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VEJA Música Por Sérgio Martins Música sem preconceito: de Beethoven a Pablo do arrocha, de Elis Regina a Slayer

Obrigado, Prince

Um pequeno tributo a esse gênio da música americano, morto na última quinta-feira

Por Sérgio Martins Atualizado em 30 jul 2020, 22h56 - Publicado em 21 abr 2016, 18h28

14319864679No Madison Square Garden, em Nova York, uma senhora que está sentada ao meu lado pergunta se eu me importaria com o choro dela. “Chorar? Mas por que?”, digo. “Porque eu queria tanto assistir a um show dele que minha filha me deu esses ingressos de presente de Natal”, responde ela. “Não se preocupe. Do jeito que estou ansioso em conferir essa performance é capaz que eu chore mais alto do que a senhora.” O show, no caso, era de Prince Rogers Nelson, morto na manhã dessa quinta. Tinha 57 anos e foi encontrado em Paisley Park, estúdio localizado em Chanhassen, cidade do estado de Minnesota. As causas ainda não foram reveladas, mas há tempos sabia-se que ele vinha enfrentando problemas de saúde (na semana passada o avião que o transportava chegou a fazer um pouso de emergência em Chicago para que o cantor se submetesse a um tratamento médico com urgência). Prince era uma presença constante no dia-a-dia dos adolescentes dos anos 1980, geração a qual eu pertenço. Nós assistíamos seus passos de dança em Little Red Corvette (“Quem essa cara pensa que é? Michael Jackson?”era a pergunta mais constante), sonhávamos com as tecladistas do clipe de 1999 e nos impressionávamos com o solo de guitarra de When Doves Cry.

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Purple Rain bombou nos cinemas naquele ano de 1984, mas sua produção posterior, Under a Cherry Moon (que aqui ganhou o título brega de Sob o Luar da Primavera) foi uma bomba tão grande que nem chegou a ir para as prateleiras das videolocadoras – e era ruim mesmo, apesar de ter Kristin Scott Thomas estalando de tanta beleza e sua trilha conter o sucesso Kiss, a balada Sometimes Snows in April e Mountains, na qual ele revela sua influência de Sly & the Family Stone.

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Só fui capturado definitivamente por Prince em 1987 ou 1988 (sorry, a memória às vezes dá uns trancos) quando assisti Sign O’ the Times na Mostra Internacional de São Paulo. Foi um soco no peito, um impacto semelhante aos meus primeiros contatos com a música dos Beatles, com o disco Live!, de Bob Marley, e à Oitava Sinfonia, de Bruckner, com a Filarmônica de Berlim. Prince, para mim, se revelou um Duke Ellington do funk e do soul, comandando uma banda espetacular na qual tinha como destaque a baterista Sheila E. Prince não foi necessariamente um inventor. Ele, contudo, foi quem melhor condensou a música negra produzida nos últimos tempos. Ia de Sam Cooke a James Brown, de Jimi Hendrix a Sly & the Family Stone. Cantou blues, jazz, soul, rhythm’n’blues, funk e o que mais lhe desse na telha. Na guitarra, tinha como ídolos Hendrix e o mexicano Carlos Santana. Comprei me exemplar em vinil de Sign o’ the Times assim que saí da exibição e votei no filme para ganhar a mostra daquele ano. Prince perdeu para Asas do Desejo, aquele drama insuportável de Wim Wenders. Até hoje acho que a eleição daquele ano foi uma marmelada.

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Desde então, tenho sido um seguidor fiel da música de Prince. Comprei Lovesexy, com sua capa escandalosa, a desigual trilha sonora de Batman e percorri sebos e mais sebos atrás de The Black Album, disco concebido durante as mesmas sessões de gravação de Batman. Comprei até Wendy & Lisa, formada pela guitarrista e pela tecladista da Revolution, banda dos tempos de 1999 e Purple Rain. Sexo e religião estavam entre os temas preferidos de Prince, que foi criado como adventista e se tornou Testemunha de Jeová em 2001, mas nunca deixou de cantar seus sucessos, mesmo os que tinham temas mais cabeludos.  As letras de Prince ora me atraem (Sign o’ the Times, Purple Rain), ora me chocam (Sister, Let’s Pretend We’re Married, que ele canta com todos os gemidos aos quais tem direito), mas o que sempre me atraiu foi sua musicalidade. A capacidade de criar baladas lindas como Sometimes Snows in April ou If Was Your Girlfriend (que ganhou uma versão linda do trio de R&B TLC)

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e produzir aqueles funks de rachar o assoalho como Housecake, Alphabet Street e My Name is Prince. Ou então se embrenhar pelo rock, como fez com o power trio 3rdEyeGirl, sua última encarnação.

