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“Nunca mais consegui dormir direito”, diz avó que tem netos desaparecidos

Sílvia Regina da Silva, 58 anos, fala do vazio após o sumiço dos jovens em uma favela do Rio

Por Cássio Bruno Atualizado em 5 fev 2021, 12h32 - Publicado em 5 fev 2021, 06h00
SILVIA REGINA DA SILVA -
SILVIA REGINA DA SILVA – Ricardo Borges/VEJA

No dia em que meus netos desapareceram, 27 de dezembro de 2020, eles foram até a minha casa. Chegaram por volta do meio-dia, barulhentos e cheios de fome. Tomaram banho, trocaram de roupa, pegaram um pedaço de pão e saíram para brincar, como sempre faziam. Quando a comida ficou pronta, fui chamá-los, mas tinham sumido. Procurei, procurei, e nada. Um desespero. Os coleguinhas que brincavam ali perto disseram que eles tinha ido à feira para comprar comida de passarinho, que adoravam alimentar no meio da rua. Só que o tempo foi passando e ninguém achava meus netinhos, Lucas (8 anos) e Alexandre (10), que estavam com o amigo que vivia lá em casa, o Fernando Henrique (11). É numa hora dessas que você entende na pele o que é angústia e sofrimento. E sente um rasgo no peito junto com a sensação de que o chão se foi.

Atordoadas, eu e minhas filhas, mães dos dois, fomos logo à delegacia registrar o ocorrido. Ficamos catando as crianças até as 2 da manhã daquele trágico dia 27. Reviramos os becos e até os bairros vizinhos, sem nenhum sinal deles. Quanto mais o tempo passa, mais dolorido fica. Vários boatos e notícias falsas sobre os meus meninos começaram a circular, acendendo aquela fagulha de esperança. Eram todas informações que não batiam e só serviram para atrapalhar a busca dos parentes, dos amigos e da própria polícia. Recebi vários telefonemas de pessoas que diziam saber de alguma coisa. Uma vez, um sujeito me abordou falando: “Me dá dinheiro que eu prometo te contar onde seus netos estão”. Ele não tinha nada de concreto, queria apenas se aproveitar da nossa fragilidade. A realidade é que, até agora, não nos chegou nenhuma pista boa.

A investigação segue em sigilo e a polícia continua a procurar os três. Muita gente acha que morreram, que eu preciso ser mais realista e encarar. À noite, o coração aperta e vem um medo de que meus netos não vão mesmo voltar com toda aquela alegria deles. Suas camas estão vazias e o silêncio machuca. Mas eu ainda tenho uma forte esperança e é ela que me deixa de pé. Não acharam os corpos. Para mim, então, estão vivos, ainda que todo mundo pense o contrário. Moro em uma comunidade da Baixada Fluminense, na região metropolitana do Rio de Janeiro, onde há violência e o poder público não é presente. A vida numa favela vale pouco. Meus netos não são celebridade nem têm casa em condomínio bacana da Zona Sul, mas são bem cuidados, educados e felizes. Sinceramente, acho que, se não fossem pobres, negros e anônimos, haveria mais empenho em encontrá-los, mais indignação. Como assim, eles saem para brincar e desaparecem das nossas vidas? Não é a primeira vez que ouvimos uma história dessas e, infelizmente, se as coisas não mudarem, não será a última. Por isso é importante falar, cutucar o problema.

Sempre festejamos em família os aniversários, os Natais e o Ano-Novo, uma tradição. Este tinha tudo para ser especial. Planejamos uma celebração farta para aliviar a tensão de 2020, que foi tão estranho por causa dessa pandemia. Os meninos estavam sem ir à escola fazia um tempão, estudando só de casa. Compramos roupas novas para Lucas e Alexandre justamente para festejar o réveillon, na expectativa de virar a página para um ano melhor. Mas levaram meus netinhos embora antes, deixando a casa deserta. Vivo agora à base de remédios para controlar a pressão, que não baixa. Nunca mais consegui dormir direito. Passo as madrugadas pensando, rezando muito, torcendo para que todos estejam errados e a resposta que tanto aguardo seja boa. Quando penso na sensação de ter os garotos ao meu lado, é como se eles estivessem comigo. Na verdade, sempre estarão.

Sílvia Regina da Silva em depoimento dado a Cássio Bruno

Publicado em VEJA de 10 de fevereiro de 2021, edição nº 2724

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