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Heróis submersos no anonimato

O expediente inclui palavras de consolo para quem continua desolado com a perda um parente, amigo ou vizinho

Fagundes subiu num caminhão do Exército para fiscalizar pessoalmente a entrega dos donativos

No período de duas horas, os três celulares de Antônio Fagundes tocaram 22 vezes – uma chamada a cada cinco minutos e 45 segundos. Entre uma conversa e outra ao telefone, foi abordado por 18 pessoas. Enquanto ouvia, acompanhava com igual atenção o que se passava à sua volta. Não, não é o Antonio Fagundes das novelas da Rede Globo.

O homônimo de Nova Friburgo é coordenador de um abrigo para as vítimas da tragédia que devastou a Região Serrana do Rio de Janeiro na madrugada de 12 de janeiro. Na manhã daquela quarta-feira, 9 de fevereiro, Fagundes já havia dialogado com o Ministério Público Federal, o Ministério Público Estadual, representantes dos Direitos Humanos e de instituições responsáveis por menores infratores. Todos tinham alguma cobrança, reivindicação ou exigência a apresentar. Chegaram, reclamaram, viraram as costas e saíram. Fagundes ficou. Sozinho.

Na maratona matinal, ouviu, de novo, que precisava conseguir a qualquer custo aquilo que sabia que não tinha – e que pedia insistentemente desde o dia 5 de fevereiro. Naquele sábado, foi informado de que teria seis horas para transformar em abrigo o prédio do Sase, onde há 40 anos vinha funcionando um posto de saúde. Não pediu muito. Entre os ítens queria 22 chuveiros, 7 pias, uma dezenas de crachás, três tanques, um fogão, uma geladeira, dois aparelhos de televisão e algumas mesas e cadeiras para o refeitório.

À tarde, uma tropa de assessores do secretário de Educação avisou que 40 famílias desabrigadas estavam a caminho. Depois de muita conversa, sem jamais usar a palavra “não”, Fagundes deu um jeito de explicar o óbvio: sem estrutura, impossível. O expediente vespertino também incluiu o remanejamento de famílias, o agendamento da visita de grupos que trabalham com recreação infantil, a coleta do lixo das áreas comuns, a compra de copos de água tamanho grande, a distribuição de quentinhas e palavras de consolo para quem continua desolado com a perda de um parente, amigo ou vizinho.

“Além de coordenador do abrigo, faço o papel de assistente social e psicólogo”, diz Fagundes, com voz calma e sempre sorrindo. Modéstia. Sem esquema de segurança, sem funcionários na cozinha, sem faxineiras, sem atendentes, sem nada, Fagundes conseguiu colocar ordem no que tinha tudo para virar um caos. “Aqui é tranqüilo”, resume uma das dezenas de crianças do abrigo quando lhe perguntam do que mais gosta por ali. Tranquilo como Fagundes.

Assessor do deputado estadual Rogério Cabral em Nova Friburgo, Fagundes tinha assumido havia poucos dias o Centro de Referência de Assistência Social na cidade quando foi visitar uma amiga no bairro de Conselheiro Paulino no fim da tarde de 12 de janeiro. A chuva apertou e ele achou que o melhor seria passar a noite por lá. Na manhã seguinte, ao voltar para casa, no centro, a água ainda batia na cintura.

A partir disso, não parou. Cedido pela Assembleia Legislativa do Rio para trabalhar para a Secretaria de Desenvolvimento Social na reconstrução da cidade, Fagundes primeiro foi designado para coordenar a Fábrica Ypu, que concentra todas as doações enviadas para o município. Ofereceram-lhe uma mesa e uma cadeira, mas ele preferiu subir no caminhão do Exército e fiscalizar pessoalmente a entrega dos donativos. Depois, foi escalado para organizar o abrigo montado no prédio do CIEP, que funcionou perfeitamente até ser desativado para permitir a retomada das aulas. Quando tudo estava em ordem, ganhou de presente o Sase. Avisado de que 12 famílias estavam a caminho do antigo posto de saúde, foi surpreendido pelo desembarque de 30.

Embora não admita, as situações adversas parecem estimular Fagundes – e ele garante que não descansa antes de conseguir o que pretende. Aos oito anos, por exemplo, trabalhou como engraxate, verdureiro e vendedor de ferro velho. Aos 14, conseguiu um emprego num dos melhores hotéis da cidade. Foi pintor de paredes, garçom e, em seguida, gerente. Aos 18, tornou-se motorista da prefeitura. Conseguiu um cargo de assessor do vice-prefeito, antes de ser chamado por Cabral. Hoje, aos 38, acumula o emprego de assessor de deputado com a presidência do clube Sociedade Esportiva Friburguense e o agenciamento de bandas de música.

Nas últimas quatro semanas, Fagundes chega ao abrigo às 7h e raramente sai antes das 20h. Faz tempo que celebridades políticas não aparecem por lá. Sumiram da mesma forma que os desabrigados saíram de cena. Nos primeiros dias, a tragédia na Região Serrana ocupou quase integralmente o espaço do Jornal Nacional. Nesta sexta-feira, por exemplo, o drama ainda em curso não conseguiu um único segundo. Heróis desconhecidos como Fagundes continuarão submersos no anonimato.

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