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Cracolândia: uma terra sem pai

No jogo político de empurra, a discussão sobre soluções para a explosão do consumo do crack no país e o combate ao uso da droga mais devastadora das últimas décadas descamba para o discurso simplista: a busca por culpados

“Não existe um culpado pela Cracolândia. Não dá para dizer que é culpa de uma única gestão, porque todas foram negligentes e não souberam enfrentar o problema”

Marcelo Ribeiro, psiquiatra e professor da Unifesp

O crack virou o assunto da vez nos primeiros movimentos da corrida eleitoral à prefeitura de São Paulo. A discussão ganha destaque desde a operação de repressão ao consumo da droga na Cracolândia, iniciada no último dia 3. E tem contornos eleitorais cada vez mais definidos.

Enquanto políticos empurram a paternidade do problema uns para os outros e não apresentam soluções efetivas para conter a explosão da droga, especialistas afirmam que não há como apontar um único responsável. A ausência de dados e registros oficiais dificulta ainda mais a compreensão exata do problema.

“Não existe um culpado pela Cracolândia. Não dá para dizer que é culpa de uma única gestão, porque todas foram negligentes e não souberam enfrentar o problema”, resume o psiquiatra e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Marcelo Ribeiro.

Na última segunda-feira, um dos pré-candidatos do PSDB, Andrea Matarazzo, acusou o PT de “consolidar” a Cracolândia em São Paulo. “O PT consolidou o crack na região da Luz durante os anos de gestão deles na prefeitura e hoje vem reclamar que está sendo feito tudo errado”, disse Matarazzo, em uma alusão à administração Marta Suplicy (2001-04). O PT joga a culpa nos tucanos, que, na visão do partido, abandonaram os projetos de revitalização do Centro na gestão José Serra (05-06).

A nova operação na Cracolândia gerou controvérsia entre estudiososos e serviu de munição para troca de farpas no meio político. O pré-candidato do PT à prefeitura, Fernando Haddad, por exemplo, chegou a tachar a ação de “desarticulada” e “desastrada”. Enquanto o prefeito Gilberto Kassab (PSD) defendia a operação, chegou-se a falar que a ação, mais do que desmantelar a ação de criminosos que alimentam o vício de usuários, teria pretensões políticas – ofuscar uma futura empreitada do governo federal, que poderia usar isso como trunfo na campanha eleitoral deste ano.

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Expansão – Divergências políticas à parte, o que interessa é que nem mesmo o governo federal conseguiu mapear de forma real a expansão do crack – a droga mais devastadora das últimas décadas – e apresentar soluções efetivas para erradicar a droga, que se alastrou pelas capitais de forma avalassadora e chegou aos rincões do país. O Plano de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas, lançado com pompa pela presidente Dilma Rousseff em dezembro de 2011, ainda não foi colocado em prática. Uma pesquisa que promete expor a dimensão do crack no país, encomendada pelo Ministério da Justiça à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ainda está em fase de conclusão.

O principal levantamento sobre o consumo de crack, feito no ano passado pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM) em 4.430 das 5.565 cidades brasileiras, revelou que há consumo da droga em 91% delas. A pesquisa, porém, não traz uma evolução histórica da presença do crack e carece de informações de capitais importantes, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. (clique aqui e conheça o mapa do crack)

Os dados mais antigos sobre o crack no Brasil remetem ao início da década de 2000 e não trazem números específicos sobre São Paulo. Uma pesquisa encomendada pelo governo federal ao Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em 2005, mostra um consumo discreto e estável na população brasileira entre 2001 e 2005. De acordo com o Relatório Brasileiro sobre Drogas, feito pelo Ministério da Justiça em 2009, há evidências de que a partir de 2005 o consumo do crack cresceu vertiginosamente, porém não há números que comprovem essa constatação.

Cracolândia – O surgimento de uma área de uso do crack em São Paulo é o desdobramento mais recente de um longo processo de deterioração do Centro da cidade, iniciado ainda na década de 1950.

A concentração dos “crackeiros” foi um processo natural, uma vez que o alto grau de dependência da droga exige um local onde o poder público não está presente. “As zonas abandonadas foram escolhidas por viciados em todas as cidades do mundo onde há crack”, afirma o psiquiatra e professor da Unifesp Marcelo Ribeiro.

De acordo com o estudo “Circuitos de uso de crack na região central da cidade de São Paulo”, da psicóloga Luciane Raupp e do cientista social Rubens Adorno, a procura pelo crack na região da Luz se intensificou em 1991 e alcançou grandes dimensões em 93. O estudo, apresentado na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (US), mostra que a prevalência do crack cresceu de 5,2%, em 89, para 65,1% entre 95 e 97. A droga passou a ser a mais consumida nesta região da cidade.

