Como Roger Abdelmassih financia há três anos sua fuga da polícia

Médico foi condenado em 2011 a 278 anos de prisão por crimes sexuais contra as pacientes

Por Bela Megale e Alana Rizzo - 12 jul 2014, 08h53

Na qualidade de fugitivo mais procurado do Estado de São Paulo e um dos 160 brasileiros na lista da Interpol, era de esperar que o médico Roger Abdelmassih vivesse em condições bem mais precárias do que as que desfrutava no tempo em que era dono da clínica de fertilização invitro mais famosa do Brasil e oferecia jantares para amigos como a apresentadora Hebe Camargo. Documentos obtidos por VEJA, no entanto, mostram que o médico, condenado por 56 estupros e foragido desde 2011, não vem tendo problemas para se manter na clandestinidade. Por meio de uma engenharia financeira montada pouco antes da condenação, ele recebe remessas regulares – e polpudas – de dinheiro na conta de sua mulher, a ex-procuradora da República Larissa Maria Sacco, que o acompanha na fuga e com quem está casado desde 2010.

A notícia de que um dos especialistas mais procurados na área da fertilização in vitro era investigado por crime sexual contra suas pacientes veio à tona no início de 2009. Meses depois, Abdelmassih começou a namorar Larissa e abriu em nome dela a Colamar, firma para a qual transferiu todos os direitos e clientes de uma de suas principais empresas. A Agropecuá­ria Sovikajumi (o nome é a combinação das iniciais dos cinco filhos do médico – Soraya, Vicente, Karime, Juliana e Mirella) contava na época com capital de 2,5 milhões de reais e mantém negócios com as principais produtoras de suco de laranja de Avaré (SP).

Já a Colamar é uma empresa de fachada. Com capital de 10 000 reais, está sediada em uma casa abandonada em um terreno pertencente à família de Larissa, em Jaboticabal (SP). Não há nenhum sinal de ocupação do local. As únicas atividades da Colamar são intermediar os contratos da Sovikajumi com as produtoras de Avaré e garantir que parte da renda chegue a Roger e Larissa, que há dois anos tiveram um casal de gêmeos. Os comprovantes de remessa da Colamar para a conta de Larissa a que VEJA teve acesso datam de 2011 e 2012 e mostram transferências que, em parcelas quase nunca superiores a 20 000 reais, somam até 64 000 reais por mês em uma única conta. Contratos comerciais das empresas mostram que até 2018 essas transações estão garantidas. Em 2010, meses antes da fuga do médico, o promotor Roberto Senise Lisboa chegou a pedir a indisponibilidade dos bens de Larissa, incluindo a Colamar. O Tribunal de Justiça negou o pedido. Além de Larissa, a Colamar tem como sócia a farmacêutica Elaine Khouri, irmã mais velha da ex-procuradora. É ela quem dá a palavra final sobre as movimentações financeiras da empresa e assuntos envolvendo Larissa.

Investigadores acreditam que Abdelmassih esteja fora do país e circule no exterior com passaporte falso ou adulterado (além do brasileiro, ele tem documento libanês). Em maio, a Polícia Civil de São Paulo recebeu uma denúncia de que o médico estaria no Brasil, em uma de suas fazendas em Avaré. Numa operação de busca realizada no dia 29 daquele mês, encontrou o que acredita serem vestígios da passagem do casal. “Presumimos que Abdelmassih e a mulher tenham estado no local em algum momento no último semestre com base nos indícios que colhemos na casa”, disse o delegado Arthur Dian, chefe da operação e supervisor do Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra).

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Sobre a cama e espalhados pelo quarto do casal, policiais encontraram casacos das grifes Valentino e Chanel, chaves de carros importados, dezenas de pares de sapatos, gravatas e um porta-retrato (que ilustra esta reportagem) com a imagem de Larissa e Roger no dia do casamento. Havia ainda uma lista de roupas de mulher a serem transferidas de Avaré para Jaboticabal que a polícia acredita ter sido escrita por uma empregada da fazenda a pedido de Larissa. A lista traz a data de 30 de janeiro de 2014. Nenhum dos funcionários ouvidos pela polícia confirmou a passagem de Roger e Larissa pela fazenda. As duas empregadas que estavam no local no momento da operação disseram ser contratadas de uma agropecuária cujos donos desconheciam.

Roger Abdelmassih foi preso em 17 de agosto de 2009. Ficou quatro meses na cadeia. Foi solto em 23 de dezembro do mesmo ano depois que o então presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, acatou pedido de habeas corpus feito por seus advogados. Desapareceu no início de 2011 após novo pedido de prisão e foi declarado foragido pela Justiça.

Um grupo de ex-pacientes do médico montou a associação Vítimas Unidas, que busca, por meio das redes sociais e informantes no Brasil e no mundo, notícias que possam fornecer pistas do criminoso. “Desejamos que o Es­tado tome providências para rastrear o caminho do dinheiro e seguir as pessoas com quem esse bandido tem contato”, diz a presidente da asso­ciação, Teresa Cordioli. Pedidos recentes feitos pela polícia de quebra de sigilo telefônico e fiscal de pes­soas ligadas a Abdelmassih foram negados pela Justiça com o argumento de que, como instrumentos de inves­tigação, não se aplicam ao médico – já condenado.

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