, explica a fonte do Gaeco. Na denúncia que motivou a operação Calígula, há uma foto em que o ex-PM aparece ao lado de amigos de Rogerio e de Élcio Queiroz, acusado de ser o outro executor de Marielle. Até o momento, Queiroz não foi envolvido na Operação Calígula

Ronnie Lessa, acusado de matar Marielle, posa para foto ao lado de Élcio Queiroz, também apontado pelo MP como sendo um dos executores da vereadora do PSOL e comparsas do bicheiro Rogério Andrade
Ronnie Lessa, acusado de matar Marielle, posa para foto ao lado de Élcio Queiroz, também apontado pelo MP como sendo um dos executores da vereadora do PSOL, e comparsas do bicheiro Rogério Andrade Reprodução/Reprodução

Rogério está foragido, seu último paradeiro foi detectado na Costa Rica, onde participava de uma pescaria e estava com a mulher e dois filhos menores.  A Polícia Federal monitorava os passos da família e tinha a expectativa de que eles retornariam ao Brasil no último sábado, 7. Mas eles desistiram de pegar o avião no momento do embarque, o que para os investigadores é um indício de que a operação vazou antes de ser deflagrada.

A aproximação de Lessa e Rogério gira em torno de um bingo clandestino que funcionava em frente à praia em um ponto conhecido como Quebra Mar, que pertence a Gustavo. O local abrigava 80 máquinas caça-níqueis e foi alvo de uma ação da PM, em julho. Segundo o MP, Ronnie Lessa era o encarregado de administrar o jogo e conseguiu negociar a liberação do material apreendido com a delegada Adriana Belém, então titular da  16ª Delegacia de Polícia na Barra. Vários caminhões se enfileiraram na porta da delegacia para recolher as maquininhas. Na última terça-feira, ela foi presa após a polícia encontrar 1,8 milhão de reais em sua casa. Marcos Cipriano, outro delegado acusado de envolvimento com a quadrilha, também foi detido.

Após o fechamento do Bingo, as relações entre Lessa e Rogério prosseguiram. Em outra mensagem o PM reformado comenta com um comparsa que acertou a expansão do jogo ilegal com o bicheiro em uma reunião em setembro de 2018. A dupla tinha a intenção de abrir novos casas clandestinas em Jacarepaguá e Freguesia, na Zona Oeste. A proximidade dos dois chama atenção porque Lessa já fez parte do bando de Rogério há mais de dez anos, mas os dois haviam rompido relações, em 2010. O afastamento ocorreu depois que o bicheiro foi vítima de um atentado. Uma bomba estourou no carro dele, o deixou ferido e causou a morte do filho Diogo, na época com 17 anos.

Entre os suspeitos de terem encomendado o assassinato de Marielle, Rogério é o mais poderoso no submundo do crime. Ele é sobrinho e herdeiro do famoso bicheiro Castor de Andrade, morto em 97, e assumiu o lugar do tio após travar uma guerra em família pelo posto. Rogério chegou a ser processado pelos homicídios de Paulinho de Andrade e Fernando Iggnácio, filho e genro de Castor,  mas foi inocentado nos dois casos.

Anteriormente, a morte de Marielle já foi associada a três milicianos sem que nada fosse provado. Agora, a ligação com jogo do bicho é a próxima aposta. A família segue cobrando respostas.

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