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Censo 2010 erra ao indicar aumento de asiáticos no país

Outros resultados surpreendentes, como o salto do número de católicos apostólicos brasileiros, foram percebidos e corrigidos a tempo

Por Cecília Ritto 7 dez 2013, 05h00

Ao ser divulgado, há dois anos, o Censo 2010, com toda a sua riqueza de informações sobre a população do Brasil, trazia um dado numericamente pequeno, mas demograficamente importante. Segundo o recenseamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, o contingente de asiáticos crescera 174% entre 2000 e 2010, totalizando 1,3 milhão de pessoas, ou 1,09% da população do país. Mais curioso ainda: boa parte do ganho se dera no Nordeste, especialmente no Piauí. O estado, fora da rota dos fluxos migratórios, de uma hora para outra se transformou, proporcionalmente, no campeão nacional de asiáticos. No mundo da demografia, a novidade foi alvo de muito muxoxo e descrença desde o início. Nas últimas duas semanas, VEJA cruzou os dados populacionais com as taxas de imigração e descobriu que o Brasil recebeu menos de 75 000 imigrantes japoneses, chineses e coreanos na última década – e, ao que tudo indica, nenhum foi para o Piauí. Premido pelos fatos, o IBGE admitiu que parece ter havido um engano.

Basta conversar com pessoas das cidades envolvidas para saber que olhinhos puxados são raridade lá, se é que existem. Prefeita de Ribeira do Piauí, cidade com 4 263 moradores a 380 quilômetros de Teresina, Irene Mendes ri ao ser informada de que, segundo o censo, 8% da população de sua cidade é “amarela”. “Não tem esse povo aqui não, moça”, afirma. O município de Curral Novo do Piauí foi, nos resultados do Censo, o que mais viu inflar a sua população oriental: 556 indivíduos – 551 a mais que em 2000 – que ninguém nunca viu. “Amarelo, aqui, só se for um branco queimado”, brinca Francisco Lima, secretário de Planejamento. Embora a inflação de asiáticos se destaque no Piauí, o fenômeno se repetiu em outros lugares. Em Orizânia, na Zona da Mata mineira, o número saltou de zero para 10% dos habitantes. “Não tinha conhecimento desse aumento. Pelo que me lembro, há duas famílias de origem japonesa na zona rural e só”, diz o prefeito Ederaldo Almeida.

Num primeiro momento, o IBGE não se manifestou sobre os dados surpreendentes. Alguns especialistas chegaram a atribuir o aumento aos índices mais altos de desenvolvimento da região e à volta dos decasséguis que foram tentar a sorte no Japão. Agora, pressionado, o instituto rompeu o silêncio. “Percebemos a divergência desde que começamos a finalizar os resultados. Dentro de uma operação da envergadura do Censo, pode acontecer esse tipo de situação”, argumenta Marcia Quintslr, diretora de pesquisas do IBGE. “Estamos investigando como essa distorção foi possível e de que forma corrigi-la”. A tese de Marcia é que a população recenseada não teria entendido a definição “amarelo” no quesito relativo a raça. Especialistas rebatem dizendo que outros levantamentos, como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do próprio IBGE, não registram tal confusão.

Demógrafos independentes atribuem o erro aos próprios recenseadores – 2010 foi o ano da troca de formulários de papel por aparelhos eletrônicos que boa parte dos 191 000 pesquisadores nunca havia usado antes. Outros resultados surpreendentes no mesmo Censo, como o salto do número de católicos apostólicos brasileiros (dissidência que Roma não reconhece), foram percebidos e corrigidos antes da divulgação dos dados. O instituto chegou a informar sobre a discrepância, sem revelar suas causas. Sabe-se que, provavelmente, a culpa, de novo, foi da digitação no aparelhinho usado na pesquisa: “católico apostólico brasileiro” vinha logo antes de “católico apostólico romano”. No caso dos orientais, o erro e a demora do IBGE em admiti-lo podem, segundo os demógrafos, afetar a credibilidade do próprio Censo, um levantamento essencial para a formulação de planejamentos e políticas nacionais. “Se um dado tão flagrantemente incorreto passa despercebido, como garantir que não há outros problemas?”, questiona Carlos Pereira, do Instituto de Matemática e Estatística da USP. O IBGE diz que a informação correta só deve aparecer quando houver um novo Censo, em 2015. Este, espera-se, dotado de um dispositivo que acenda o alarme – amarelo, no mínimo – diante de resultados claramente estapafúrdios.

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