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“Denuncie o companheiro agressor”, diz responsável por delegacia da mulher

Jamila Jorge Ferrari, delegada coordenadora das Delegacias de Defesa da Mulher de São Paulo, fala sobre feminicídio

Por Da Redação Atualizado em 14 fev 2020, 10h39 - Publicado em 14 fev 2020, 06h00

Para Jamila Jorge Ferrari, delegada coordenadora das Delegacias de Defesa da Mulher de São Paulo, denunciar o companheiro agressor é a única forma de interromper a escalada de violência que pode culminar no feminicídio.

Por que o feminicídio tem aumentado? Há vários fatores. O feminicídio passou a ser um agravante em 2015, então a polícia levou um tempo para fazer o registro da forma correta. Há também o fato de as mulheres terem mais coragem de denunciar e de a imprensa estar mais interessada na pauta. É um crime que existe desde sempre.

Por quê? Ninguém começa um relacionamento dando um tapa na cara. A agressão vem em escalada contínua. Os primeiros sinais ocorrem quando o companheiro sugere que a mulher não use determinada roupa, pede para ver o celular e para ela evitar certas amizades. Isso evolui para um esbarrão, tapa, soco e, em último caso, o feminicídio. Trata-­se de um crime não premeditado. Em geral, é um ataque de fúria com muita crueldade.

Explique melhor. As armas usadas são faca, martelo e a força do corpo. Há muitos casos de maridos que queimam a companheira. O feminicida agride partes importantes para a mulher, como o rosto, os seios e a vagina. Existem registros de dezenas de facadas na região da pélvis. Não é apenas matar, entende? O objetivo é deixar marcado que a companheira é sua propriedade. Muitos feminicidas podem ser bons pais, bons funcionários. A questão dele é com a mulher. Os xingamentos são sempre de caráter sexual: galinha, vagabunda, prostituta. O homem elabora um motivo para matar, quase sempre sem conexão com a realidade.

Como evitar esse crime? Além da importância de denunciar o agressor em casos imediatos, a longo prazo esse quadro só será transformado com a educação. A Espanha reduziu os casos de feminicídio porque as escolas públicas e particulares passaram a dar aulas sobre igualdade de gênero e respeito ao próximo. Não podemos esquecer: homens machistas foram criados por mulheres machistas. O machismo não está no DNA, ele é uma construção social. Enquanto as escolas não tiverem um programa para ensinar que todos temos os mesmos direitos e importância, não haverá evolução.

Publicado em VEJA de 19 de fevereiro de 2020, edição nº 2674

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