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Adolescente preso a poste comandou surra em abrigo

Cinco dias antes de ser encontrado com uma tranca no pescoço, menor de idade castigou, com três amigos, um jovem acusado de trair milicianos

Nada justifica a ação de justiceiros, as punições impostas por grupos à margem das leis ou os ‘julgamentos’ paralelos. Estas são as práticas de que lançam mão as quadrilhas de milicianos, traficantes e as gangues que se aproveitam do medo e da insegurança para angariar algum poder e perpetrar ações violentas. Os ‘playboys’ que prenderam um adolescente de 15 anos a um poste com uma tranca de bicicleta, na madrugada do último domingo, na Zona Sul do Rio, rebaixaram-se ao nível dos criminosos que supostamente tentam combater. Registros da Polícia Civil aos quais o site de VEJA teve acesso mostram que a vítima da gangue, apenas cinco dias antes, tinha comandado uma surra contra outro menor, um colega do abrigo Central Carioca, da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social. Ou seja, decidiu, por conta própria, uma punição a alguém que estava em desvantagem – exatamente como fizeram os homens que o perseguiram.

A surra foi registrada no último dia 28 de janeiro. O adolescente chegou ao abrigo levado por uma equipe do Conselho Tutelar. Ele havia sido detido por ter assaltado em 3 de janeiro. A vítima, um músico de 37 anos, caminhava pelo Aterro do Flamengo por volta das 3 horas da manhã. Acompanhado de outro menor, o adolescente teria fingido estar armado e exigiu celular e mochila da vítima. Os assaltantes fugiram em direção à ciclovia, enquanto o músico buscou ajuda. De dentro de um táxi, ele avistou os dois menores e pediu ajuda a uma viatura da Polícia Militar. Os policiais conseguiram deter os assaltantes em flagrante.

Uma vez no abrigo, o adolescente se juntou a outros três menores para castigar um jovem, a quem chamava de “informante” da polícia. Ele dizia que o garoto era apontado por milicianos da Zona Oeste como “X9”. O registro da Polícia Civil detalha os nomes de todos os envolvidos nas agressões. O adolescente surrado pelo grupo disse à polícia ser vizinho do agressor. Disse também que ouviu de seus algozes a reclamação de “falar demais e o que não deve”. Não há, no registro, detalhamento sobre os delitos que levaram os outros menores para o abrigo municipal. Sabe-se, no entanto, que um deles também foi perseguido no Flamengo, na noite em que ocorreu o episódio da tranca de bicicleta.

Além do registro de roubo, a Polícia Civil tem uma ocorrência em que o adolescente vítima dos justiceiros foi detido por furto. O crime ocorreu na região do Vila Carioca, onde mora a mãe do jovem, em Campo Grande, na Zona Oeste. No registro, um vizinho da família afirma que o adolescente tem um histórico de roubos e furtos no bairro. O objeto levado foi uma furadeira elétrica. Em seu depoimento à delegada Monique Vidal, na 9ª DP (Catete), na última quarta-feira, o jovem admitiu já ter roubado o equipamento e ter participado do furto de uma motocicleta. O vizinho também afirma que a mãe do rapaz por várias vezes precisou ressarcir vizinhos de furtos praticados pelo filho.

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Os homens que prenderam o garoto a um poste com a tranca de bicicletas o acusavam de praticar assaltos na região do Flamengo. Ao prestar depoimento, ele afirmou ter sido perseguido por cerca de 30 homens “brancos e fortes”, alguns de capacete. Quatro jovens foram alvo da perseguição. Dois deles fugiram e, num segundo momento, o terceiro deles também escapou, deixando o adolescente sozinho com os ‘justiceiros’.

O episódio da tranca de bicicleta deflagrou uma onda de reação à barbárie. E expôs, também, o desespero da população do Rio com o aumento na incidência de assaltos. Na última segunda-feira, 14 jovens foram detidos, com base na denúncia de dois menores de que teriam sido ameaçados. Doze dos jovens permaneceram calados na delegacia. Dois deles, no entanto, admitiram estar “patrulhando” as ruas do Flamengo, devido ao policiamento deficiente e ao risco crescente de assaltos na região. Não está comprovada qualquer ligação entre os 14 detidos e os homens que prenderam o jovem a um poste.

A delegada Monique Vidal afirmou ao site de VEJA que tanto a agressão ao menor como os furtos e roubos a ele atribuídos estão sendo investigados. “O caso deste menor é emblemático. Estamos investigando a agressão absurda contra ele. Mas também investigamos os supostos assaltos pelos quais ele estava sendo acusado quando foi pego. Para isso, no entanto, é preciso que a população colabore e denuncie. Não adianta ficar contando casos no Facebook sem dar elementos à polícia para recolher provas e identificar os culpados”, disse.

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