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O novo território sem lei do tráfico de drogas no Rio

Chefões do tráfico no Rio se refugiam em um complexo de favelas da Zona Norte. No novo QG do crime, até a polícia precisa usar um código para ir e vir

Os tubos de concreto de mais de 2 metros de altura gravados com as iniciais de uma facção criminosa do Rio de Janeiro não deixam dúvida sobre quem manda no complexo de favelas de Costa Barros, na Zona Norte. Estrategicamente plantados nas principais vias de acesso às vielas, os obstáculos estão ali por ordem dos marginais que controlam a entrada e a saída de gente e carros sob as barbas da polícia. À sombra do poder público por décadas, o lugar entrou no mapa recentemente, depois que passou a servir de asilo para integrantes do alto escalão da bandidagem carioca forçados a mudar de pouso quando seus próprios morros, entre eles a Rocinha e o Complexo do Alemão, foram ocupados para a implantação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Tornou-se o novo QG das três principais quadrilhas da cidade e o maior entreposto de drogas do Rio. Em Costa Barros e nos vizinhos Acari e Pavuna — região que abriga trinta favelas e 200 000 habitantes –, os criminosos desfrutam tamanha liberdade que não se limitam às suas fronteiras. Eles passaram a vender drogas e a ostentar seus fuzis também ao lado da portaria de edifícios, de escolas e hospitais. Tiroteios são a regra nesse cartão-postal de faroeste.

Os chefões do tráfico vêm rateando aquelas favelas sem grandes resistências. Em um vídeo de cinquenta minutos ao qual VEJA teve acesso, dois dos ex-cabeças do Complexo do Alemão (Luiz Fernando Nascimento Ferreira, o Bacalhau, e Regis Eduardo Batista, o RG) aparecem em Costa Barros no novo endereço de um deles. Jogam conversa fora e se divertem no MSN num quarto em que se avistam fuzis esparramados pelo chão e uma mochila abarrotada de cocaína. Em outro vídeo, este de sete minutos, a câmera flagra o constante vaivém em um dos pontos de venda dos bandidos. Policiais são raros nesses lados da cidade e, quando aparecem, muitas vezes a ordem das coisas não se altera. Dois inquéritos que correm na Delegacia de Combate às Drogas ajudam a entender a razão: eles mostram claramente que um naco podre da PM está em plena ação na área, vendendo armas aos marginais e recebendo propina para cerrar os olhos ao crime.

No ano passado, em meio a um confronto com os traficantes em que carros da polícia eram alvejados, um desses bandidos de farda entrou em contato, via celular, com um homem forte da quadrilha. O PM esbravejava: “Somos nós, cara. Atira para outro lado”, ouve-se em um grampo em poder da Polícia Civil. Noutra gravação, um policial cobra propina para fazer vista grossa ao “baile do Chapadão”, festa embalada a funk e drogas na quadra de uma das favelas. Em poucos eventos os bandidos faturam tanto em tão poucas horas. Antigos frequentadores do Complexo do Alemão, como o jogador Adriano, já baixaram em Costa Barros para rever os amigos. Há um mês, recém-operado do pé direito, o Imperador compareceu de muletas a um churrasco que se arrastou pelo dia inteiro. Os policiais fazem que não veem a movimentação dos criminosos, às vezes por dinheiro, outras só por medo mesmo. Das 5 da tarde às 7 da manhã, a própria PM convencionou: para trafegar em ruas que margeiam as favelas, só de blindado. “O risco de levar um tiro num lugar desses é enorme”, diz um PM a VEJA. “Quando eu e meus colegas fazemos a ronda, colocamos o braço para fora do carro. É um código que temos com os criminosos. Quer dizer: calma, é tudo teatro.”

A região, fincada entre morros e planícies, sediava até o século XIX fazendas de cana-de-açúcar. Nas últimas décadas, foi se tornando um símbolo do abandono. Pela proximidade com a Via Dutra, que liga o Rio a São Paulo, muitas empresas decidiram montar ali fábricas e depósitos, que agora, com as constantes guerras travadas entre as quadrilhas, não conseguem mais contratar funcionários. “Estamos oferecendo vagas de 8 000 reais para recém-formados em engenharia, mas quase ninguém aparece”, lamenta o advogado Marcelo Miguez, presidente do polo que reúne 32 empresas na região. Na Unidade de Pronto Atendimento, vizinha a uma área que de tão maltratada é conhecida como “Fim do mundo”, dezenas de médicos e enfermeiras debandaram. Veem-se dezesseis furos de revólver e fuzil nas paredes. Nos últimos meses, também alunos de uma escola municipal viveram dois dias de terror depois que o pátio virou esconderijo de marginais em rota de fuga. Apesar de todos os indícios, a Secretaria de Segurança do Rio diz que a situação está como sempre esteve nesse antigo enclave do crime. Prevê implantar ali uma UPP, mas não revela a data. É bom que seja logo. A persistência de um lugar como Costa Barros no meio da cidade é prova inequívoca de que não dá para perder tempo no cerco à bandidagem.