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Incêndio gera protestos e tumultos na área do museu e no centro do Rio

Na Quinta da Boa Vista, grupo força os portões e é reprimido pela PM; na Cinelândia, militantes do MBL são hostilizados pelos manifestantes

Por Jana Sampaio Atualizado em 3 set 2018, 20h55 - Publicado em 3 set 2018, 18h38

O dia após o incêndio que destruiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro, que começou no domingo 1º, foi marcado por manifestações de repúdio ao incidente e de ataque aos governantes tanto no prédio da instituição quanto na região central da cidade, onde também houve tumultos.

No início da tarde, um grupo de cerca de 300 estudantes, funcionários do museu e outros manifestantes forçaram a entrada na Quinta da Boa Vista, área que abriga a instituição, e entraram em confronto com policiais militares e guardas civis – houve uso de spray de pimenta e golpes de cassetete.

Os estudantes, convocados pela União Nacional dos Estudantes (UNE), traziam bandeiras em defesa da educação pública – o museu é ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) –, contra o corte de recursos e com críticas ao governo do presidente Michel Temer (MDB).

Também havia no local cerca de cinquenta monarquistas que protestavam contra o estado precário em que o museu havia sido deixado e que o levaram ao incêndio. O museu foi criado pelo rei dom João VI, em 1818.

Após vários confrontos, a Polícia Militar e a Guarda Civil recuaram e permitiram a entrada dos manifestantes na Quinta da Boa Vista, mas ainda afastados do prédio incendiado, onde bombeiros e peritos estão trabalhando.

No fim da tarde, um grupo de cerca de 6.000 pessoas – segundo os organizadores – começou outro ato, dessa vez na praça da Cinelândia, centro do Rio.

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“Os museus brasileiros, como um todo, padecem da falta de repasses, de todos os níveis, municipal, estadual e federal. Falta verba para evitar incêndios. Entrei na direção do Museu da República há cinco meses e encontrei uma equipe excelente, mas verba reduzida. Nos últimos anos, houve uma redução grande no financiamento voltado para a cultura”, disse Mário Chagas, diretor do Museu da República.

  • “Eu trabalhei no museu em 2011, aos 16 anos. Eu não sei dizer o que estou sentindo, é muita raiva e indignação por terem deixado pegar fogo. Era um lugar que estava sempre tentando abrir as portas de forma gratuita, a dedicação das pessoas é muito grande. São vários anos de história, não vão recuperar o que perdemos. Eu sinto como se tivesse perdido a minha casa”, disse a cientista social Jade de Almeida Moreira.

    “Trabalhei para o projeto na reforma de 187 anos do museu. A UFRJ toda foi abandonada, eu estava no dia do incêndio da capela, foi uma choradeira só. Até hoje a capela não foi reformada. Então é um descaso muito grande e recorrente com a maior universidade do Brasil. Não tenho esperança de que vão reconstruir o museu, mas o principal, que é o acervo, não tem reposição. É muito triste, já chorei muito”, disse a aposentada Maria Teresa Linhares, chefe de compras dos projetos da UFRJ.

    O clima na manifestação era de tristeza e também de indignação. Quem fala ao microfone está convocando as outras pessoas a não se deixarem abater e a lutar para que episódios desse tipo não voltem a acontecer.

  • Houve um momento de tensão no protesto quando um grupo ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL) se aproximou do evento e foi hostilizado aos gritos de “fascistas” pelos manifestantes, a maioria empunhando bandeiras de partidos e grupos de esquerda como PCdoB, PSTU e UNE. Os simpatizantes do MBL foram retirados do local.

    No começo da noite, o grupo começou a se movimentar em direção à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

    (Com Estadão Conteúdo)

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