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E às cinzas voltarás: cremação deixa de ser tabu

Procedimento é cada vez mais aceito no Brasil e em todo o mundo ocidental. Aqui, só no ano passado, houve aumento de 35%

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O que era impensável cinquenta anos atrás tornou-se realidade sem que a maior parte da sociedade se desse conta: a cremação, procedimento que as pessoas viam com horror e a maioria das religiões condenava, é cada vez mais aceita no Ocidente. No Brasil, o número de crematórios aumentou 1 000% nos últimos vinte anos; em apenas doze meses, entre 2017 e 2018, houve 35% mais cremações no país. “Não queria pensar no meu marido em lugar tão triste quanto um cemitério”, justifica a dona de casa Clinedora Montenegro, de Guaratinguetá — cidade do interior de São Paulo colada ao santuário católico de Aparecida —, explicando por que decidiu cremar José Sena, morto em decorrência de um câncer.

Um dos fatores da popularização no mundo ocidental de um procedimento comum no Oriente é justamente a mudança na maneira de encará-lo. O que antes era visto como crueldade, imagem reforçada pela revelação de que a Alemanha nazista sacrificou milhões de judeus em fornos crematórios, foi aos poucos sendo aceito como um método funerário digno e mais simples que o sepultamento tradicional. No Brasil, contribuiu muito para isso o fato de a Igreja Católica deixar claro que cremar não é pecado, posição seguida pela maior parte das religiões (veja o quadro ao lado). Também sai mais barato. Os dois métodos partem de 3 000 reais em instituições particulares, no orçamento mais básico. Mas, enquanto cremar em alto estilo custa por volta de 9 000 reais, um enterro com tudo do bom e do melhor pode passar de 20 000 reais.

Contam ainda a favor da cremação a escassez de espaço nas metrópoles e até a correria da vida moderna. “Neste mundo acelerado, não há tempo de ficar remoendo a dor da perda”, diz José Carlos Rodrigues, antropólogo e professor da PUC-Rio. De acordo com o Sincep, o sindicato dos cemitérios e crematórios do Brasil, Porto Alegre é a capital onde a cremação é mais aceita — alcança 25% dos óbitos —, seguida de São Paulo e Rio de Janeiro. Segundo estudo da Associação de Crematórios da Grã-Bretanha, entre 2017 e 2018 o número de crematórios subiu 22% no país, 55% no Canadá e impressionantes 45% na Alemanha, que superou um tabu de décadas. Nos Estados Unidos, crema-se (50,2%) mais do que se enterra desde 2016, e a previsão é chegar a 56% no ano que vem e a quase 80% em 2035.

Claudio Beluna, empresário da empresa Luna Funerária e Cemitério, explica que a cremação requer a assinatura de dois médicos-legistas (o sepultamento só exige um) e um intervalo de 48 horas depois da morte. Removidos todos os metais, a urna é transferida para dentro de um forno à temperatura média de 1 000 graus, suficiente para fazer evaporar as células do corpo e a madeira. “A ação dura cerca de duas horas. Componentes dos ossos que resistem ao calor são colocados em outro compartimento para ser triturados”, explica Alberto Benner Júnior, superintendente do Crematório do Cemitério da Penitência, no Rio de Janeiro. Os crematórios costumam oferecer uma sala para cerimônias com o caixão presente, projeção de vídeo e trilha sonora personalizada. Ao fim, a urna é removida por elevador ou esteira, com maior ou menor pompa.

O Crematório da Penitência, no Rio de Janeiro, dispõe de columbário, um ambiente climatizado com nichos individuais para as cinzas, que podem ser decorados com flores e objetos pessoais — uma espécie de túmulo sem corpo. Pode-se inclusive acessar o espaço pela internet, a qualquer momento. No Estado de Washington, na Costa Oeste americana, uma lei recém-aprovada permite que, a partir do ano que vem, os mortos sejam encaminhados para “decomposição na superfície”, em espaços preparados para transformar corpos em material de compostagem (um processo que leva, em média, quatro semanas). É a morte, ela também, adaptando-se aos ditames da tecnologia e da proteção do meio ambiente.

Publicado em VEJA de 3 de julho de 2019, edição nº 2641

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