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Ameaça de milicianos deixa 210 mil sem transporte no Rio

Cooperativa de vans é proibida de circular por quatro bairros da zona oeste da cidade onde atua o grupo criminoso conhecido como Liga da Justiça

Por Pollyane Lima e Silva, do Rio de Janeiro - 29 out 2012, 17h48

A influência perversa que o crime organizado exerce sobre o transporte alternativo no Rio deu mais uma mostra de seu poder nesta segunda-feira. Como de costume, os mais afetados são moradores de áreas menos favorecidas da cidade, onde o péssimo serviço do transporte público ao longo de décadas criou espaço para grupos de vans que, não sem a vista grossa do poder público, passaram a ser controlados ou no mínimo afetados por milicianos. O resultado prático, desta vez, está na suspensão da circulação de vans por quatro bairros, deixando cerca de 210 mil moradores da zona oeste sem transporte – estimativa da cooperativa Rio da Prata, que interrompeu o serviço. A cooperativa de vans que atende a região começou a sair de circulação há quatro dias.

A Polícia Civil investiga o caso. Integrantes de um grupo criminoso teriam proibido a cooperativa Rio da Prata, com sede em Bangu, de circular pelos bairros de Campo Grande, Santa Cruz, Cosmos e Sepetiba. “A ameaça atinge 700 veículos e mais de 3.000 trabalhadores. Não estamos conseguindo trabalhar”, reclama o diretor-financeiro da Rio da Prata, Jaime de Souza Costa, que também é motorista. Segundo ele, os milicianos, que estavam “fortemente armados, vestindo coletes à prova de balas e roupas do Bope”, percorreram quatro pontos da empresa afirmando que assumiriam o controle dos transportes naquela região e exigindo propina dos motoristas. “Disseram que são eles que mandam, e que se não pagarmos vão colocar fogo nos carros”, detalha Costa. A Rio da Prata venceu uma licitação da prefeitura e opera dez linhas na zona oeste – três das quais foram bloqueadas (Padre Miguel x Marechal, Padre Miguel x Sepetiba e Cosmos x Cascadura).

Ainda de acordo com o diretor da cooperativa, a coação teria como alvo o presidente da empresa, César Moraes Gouveia, o César Cabeção, arrolado como testemunha de acusação em um processo de homicídio qualificado que será julgado nesta terça-feira. O acusado é Luciano Guinâncio Guimarães, filho do ex-vereador Jerônimo Guimarães, o Jerominho – que está preso junto ao irmão, o ex-deputado Natalino Guimarães, acusados de chefiar a milícia Liga da Justiça, que ameaça agora a Rio da Prata. “Já mandaram recado dizendo que nos matariam se fôssemos depor contra eles, mas decidimos continuar”, afirma Costa.

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O episódio da ameaça foi registrado pela 34ª DP (Bangu) e transferido para a 35ª DP (Campo Grande) e a 36ª DP (Santa Cruz), que são responsáveis pela área. Nesta segunda, dez cooperados precisaram de escolta policial para prestar depoimento sobre o caso na delegacia de Campo Grande. “Eles estavam com medo de ir sozinhos, porque sabem que os milicianos circulam normalmente por ali”, explica Costa. A prefeitura, segundo ele, também foi avisada. “Contamos com a ajuda das autoridades para voltar a trabalhar em paz.” A Polícia Civil, por meio de sua assessoria de imprensa, informou que a investigação está em andamento e, por enquanto, “os delegados preferem não conceder entrevistas para não atrapalhar”.

O diretor da Rio da Prata cita o miliciano Toni Ângelo como o chefe do bando que os intimidou. É o mesmo nome dado por Carminha Jerominho, filha do ex-vereador preso, que diz ter sido obrigada a se mudar de sua casa, em Campo Grande, por medo de ser assassinada. Vereadora do PT do B, ela não obteve votos suficientes nesta eleição para permanecer no cargo e afirma ter sido ameaçada durante todo o processo eleitoral. Antigos aliados, Ângelo e Jerominho estão rompidos e Carminha credita a esse embate o fato de não ter sido eleita.

Presidente da CPI das Milícias, o deputado estadual Marcelo Freixo acredita que um novo rompimento possa ter resultado na ameaça à cooperativa de vans. “Eles sempre conviveram. César Cabeção ganhou todos aqueles espaços. É preciso analisar por que essa ameaça foi feita só agora. É possível que tenha havido um racha entre eles. O transporte de vans é o principal braço econômico das milícias, e existe uma guerra real entre esses grupos”, pondera ele, acrescentando que o caso deve ser analisado em meio a todo o contexto (e passado) dessas relações – César é citado no relatório final das milícias. “Mas, claro, eles fizeram certo em denunciar a intimidação”, ressalva.

Os grupos que controlam cooperativas de vans deram outra mostra de poder no início da campanha eleitoral no Rio. Para pressionar o prefeito Eduardo Paes a atender uma lista de reivindicações – entre elas o uso de pontos de ônibus para embarque e desembarque – cerca de 3.000 motoristas de vans, coordenados pelos chefes de cooperativas, cercaram o estádio do Maracanã e deram um nó no trânsito da cidade. Eduardo Paes, que teria um dia de comemoração com a chegada da bandeira olímpica à cidade, teve que abortar sua agenda para gerenciar a crise.

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