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Filho teu não foge à luta

O Brasil, poucos sabem, tem uma lista oficial de heróis da pátria. Seu mais recente membro é Antônio Conselheiro, que já foi visto como inimigo da República

Em Os Sertões, Euclides da Cunha retratou Antônio Conselheiro, líder religioso da revolta de Canudos, como um doido (ou “nevrótico”) que entrou para a história “como poderia ter ido para o hospício”. Pois o nevrótico acaba de ser alçado a herói nacional. O presidente Jair Bolsonaro sancionou, na segunda-feira 13, a inclusão de Antônio Conselheiro no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, também conhecido como Livro de Aço. Sim, o Brasil mantém, desde 1992, uma lista oficial de heróis, cujos nomes são solenemente inscritos em um livro metálico abrigado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília. Morto em 1897, na fase final do cerco a Canudos, Antônio Conselheiro foi um pária aos olhos do Estado, que mandou três expedições militares para esmagar o povoado que ele fundou no sertão da Bahia — mas se tornou o 68º nome da lista de heróis.

A consagração de heróis é parte da “construção da identidade” dos Estados nacionais pelo menos desde o século XIX, observa o historiador Ricardo Oriá, consultor legislativo de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados. Antônio Conselheiro adequa-se ao viés recente de reconhecer heróis antes relegados à margem da história. “É preciso dar espaço a lideranças populares”, diz Oriá. O líder que caricaturistas da época — como Agostini, autor do desenho ao lado — retratavam como um obscurantista a barrar o caminho da República agora divide a glória póstuma com o homem que proclamou essa mesma República, Deodoro da Fonseca. O marechal é o terceiro nome da lista. Antes dele, vieram dois insurgentes: Tiradentes e Zumbi dos Palmares.

Clássico do ensaísmo social brasileiro, Os Sertões já reconhecia o valor dos combatentes sertanejos de Canudos, ainda que Euclides da Cunha — número 56 da lista de heróis — explicasse o conflito nos termos da pseudociência racista da virada do século XIX para o XX. Estudiosos contemporâneos buscaram revisar o significado de Canudos na história dos movimentos populares do Brasil. Embora sua religiosidade popular pouco tenha de “revolucionária”, Antônio Conselheiro acabou sendo adotado — ou idealizado — pela esquerda (sua inclusão na lista foi iniciativa de uma deputada do PT do Ceará, Luizianne Lins). O herói que ganhou seu lugar na lista imediatamente antes, em abril, foi uma figura mais convencional das elites políticas: Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Constituinte de 1988.

Poucos brasileiros sabem desse reconhecimento oficial. “A população muitas vezes não se vê representada nesses heróis, pois os desconhece”, diz Oriá. Reconhecer-se em uma figura histórica (ou mítica), e reconhecer nela algum tipo de ideal elevado — essa era a essência do heroísmo, segundo o inglês Thomas Carlyle, ensaísta vitoriano que escreveu um livro sobre o culto aos heróis: “Eles são os modelos, os padrões e, em sentido amplo, os criadores de tudo o que a massa dos homens comuns se esforça para fazer ou obter”. Essa parece uma ideia um tanto antiquada para historiadores modernos, que — sejam marxistas, sejam liberais — tendem a se centrar nos processos políticos e econômicos e não tanto no indivíduo extraordinário que muda o curso dos fatos (haveria Canudos sem Antônio Conselheiro?). Subsistem, no entanto, controvérsias candentes sobre quais indivíduos do passado devem ou não ser homenageados como heróis. No sul dos Estados Unidos, tem havido um renhido debate a respeito da possibilidade de desmontar monumentos dedicados a líderes confederados, que lutaram para conservar a escravidão, como o general Robert E. Lee. Na França, em 2018, no centenário do fim da I Guerra Mundial, o presidente Emmanuel Macron foi atacado por apoiar a inclusão de Marechal Pétain em um memorial de soldados. Pétain, na II Guerra, aliou-se aos invasores nazistas. O herói de ontem pode ser o vilão de hoje.

Publicado em VEJA de 22 de maio de 2019, edição nº 2635

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