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“Escondi a gravidez no trabalho — mesmo sendo dona da empresa”

Rebeca Elian relata o medo de revelar a chegada da segunda filha

Sempre sonhei ser mãe, mas nunca imaginei quanto isso afetaria minha vida profissional. Em 2010, eu me formei em engenharia de produção pela Universidade Federal Fluminense. Casei-me três anos depois e na época trabalhava com planejamento e controle de projetos na área de óleo e gás numa multinacional. Amava a empresa e enxergava perspectivas de crescimento. No início de 2015, descobri que estava grávida. Eu desejava muito ter filhos, mas, por causa do trabalho, senti mais preocupação que euforia. Como a empresa passava por gerenciamento de crise, resolvi não comunicar a gravidez. Na verdade, estava em pânico, porque meu chefe tinha planos para mim, e eu aguardava por eles. Passei meses tentando disfarçar a barriga. Tirei férias e, quando voltei, grávida de quatro meses, não houve como esconder. Contei para o chefe, de forma desconfortável. Surpreendentemente, ele recebeu bem a notícia.

Eu trabalhava normalmente, mas, em algumas reuniões, não me sentia à vontade, porque todos sabiam que eu estaria “fora de operação” em breve. Nas últimas semanas de gestação, fiz home office, e, assim que terminei as pendências, entrei em trabalho de parto. Foi como se o corpo tivesse percebido que a bebê poderia vir ao mundo. A Helena nasceu em setembro de 2015. Fiquei quatro meses de licença-maternidade — período que passa rápido demais —, além de um mês de férias e dos quinze dias de licença-amamentação. Tudo para ficar com ela o maior tempo possível. Voltei ao escritório em março de 2016, e não foi fácil. Não tinha espaço para mim. Havia outra pessoa na minha função, e ficar longe da Helena era doloroso. Um mês após o retorno, fui demitida. Eu só pensei em correr para casa. Passados alguns meses, amigos começaram a me indicar para vagas. Eu queria ter outro filho, e só me vinha à cabeça o difícil processo de gravidez no trabalho. Não conseguia sentar para mandar currículo. Não sabia o que fazer, mas tinha certeza do que não queria. Resolvi ter um negócio próprio.

Em julho de 2017, fundei o Cria Coworking, espaço de trabalho compartilhado voltado para mulheres e mães empreendedoras. Comecei numa sala pequena, em Niterói. Em menos de um ano, o negócio cresceu e mudei-me para um espaço maior. Assinei o contrato do novo local em maio de 2018 e, alguns dias depois, descobri que estava grávida de novo. E mais uma vez, apesar de eu desejar outro filho, senti angústia. Como eu estava com negócios em andamento, parceria com a prefeitura, rodada de investimentos, não revelei a gravidez. Tive medo de que clientes e parceiros achassem que eu não daria conta — sensação igual à que vivi anteriormente. Achava que por ser dona da empresa seria diferente, mas não foi.

Lembro que, pouco antes de descobrir a gravidez, participei de uma reunião para parcerias com grandes companhias, e uma das preocupações delas era como ficaria a empresa caso eu precisasse me ausentar. Dois meses mais tarde, retornei o contato e revelei a gravidez. Infelizmente, as coisas não foram para a frente. Continuei com os eventos, planos, metas, mas sempre escondendo a barriga. Foram quase cinco meses assim. Aos poucos, as pessoas foram percebendo, mas não houve aquele momento de revelar tranquilamente e mostrar quanto eu estava feliz. Começaram a perguntar por quanto tempo eu me ausentaria. E eu deixava claro que não existiria licença. E foi o que aconteceu. Teresa, minha segunda filha, nasceu em janeiro deste ano, num sábado. Eu estava trabalhando no Cria na sexta-­feira. Entrei em trabalho de parto na madrugada. No domingo, estava em casa e, na segunda, atendia a demandas urgentes da empresa. Com 28 dias do nascimento, estava com a pequena no escritório. E continuamos assim: crescendo, as meninas e a empresa, e mostrando que é possível ser mãe e se desenvolver profissionalmente.

Depoimento dado a Alessandra Kianek

Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2019, edição nº 2651