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“Eu me arrependi de não denunciá-lo antes”, diz ex-mulher do DJ Ivis

Pâmella Holanda, de 27 anos, foi agredida pelo ex-marido enquanto amamentava a filha do casal

Por Felipe Branco Cruz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
16 out 2021, 08h00
Pâmella Holanda -
Pâmella Holanda – (Reprodução/Instagram)

Denunciar as diversas agressões que sofri nas mãos do meu ex-marido Iverson de Souza Araújo, o DJ Ivis, foi a última gota de amor-próprio que me restava. Ele era uma pessoa explosiva, grosseira, bruta e violenta. Meu sentimento é de vergonha por mim e pela minha mãe, que presenciou algumas dessas violências. Uma delas foi registrada pelas câmeras de segurança que ele próprio instalou em casa. Era para filmar as babás cuidando da nossa filha, Mel, quando estivéssemos fora. No vídeo que eu entreguei à polícia, e que depois viralizou, ele puxa meu cabelo e me bate enquanto eu amamento nossa filha de apenas 2 meses (hoje, ela tem 1 ano). Na época, eu ainda estava no puerpério e contraí Covid-19. Ele não queria que eu amamentasse, mesmo com os médicos dizendo que eu não deveria parar.

Conheci meu ex-marido em 2018, pelo Instagram. Em 2019, começamos a namorar e, em janeiro de 2020, engravidei. Logo fomos morar juntos. No ano passado, quando suas músicas ficaram entre as mais tocadas, ele ganhou fama muito rápido. Mas nunca soube lidar com o sucesso, não estava preparado para isso. Desde o início, já demonstrava sinais de agressividade. Aos poucos, a violência comigo foi ficando banalizada. Eu achava que, com o nascimento da nossa neném, tudo iria melhorar. A mulher sempre acha que vai ter uma mudança no relacionamento e no temperamento do agressor. Mas isso nunca aconteceu.

Sair de um relacionamento assim é muito difícil. Eu era dependente dele financeira e emocionalmente. Era muito submissa. Só saía de casa se fosse com ele. Só fazia as coisas se ele me permitisse. Sem perceber, me coloquei em uma situação vulnerável. Eu nunca tinha morado com ninguém, e fomos viver juntos no meio da pandemia.

Quando, depois de mais uma agressão, eu finalmente criei coragem para denunciá-lo, pedi a ele que não voltasse para casa e entrei com uma medida restritiva na Justiça, com base na Lei Maria da Penha. Percebi que, se não fizesse isso, algo pior poderia acontecer comigo. O final de um relacionamento abusivo quase sempre é a morte. Só me arrependi de não tê-lo denunciado antes. Dias depois, na véspera de ele ser preso, eu mesma tive de sair da casa, porque meu ex tinha parado de pagar as prestações e a construtora pediu o imóvel de volta. Para piorar, recebi inúmeras ameaças nas redes sociais dos fãs dele. Eu e minha mãe ficamos com muito medo. Diziam que iriam nos matar e ameaçaram até minha filha. Fiquei escondida por mais de um mês. Até hoje tem alguns conhecidos meus aqui em Fortaleza, no Ceará, que não sabem onde eu estou morando. Se não fossem os vídeos, acho que ninguém acreditaria na minha história. Espero que ele fique preso ainda por bastante tempo.

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Logo após tudo isso, eu quis me afastar das redes sociais, pois elas são um ambiente muito tóxico. Mas sou uma influenciadora digital e esse é meu trabalho, de onde vem minha renda. Percebi que tenho um papel social e posso usar essas plataformas para encorajar outras mulheres a também denunciar casos semelhantes. Quem vive um relacionamento abusivo é anulado o tempo inteiro, mas eu sou um indivíduo. Eu trabalho, eu estudo, eu sou mãe. Existem milhões de possibilidades para a minha vida. Não quero carregar a bandeira da mulher agredida. Toda mulher sai desacreditada e com a fé abalada quando isso acontece. É um peso muito grande. Isso foi algo ruim que aconteceu comigo, mas ficou no passado. Quero olhar para o futuro e superar tudo. Sonho em ser arquiteta e, no próximo semestre, vou voltar para a faculdade, que tranquei por causa do casamento. Acredito que o pior já passou.

Pâmella Holanda em depoimento dado a Felipe Branco Cruz

Publicado em VEJA de 20 de outubro de 2021, edição nº 2760

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