Por ser barato e ter devastador poder de vício, o crack atingiu inicialmente as populações mais vulneráveis: crianças e moradores de rua. No entanto, o consumo logo se alastrou para outras classes sociais. Usuários costumavam ficar confinados por horas em construções abandonadas da região para consumir a droga perto dos traficantes. O uso à luz do dia também se tornou recorrente.

Os autores afirmam que a Cracolândia ganhou status de “nação independente”, ou seja, se “consolidou”, em meados dos anos 90, entre as gestões de Paulo Maluf (1993-96) e Celso Pitta (1997-2000).

Em meados dos anos 2000 começou o “uso descarado” do crack na região. A definição da assistente social Neide de Almeida Nunes, que trabalha na Luz desde 1988, nada mais quer dizer que o uso público da droga passou a ser tolerado.

Jovem de 16 anos acende cachimbo de crack, na rua dos Gusmões, região da nova cracolândia, no centro de São Paulo Jovem de 16 anos acende cachimbo de crack, na rua dos Gusmões, região da nova cracolândia, no centro de São Paulo

Jovem de 16 anos acende cachimbo de crack, na rua dos Gusmões, região da nova cracolândia, no centro de São Paulo (/)

Caso de polícia – As investidas para desmontar a Cracolândia, em diferentes governos, foram em vão até agora. A Operação Tolerância Zero, comandada pelo então governador Mário Covas (PDB), em 1997, foi a primeira grande ação policial a prender usuários. O resultado não foi nada auspicioso: a Cracolândia apenas se deslocou de algumas quadras para outras, na mesma região central.

Na gestão Marta Suplicy não houve grandes operações policiais na região nem tampouco registro de ações sociais e de saúde. “A Cracolândia não apresentava a densidade de hoje e também não era uma das grandes preocupações da gestão”, admite o vereador e presidente municipal do PT, Antônio Donato, à época coordenador de subprefeituras.

Segundo petistas, o objetivo era recuperar o Centro sem retirar quem morava ali, como os usuários. “Nós herdamos a gestão Maluf/Pitta, que era uma gestão de truculência. O lema que nós seguimos foi de recuperação da região central sem abandonar e retirar os moradores do centro”, afirma Aldaiza Sposati, secretária de assistência social da gestão.

Aldaiza joga a culpa do crescimento da Cracolândia na gestão José Serra que, segundo ela, abandonou o projeto petista para o Centro e focou apenas na região da Santa Ifigênia, com o Projeto Nova Luz.

O pré-candidato e secretário estadual de Cultura, Andrea Matarazzo, rebateu a acusação em entrevista ao site de VEJA. “Os petistas não fizeram nada para acabar com a Cracolândia. Eles queriam melhorar o Centro sem tratar os dependentes e prender os traficantes. Falar que eliminamos projetos da região central é balela” afirma Matarazzo.

Quando lançaram o Projeto Nova Luz, em 2005, os tucanos retomaram as ações policiais na região. “Há seis anos eu falo que a única maneira de combater o crack é com polícia para os traficantes e saúde para o usuário. Me chamavam de maluco, mas sempre tive certeza disso”, diz o pré-candidato tucano.

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Batalha – Vinte anos depois de a Cracolândia sofrer um processo de “consolidação” (embora, na prática, o consumo tenha se deslocado algumas vezes, dentro de um quadrilátero), o poder público ainda tenta erradicar a droga do Centro de São Paulo. Em 2007 e 2009, o prefeito Gilberto Kassab (PSD) chegou a anunciar o fim da Cracolândia. Agora, diz que tudo será diferente, pois a cidade está preparada para tratar o dependente químico. O tempo dirá se, desta vez, haverá sucesso na empreitada.

Especialistas são unânimes ao criticar a falta de continuidade na implantação de políticas públicas de prevenção e tratamento para usuários de crack. É verdade. Mas a discussão vai muito além da busca de culpados. E há um agravante: além de ser uma questão de saúde pública, o combate ao crack é, também, e acima de tudo, uma questão de segurança pública. Não haverá sucesso sem sufocar o tráfico de drogas.

Nos Estados Unidos, além de desmantelar o esquema dos traficantes, as autoridades criaram tribunais especializados em delitos relacionados ao uso de drogas. O governo americano não conseguiu acabar com o consumo do crack, mas o uso despencou de 337 000 pessoas, em 2002, para 83 000 em 2011. Em São Paulo, a polícia – em uma ação “desastrada” ou não – conseguiu ao menos desmontar o cenário dos traficantes. O primeiro de muitos passos que a sociedade espera serem dados em busca de triunfo na batalha contra esse flagelo.