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Derretendo na chuva

A inépcia diante dos temporais que alagaram a cidade e mataram dez pessoas enfraqueceu ainda mais o prefeito Crivella, já ameaçado de impeachment

Entre raios e trovões, com lama até os joelhos, o governo do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), faz água por todos os lados. E, nesta gestão cheia de furos, quando a tempestade é literal, resulta, lamentavelmente, em tragédia. Dois dias de chuva quase ininterrupta devastaram a cidade com alagamentos, deslizamentos de encostas, ruas coalhadas de carros levados pela enxurrada, moradores isolados — e dez mortos, número excepcionalmente alto até para uma metrópole que se inunda todo ano nesta mesma época. Paralisada, a prefeitura foi incapaz de tomar medidas para minimizar o drama anunciado — o que fortalece o processo de impeachment de Crivella, que corre na Câmara Municipal, motivado por irregularidades na renovação de contratos de publicidade.

O momento mais dramático ocorreu entre a noite do dia 8 e a madrugada do dia 10, com a busca das vítimas de deslizamentos na Ladeira do Leme, que fica entre os bairros de Botafogo e Copacabana. De um lado do morro, um táxi foi soterrado, matando uma avó e sua neta de 6 anos, além do motorista. Do outro, duas irmãs não resistiram à lama e às pedras que rolaram sobre sua casa. A Ciclovia Tim Maia, que liga o Leblon à Barra da Tijuca, desabou — pela quarta vez.

Antes, durante e depois do caos, a administração municipal errou em tudo. Os alertas de chuva forte começaram a ser emitidos ainda no sábado pelo Centro de Operações Rio, encarregado de monitorar a cidade, mas de nada serviram, até porque, desde a posse do prefeito, o orçamento para ações de controle de enchentes só faz minguar: de mais de 300 milhões de reais, caiu para 187 milhões em 2017 e para 75 milhões de reais neste ano. Em prevenção de alagamentos, o investimento em 2019 é zero. O estado de calamidade, que libera verbas emergenciais, só foi decretado três dias depois. Além da inépcia, as picuinhas pessoais do prefeito contribuíram para o caos.

Inconformado com a não eleição de seu filho, Marcelo Hodge, para deputado federal em 2018, Crivella resolveu vingar-se dos vereadores que não o ajudaram — e demitiu os apadrinhados de trinta dos 51 membros da Câmara. Sua retaliação desestruturou repartições indispensáveis para conter os danos da chuva. Em outros tempos, mais de vinte caminhões com capacidade para sugar água e desentupir bueiros eram mobilizados nessas ocasiões. Agora, foram apenas dois. Vinte funcionários saíram às ruas para tomar providências, quando, em outras épocas, o contingente chegava a 200. Até medidas corriqueiras deixaram de ser adotadas, como ampliar o contingente da Comlurb, a empresa que cuida da limpeza pública, e determinar a abertura de comportas que controlam o deságue de rios na Lagoa Rodrigo de Freitas e na Baía de Guanabara. Enfim, um desastre.

O prefeito reconheceu que faltou agilidade, mas culpou o aquecimento global: “Nunca choveu tanto em pouco tempo”. Com essa folha corrida, o impeachment de Crivella é considerado quase certo — só falta decidir quando. Como o vice-prefeito Fernando MacDowell morreu no ano passado, a lei diz que, na queda de Crivella, é necessário convocar nova eleição direta, a não ser que o impedimento se dê no próprio ano eleitoral — no caso, 2020. Nessa hipótese, cabe à Câmara escolher um substituto entre seus vereadores. Interessadíssimo em tirar sua casquinha, um grupo de vereadores pensa em arrastar o processo até o fim do ano.

Para piorar a semana infernal do bispo licenciado da Igreja Universal, o ex-governador Sérgio Cabral, que já está condenado a quase 200 anos de prisão mas resolveu confessar seus crimes, fez uma revelação. Em depoimento à Justiça, disse que, em 2008, o agora prefeito recebeu 1,5 milhão de dólares — 5,7 milhões de reais em valores de hoje — para dar seu apoio ao então candidato peemedebista à prefeitura, Eduardo Paes. O dinheiro, contou Cabral, saiu dos cofres do empresário Eike Batista. A isso, soma-se a denúncia do empresário Jacob Barata Filho, conhecido como “rei do ônibus”, segundo a qual os empresários de transporte efetuaram doações e pagaram propinas ao prefeito de 2008 a 2016. Em sua proposta de delação apresentada ao Ministério Público, Barata Filho afirmou que, nesse período, o prefeito embolsou, sempre ilegalmente, mais de 5 milhões de reais. Crivella nega tudo.

Publicado em VEJA de 17 de abril de 2019, edição nº 2630

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