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‘Nossa República falha não é culpa da história’, diz pesquisadora

Em entrevista a VEJA, Lilia Schwarcz afasta o vitimismo histórico para a falta de responsabilidade do brasileiro e sua classe política com a 'coisa pública'

Por Gabriela Terenzi - Atualizado em 15 nov 2016, 17h57 - Publicado em 15 nov 2016, 17h31

O Quinze de Novembro de 1889 foi um golpe de Estado que contou com pouca ou nenhuma participação popular. Mas não se devem atribuir todos os problemas da atual República a seus vícios de origem. É o que afirma a historiadora e antropóloga da USP Lilia Schwarcz. “A culpa da nossa falta de valores republicanos é da Primeira República? Não! É nossa, toda nossa. Já tivemos mais do que tempo para rever esses valores”, diz, afastando o vitimismo histórico. “Estamos apanhando dos valores republicanos.” Em entrevista a VEJA, Schwarcz fala também do papel dos símbolos na construção do imaginário nacional e do esforço do atual governo em fixar a sua própria marca. “Em momentos de crise, os governos produzem aceleradamente novos símbolos.”

VEJA – O que foi, afinal, a Proclamação da República para a população brasileira da época?
Lilia Schwarcz – Foi um golpe, do Partido Republicano Paulista associado ao Exército. Foi algo tão repentino, e as comunicações eram tão raras, que demorou muito para que a República fosse conhecida pela população. O jornalista Aristides Lobo, testemunha da época, disse que o povo “assistiu a tudo bestializado”. Pesquisas mais recentes vêm mostrando que não foi bem assim. A Primeira República foi um laboratório: o povo na rua, pedindo direitos. Tanto que o imperador D. Pedro II teve de sair do país de madrugada, já que os republicanos tinham receio de uma comoção popular. Demorou para que a República criasse raízes no imaginário brasileiro.

É possível considerar o Quinze de Novembro como a data de menos prestígio no calendário cívico, que inclui a Independência, Tiradentes e datas locais como o 9 de julho em São Paulo ou o 2 de julho na Bahia? Nesse sentido, a Independência é mais forte, comove mais numa perspectiva oficial. Tanto é que é nela que ocorrem os desfiles com os símbolos da nação. Já o Tiradentes e seu feriado foram criações da República. Não havia imagem de Tiradentes: ela foi totalmente forjada e associada à figura de Cristo. Veja que a República construiu esse herói como um religioso, não um civil. E a data da República, reconheço, continua ofuscada por essas outras datas cívicas. Primeiro porque foi de fato um golpe. Depois, porque houve uma batalha simbólica muito forte, já que as representações monárquicas eram muito fortes.

Quando os símbolos da República realmente pegaram, se é que pegaram? Símbolos não são só reflexos, eles produzem realidades. De fato, a República demorou a se consolidar. Foi uma fase muito peculiar: a urbanização, a industrialização, a consolidação do Sudeste. E o que acontece? O fenômeno das multidões urbanas nas ruas clamando por direitos. Basta ver a quantidade de revoltas que estouraram nesse período. Quem resolve isso é Getúlio Vargas. É quando a República passa a ser bem-sucedida. Veja como é simbólico o nome que ele deu à primeira fase republicana: “República Velha”. Velha em relação ao quê? Ao seu Estado Novo. Essa simbologia pegou e comoveu o imaginário. E numa batalha simbólica muito interessante, sobre o corpo do monarca. A República adiou a vinda dos corpos dos monarcas ao Brasil. Quem traz os corpos é Getúlio. Ele se cola à ideia do presidente como um grande pai, à simbologia do chefe de Estado como um grande sábio. Ele recria o feriado do aniversário de D. Pedro II. Getúlio era um craque em simbologia pátria. É ele quem constrói um imaginário coletivo e afetivo em relação à República.

Como a forma com que a proclamação foi consolidada reverbera nos dias atuais? Não interessa culpar a história. O que interessa é mostrar como o presente está cheio dela e como a gente vai recriá-la. Delegar tudo à história gera uma atitude passiva. A culpa da nossa falta de valores republicanos é da Primeira República? Não! É nossa, toda nossa. Já tivemos mais do que tempo para rever esses valores. Estamos apanhando dos valores republicanos. Conceitos como “democracia” e “república” estão na boca de todos, mas da boca para fora. A gente tem que pensar no conceito de “Res publica”: o que é de todos, para todos e responsabilidade de todos. Essa noção não existia lá no primeiro golpe do Brasil, que foi o de D. Pedro II. Mas nós continuamos falhando. A corrupção é um grande inimigo da República, ela é a própria erosão dos valores republicanos. Ela não tem nada de natural ou ideológico. Também não é culpa do passado porque a gente a reescreve no presente. O uso da máquina pública para interesses privados foi visto nas últimas eleições, na votação do impeachment. As pessoas votavam pelo filho, pela sua cidade, pela sua esposa, pela religião. E o público, o que é de todos? Era isso que estava se discutindo. Isso quase nenhum deputado justificou. O inflacionamento dos valores íntimos e familiares é contra a lógica da “Res publica”.

Depois de assumir a Presidência, Michel Temer correu para substituir as marcas do governo federal, com a modificação da logo do governo e a retomada do lema “Ordem e Progresso”. Por que essa necessidade e qual a intenção do Planalto com esses signos? Em momentos de crise, os governos produzem aceleradamente novos símbolos. Mas esses símbolos têm de estar deitados em um universo significativo, ou caem num vazio. Até agora, não foram símbolos que comoveram. Como analista, tenho pensado que a penetração de um universo simbólico tem a ver com o que nos afeta, nos modifica. Nossa República não está afetando os brasileiros.

Nas passeatas pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2015, a bandeira do Brasil e o hino nacional estavam bastante presentes. É verdade. Mas os símbolos vão e voltam, e o presidente não consegue se pronunciar em momentos públicos. Ele não está tendo sucesso na utilização de uma simbologia política. O presidente perdeu o direito à voz pública, virou uma representação cada vez mais envergonhada. No exterior, os discursos parecem contos de fadas. No Sete de Setembro, Temer não se apresentou, por medo de vaias. Isso é muito significativo. O presidente corresponde à simbologia máxima de uma República, e ela não está encarnada nele. O maior fracasso em eficácia simbólica e política está na própria figura do Temer.

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