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‘Nunca vi a sociedade brasileira tão polarizada’, diz cineasta

Petra Costa conta detalhes do seu documentário que retrata os bastidores do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff

Por Por Thiago Bronzatto - Atualizado em 13 ago 2016, 10h47 - Publicado em 13 ago 2016, 07h42

A cineasta Petra Costa, da produtora Busca Vida Filmes e diretora do premiado documentário Elena, fala sobre o projeto intitulado Impeachment.

Quando e como surgiu a ideia de fazer um documentário sobre o impeachment?

É interessante porque eu achava, ingenuamente, que no Brasil já tínhamos passado pelos momentos mais significativos da nossa história, aqueles em que se sente a história tremer sob seus pés. Achava que se quisesse fazer um filme tratando de questões políticas, meu olhar deveria estar direcionado para o passado ou para aqueles países que estavam vivendo momentos conturbados. Desde 2014, o cenário brasileiro começou a mudar numa velocidade incomum a partir do avanço das investigações da Operação Lava-Jato e da crescente crise econômica e política. No dia 13 de março deste ano, saí para filmar as manifestações e percebi que as ruas tremiam. Nunca vi a sociedade brasileira tão polarizada, uma sociedade que foi sempre celebrada (com razão ou não) por seu ímpeto conciliador. Senti necessidade de entender mais profundamente as razões por trás dessa polarização. Naquele momento, percebi que um filme precisava ser feito. Paralelamente, a comissão de impeachment teve início na Câmara dos deputados e, ao me aproximar do Congresso, me vi diante de um universo complexo, fascinante e extremamente cinematográfico, que interfere tanto nas nossas vidas, e eu conhecia tão pouco. Um Congresso no centro de um processo de impeachment e com a polarização das ruas refletida nos seus corredores. Não existe nenhum documentário sobre o impeachment de Collor, o que acho uma lacuna para nossa memória cinematográfica. Um país sem documentários, como diz o cineasta Patrício Guzman, é como uma casa sem álbuns de retrato.

Você se inspirou em algum projeto estrangeiro?

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Diversos filmes me inspiraram nesse processo, entre eles está o filme Primary, de Robert Drew, que acompanha as primárias de Kennedy e Hubert Humphrey.

Você é a responsável pelo roteiro do documentário? Qual será a principal linha do roteiro?

Por enquanto, sou responsável pelo roteiro, mas ainda vamos formar a equipe definitiva. O documentário busca adentrar com profundidade nas nuances por trás dessa crise política. Quero mostrar como os bastidores da política, tão distantes do dia a dia do brasileiro (fisicamente, inclusive), estão impactando nossa sociedade, e vice-versa. Há cinco meses estamos acompanhando as manifestações a favor e contra o impeachment e o processo de votação na Câmara e no Senado. Entrevistamos parlamentares, advogados e ativistas dos mais diferentes espectros. A ideia é que o filme mostre as diversas etapas dessa crise, seus aspectos shakespearianos, maquiavélicos e épicos.

Quantas pessoas trabalham na produção desse documentário?

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Temos filmado com uma equipe que varia entre 3 a 6 pessoas, dependendo da situação.

Em quais cidades vocês já realizaram as gravações do projeto?

Gravamos em Brasília, Rio, São Paulo, Teresina, Recife, Juazeiro, Ouro Preto e Curitiba.

Com quais pessoas e parlamentares vocês já falaram?

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Falamos com mais de 50 parlamentares, da oposição e da base do governo; advogados da defesa e da acusação; manifestantes e líderes dos movimentos contra e a favor do impeachment; e cidadãos comuns.

Por que vocês decidiram gravar o trabalho da imprensa ao longo da cobertura do impeachment?

Filmamos mais as respostas dos políticos à imprensa do que os jornalistas. Para nós, esse diálogo dos parlamentares com a imprensa é importante, pois pontua grande parte da rotina do Congresso assim como narra os acontecimentos à medida que eles vão se desenrolando.

Como foi possível obter acesso ao Congresso durante a votação do impeachment? Quais foram os parlamentares que mais apoiaram o projeto?

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Tivemos a ajuda de parlamentares dos mais diversos partidos. Na Câmara, o primeiro parlamentar com quem conversamos era do PTB; que compreendeu a importância desse registro histórico e nos apoiou. Desde então, contamos com a colaboração de parlamentares dos mais diversos partidos, como PSDB, PMDB, PT, REDE, PSOL, PTB, entre outros.

Também há apoio do Instituto Lula?
Não. Soubemos que Lula viajaria para o Nordeste e perguntamos para a assessoria se poderíamos filmar esses atos. Eles passaram a agenda e nós filmamos.

Por que vocês acompanharam algumas das viagens do ex-presidente Lula? Qual será a importância disso para o documentário?

Buscamos filmar todos os personagens importantes dentro desse cenário político, e Lula está entre eles. Gostaríamos também de filmar Temer. Já entramos em contato com a assessoria algumas vezes, mas não obtivemos resposta.

Qual o orçamento total do projeto? Quem são os principais patrocinadores e financiadores?

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O filme não tem orçamento definitivo, pois ainda está em produção. Não existe nenhum patrocinador. Optamos por autofinanciar o filme nesse momento de produção e estamos inscrevendo em fundos internacionais de financiamento. Tivemos uma ótima notícia. Nesta semana, fomos o único documentário não-europeu selecionado pelo programa de fomento e financiamento do Festival de Veneza, o Venice Production Bridge.

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