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Guaratiba, campo da fé, mar da tristeza

Operários e moradores que suaram para fazer o Campus Fidei não verão o papa nem os peregrinos. Terreno repleto de lama é o retrato da desolação

Por Cecília Ritto - 27 jul 2013, 09h19

Quando veio a chuva, voltaram as poças. E o manto d’água sobre o barro avermelhado criou pequenos espelhos que ainda refletem fragmentos do imenso altar preparado para receber Francisco. O papa não vem, nem virão os peregrinos e suas bandeiras coloridas. Os funcionários que acompanharam o lamaçal em Guaratiba nos últimos meses já sabiam que só por milagre o terreno suportaria o evento programado para sábado e domingo. Mas ainda assim a notícia de que nem o pontífice nem os quase dois milhões de fiéis veriam a obra pronta foi uma decepção. “Chorei a noite inteira. Não gosto nem de falar que me dá vontade de chorar de novo. A gente se entregou de corpo e alma. Para mim, foi maravilhoso trabalhar pela vinda do papa”, disse André Luiz Ruela, de 39 anos, que trabalhava na obra de Guaratiba dirigindo caminhão para abastecer os lotes com água potável – um desafio para a estrutura temporária de Guaratiba. Eram 12 veículos nesse trabalho. No dia da missa final, seis ficariam na parte interna do campo, e André tinha negociado para ser um dos motoristas a ver o papa de perto. “Agora, não tenho esperança de ver o papa”, admitiu.

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O Campus Fidei foi entregue para o evento no domingo, depois de seis meses de uma batalha contra as poças d’água que se formavam a cada chuva. Foram 500.000 viagens de caminhões carregando terra para nivelar a área e um mês de jornadas de 24 horas de trabalho ininterrupto, divididas em dois turnos. Na segunda-feira, uma forte chuva atingiu o Rio, e o terreno não suportou. Um trator já havia sido engolido pela lama durante as obras, e um caminhão atolou ao fazer uma entrega na manhã de quarta-feira.

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A Defesa Civil foi ao terreno e comunicou que não seria mais possível realizar o evento. “Era um clima de morte”, resumia um dos funcionários, que na sexta-feira já desmontava o Campus Fidei. Os operários estão desanimados. Durante os meses de trabalho, acharam que estavam participando de uma obra histórica. Com o tempo, fizeram amizade – entre eles e com a vizinhança. “Não queria participar da desmontagem. Estou aqui há três meses e, durante a semana, durmo no carro. Aqui, um ajudava o outro. É triste, mas não tinha como ser aqui. Se não chovesse, o povo ia comer poeira. Se chovesse, faria lama”, disse Paulo Roberto Costa, de 49 anos.

Alguns peregrinos anteciparam-se e mudaram-se para Guaratiba. Um grupo de 25 jovens, acompanhado do padre Clesio Ribeiro dos Santos, de 34 anos, chegou de Belo Horizonte na madrugada desta sexta-feira. Desembarcaram na casa alugada por 5.000 reais, a 500 metros do Campus Fidei. “Alugamos a casa há sete meses para ficar bem perto do lugar onde o papa rezaria a missa. Agora, corremos o risco de não participar da Jornada. Não tem mesmo jeito. Pelo que vi, o terreno é só terra. Parece Serra Pelada”, disse o padre.

O comércio também terá perdas. Fábio Azevedo, dono de uma loja de conveniência, e Patricia Marques, proprietária de um mercado, se juntaram para montar um esquema de venda de comida e bebida para os peregrinos. Investiram 300.000 reais em produtos, alugaram duas casas há dois meses para fazer a estocagem e a venda ao lado do Campus Fidei. Souberam na quinta que não haveria evento em Guaratiba. “É um descaso com quem está aqui. Desanimador”, reclamou Patricia, que colocou um carro de som nas ruas chamando as pessoas para o mercado, onde ela revenderá as comidas e bebidas. Fábio ficou com a outra parte dos produtos. “Mesmo revendendo mercadoria, a gente perde uns 100.000 reais”, explicou.

Outros investiram menos, como Jaqueline de Paula, de 35 anos, que pegou um empréstimo de 300 reais para comprar massa para fazer salgados. “Vou tentar vender de dia e de noite para o pessoal daqui mesmo. Fazer o que?”, disse Jaqueline. Na quinta, ela estava no ônibus quando soube que não haveria celebração em Guaratiba. Só teve tempo de ligar para o fornecedor e avisou que não queria mais os oito engradados de refrigerante. No outro lado da rua, Cesar da Cruz, dono de um bar, não se conforma com a perda e com a vergonha. “Decepção para nós. Vergonha para o país”, afirmou.

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