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A volta da Esquina do Medo

Cena comum nas últimas décadas, a travessia de bandidos armados por duas das principais ruas da Zona Norte do Rio voltou com o desmoronamento das UPPs

Por Da Redação - Atualizado em 10 dez 2018, 09h37 - Publicado em 5 abr 2016, 07h51

Durante mais de duas décadas a esquina das avenidas Dom Hélder Câmara e dos Democráticos, que divide as favelas de Manguinhos e do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio de Janeiro, foi um território sem lei, onde bandidos transitavam livremente em ‘bondes’ armados com fuzis e pistolas a qualquer hora do dia. O lugar ficou conhecido como a Esquina do Medo até que a secretaria de segurança prometeu colocar um ponto final na desordem. E, durante algum tempo, até que conseguiu, com a instalação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e a inauguração da Cidade da Polícia Civil, em 2013. Mas isso acabou, mesmo com todo o aparato policial nos arredores. A volta da travessia livre dos criminosos armados é o sinal mais evidente de que o projeto de pacificação ali desmoronou por completo.

As imagens de uma câmera de segurança da Cidpol – obtidas pelo site de VEJA – são de um domingo, dia 13 de março. À luz do dia, exatamente às 15h48, bandidos aparecem à vontade fazendo a travessia de Manguinhos para o Jacarezinho com pistolas em punho, ordenando que os carros que passam por ali parem para a passagem do ‘bonde’. São pelo menos dez traficantes que saem de uma favela e vão para a outra sem serem incomodados.

Ambas as favelas são controladas pela mesma facção, o Comando Vermelho. E apesar da ocupação da PM, os sinais de desgaste do projeto UPP não são recentes. Foi Manguinhos que chegou a expulsar os policiais que ocupavam o território em março de 2014, ateando fogo a cinco bases da UPP. A favela voltou a ser ocupada, mas os tiroteios são praticamente diários: “Na localidade da Coreia, por exemplo, a gente nem vai mais. Se tentar entrar é tiroteio o dia todo”, desabafa um soldado.

https://www.youtube.com/watch?v=inqW8Jkr5ro

Somente este ano, oito policiais foram feridos em ataques de traficantes nessas duas favelas com UPP. Os dois últimos atentados ocorreram na semana passada. Dia 30 de março, o sargento Gilson Sotero foi ferido no braço em Manguinhos, enquanto o subtenente Roberto Ribeiro da Silva Filho foi ferido na perna no último dia 1o de abril.

‘Supercentral’ de flagrantes – O mais incrível é que, em um momento em que a região se mostra tão conflagrada, a polícia decidiu fazer uma central de flagrantes dentro da Cidade da Polícia Civil. Ou seja, a partir do próximo dia 12, qualquer ocorrência em flagrante ou com condução de testemunha – entre 18h e 6h da manhã – será realizada nesta supercentral. Dentro da PM, a medida causou desconforto. “Imagine que no meio da madrugada haja uma prisão na Pavuna. A vítima, os criminosos e os policiais terão de atravessar a cidade para fazer a ocorrência”, reclama um oficial.

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