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Ninguém falou de Heloisa

Aumento da mortalidade infantil é uma evidência de que o Estado falhou redondamente em sua missão mais básica, a de proteger os mais vulneráveis

Em 2018, o presidente Michel Temer anunciou o fim da recessão econômica, uma das mais profundas da história brasileira. Pesquisas mostravam projeções de crescimento no PIB da ordem de 1%, a inflação controlada (4% ao ano) e a taxa de desemprego em queda, depois de explodir e atingir patamares inéditos no ano anterior. O otimismo estatístico, no entanto, não revelava os efeitos mais perniciosos da crise econômica dos últimos quatro anos: o aumento da miséria e da mortalidade infantil, uma evidência de que o Estado falhou redondamente em sua missão mais básica, a de proteger os mais vulneráveis do fundo do poço.

Entre 2016 e 2017, segundo dados captados pelo IBGE, 2 milhões de brasileiros caíram para baixo da linha extrema da pobreza, ou seja, passaram a viver com cerca de 4 reais por dia, ou menos. A taxa de mortalidade infantil, que computa o número de crianças mortas antes de completar 1 ano, que só diminuía desde que começou a ser medida, em 1990, voltou a aumentar pela primeira vez em 2016: alta de 5%. Subiu de 13,3 para catorze mortes para cada 1 000 nascidos vivos. Parece pouco, mas entre as vírgulas estão bebês como Heloisa de Jesus, morta antes de completar 1 mês de vida, em julho, em Ilhéus, na Bahia.

Os estados mais atingidos tanto pela miséria quanto pelo aumento da mortalidade são os da Região Nordeste, onde a crise fulminou o emprego com mais força e minou a capacidade financeira dos governos. Nos dois estados mais pobres, Maranhão e Alagoas, metade da população está abaixo da linha da pobreza. Mas o município com a mais alta taxa de mortalidade infantil — 24,9 para cada 1 000 nascidos, número semelhante ao do Suriname — fica no interior do Ceará: Aquiraz. Em junho, VEJA visitou a cidade e encontrou um retrato do descaso: só 36% dos 80 000 moradores tinham esgoto adequado (a média nacional é 52%) e apenas 32% bebiam água potável (ante 97% da população brasileira). Esgoto tratado e água limpa são serviços essenciais para evitar doenças que costumavam assombrar um Brasil de trinta anos atrás.

Enquanto se agitavam na campanha presidencial os fantasmas do “fascismo” e do “comunismo”, esses ectoplasmas do século passado, não houve um único debate sério sobre a miséria, o esgoto, a água ou bebês como Heloisa de Jesus. Mergulhados nas paixões ideológicas, os candidatos e os eleitores como que suspenderam — provisoriamente, espera-se — uma verdade elementar: nenhum país deixou a desgraça econômica sem se preocupar em eliminar a pobreza extrema.

Publicado em VEJA de 26 de dezembro de 2018, edição nº 2614