De volta ao Madison Square Garden naquele janeiro de 2011, a abertura ficou por conta de Sharon Jones e seus Dap-Kings. A turnê daquele ano se chamava Prince Welcome 2 America onde ele fazia questão de trazer um nome no qual acreditava. Sharon foi uma das escolhidas, ao lado da baixista Esperanza Spalding e a cantora de jazz Cassandra Wilson. Mais tarde, no mesmo ano, Sharon me contaria que estava morrendo de medo de abrir para Prince. “Ele é um dos meus ídolos”, confessou ela, que fez uma de suas melhores apresentações. O cantor foi tão generoso com a banda que faria uma aparição especial no show deles durante uma apresentação em Paris.

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Mas nada se compara a Prince em cima do palco.Bruce Springsteen chega perto, mas ainda prefiro Prince. When Doves Cry tocou nas caixas de som. E depois parou. E depois tocou de novo, para parar logo em seguida. E Prince falou. “São tantos hits… E tocarei todos!” Sim, a senhora ao meu lado chorou. E eu chorei também. Perdoei até momentos de pura breguice, como quando ele pegava uma menina da plateia pela mão, a fazia sentar num sofá vermelho (sim, tinha um sofá vermelho no palco) e cantava uma balada acompanhado pelo saxofone de Maceo Parker, ex-James Brown e Parliament e Funkadelic. E fui abaixo quando as backing vocals, usando patins, cantaram Dance Disco Heat, de Sylvester. O set list abaixo mostra o quão memorável foi o show.

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http://www.setlist.fm/setlist/prince/2011/madison-square-garden-new-york-ny-6bd2de0a.html

 

Dois anos depois, reencontrei Prince em Austin. Ele fez uma apresentação surpresa para 300 pessoas numa boate da cidade. E como todo o que acontece na vida de Prince era um grande evento, dizia-se que uma de suas acompanhantes distribuía ingressos de graça pela cidade. Mas o sortudo tinha de ter uma boa vibração – isso era medido pela moça – para ser merecedor do tal convite. Na fila, havia quem oferecesse montanhas de dinheiro e até um apartamento pelo bilhete. Não vi ninguém que se dispusesse abrir mão do ingresso. Sábia decisão: houve um show de reencontro do A Tribe Called Quest (que sofreu a perda do rapper Phife Dawg há exatamente um mês). Prince subiu ao som de um naipe de metais com doze integrantes e de cara atacou 1999. Contudo, foi uma de suas pouquíssimas concessões daquela noite. Em três horas de espetáculo, ele e banda tocaram Michael Jackson, James Brown, Aretha Franklin, The Jacksons, Billy Cobham… Trocar isso por um apartamento em Austin? Tás brincando!

http://www.setlist.fm/setlist/prince/2013/la-zona-rosa-austin-tx-1bd8bdd4.html

 

Prince, ao lado de Michael Jackson e Madonna, pertenceu à santa trindade do pop. Mas ao contrário de seus companheiros de trono, o status de popstar não se traduziu em acomodação. Mudou de nome, de estilo, produziu discos de ídolos como Chaka Khan e Larry Graham (baixista da Sly & the Family Stone), recheou sua discografia com discos fabulosos com outros abaixo do padrão Prince de qualidade. Mas pelo menos arriscou. Nos últimos tempos, corria o risco de ser famoso mais pelas suas excentricidades do que sua qualidade artística. O próprio Prince colaborou muito para que isso acontecesse. Afinal, ele trouxe estoque do próprio sangue quando veio ao Rock in Rio, no ano de 1991, e nas entrevistas não permitia que sua voz fosse gravada nem sequer o jornalista anotasse suas palavras (é necessário prestar atenção em Prince!). Aliás, Fred Armisen, do humorístico Saturday Night Live, chegou a fazer uma sátira memorável do cantor, colocando-o como um exótico apresentador de talk show. O show de Austin e o álbum Hit n Run Phase One pareciam o levar de volta ao caminho da música. Que foi sua prioridade até nos últimos momentos. Ele estava compondo antes de sucumbir à tal doença misteriosa. “No começo, Deus fez o mar/ E no sétimo dia, ele me fez”, cantou em My Name is Prince. Prince era funky.

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