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Riachuelo suspende diretor de publicidade após denúncia de racismo

Ironia do destino: Ralph Choate foi quem descobriu o garoto-propaganda Sebastian, nos tempos à frente da C&A. 'Peço desculpas', disse ele

Por João Batista Jr. - Atualizado em 11 jun 2020, 14h01 - Publicado em 11 jun 2020, 11h26

As denúncias de racismo causam sua primeira baixa no mercado da moda nacional desde a criação do perfil do Instagram Moda Racista, que tem reunido acusações por parte de modelos, produtores e stylists a respeito de estilistas e marcas. Uma denúncia anônima citou o renomado publicitário Ralph Choate, dono da agência Big Man. Desde 2009, ele é o responsável por pensar e executar todas as campanhas de TV da Riachuelo, além de negociar os espaços para essa propagandas junto às emissoras de televisão. O denunciante afirmou ao Moda Racista ter escutado de Choate a seguinte frase: “Daqui a pouco vou ter que colocar um anão com vitiligo”, que seria uma referência do publicitário aos critérios de escolha de modelos nos tempos atuais.

Após o site de VEJA publicar uma reportagem sobre as denúncias do Moda Racista, caso que envolve também os nomes de Reinaldo Lourenço e Gloria Coelho, a redação da revista foi procurada por dois funcionários da Riachuelo que deram mais exemplos sobre o comportamento de Choate. Segundo eles, o publicitário só colocava — quando colocava, aliás — negros em campanhas a contragosto. Também se referia a determinadas pessoas como “gorda”, viado” e “preta” de forma pejorativa, sem cerimônia, em diversas reuniões de trabalho. Para ele, o mote das campanhas era não ter “gente com cara de pobre, pois a consumidora não gosta de se ver na TV”. Negros não passariam por esse critério. Em diversos almoços de trabalho, dentro e fora da Riachuelo, piadas de cunho racista e homofóbico eram ditas pelo publicitário, segundo as mesmas denúncias.

Ralph Choate, publicitário que descobriu o modelo Sebastian, garoto-propaganda da C&A por muitos anos: denúncias de comportamento racista à frente da Riachuelo Reprodução/VEJA

Questionada por VEJA sobre o comportamento do diretor de propaganda, a Riachuelo informa ter suspendido nesta quarta-feira, 10, o contrato com Choate e instaurou uma investigação interna sobre as denúncias. “A Riachuelo discorda de eventuais condutas como as relatadas envolvendo a agência Big Man, prestadora de serviço na área de publicidade. A empresa esclarece que este comportamento não representa os valores da Riachuelo, que tem como princípio central o respeito de forma igualitária, valorizando a diversidade, inclusão e a representatividade entre seus funcionários, em suas campanhas e outras iniciativas. A Riachuelo tão logo teve acesso a essa questão instaurou uma averiguação interna e suspendeu o contrato com a Big Man até que a apuração seja finalizada e as medidas sejam devidamente tomadas”, diz o comunicado.

Antes da Riachuelo, Ralph Choate foi o responsável pelas propagandas de TV da C&A, entre elas as realizadas pelo modelo negro Sebastian Fonseca. Procurado por VEJA, Choate refutou as acusações sobre comportamento racista e homofóbico. “Estive por trás da criação e produção de mais de mil filmes publicitários durante este período e eles talvez sejam a maior prova de que a diversidade jamais foi relegada a um segundo plano por mim”, escreveu ele em um comunicado encaminhado à redação da revista. Mas Choate também pede desculpas se ofendeu pessoas com suas palavras. “Todavia, ao longo de 40 anos de profissão, tendo participado de inúmeras reuniões para discutir o elenco de variadas produções, e diante da acusação que me fazem, é possível que, mesmo sem intenção, eu tenha ofendido alguém com minhas palavras. Se o fiz, com a mais profunda sinceridade, peço desculpas e posso garantir que redobrarei minha atenção para que isso jamais se repita”.

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O garoto propaganda Sebastian Fonseca, descoberto por Choate quando o mesmo comandava a publicidade da C&A: colegas relatam racismo Reprodução/VEJA

Aqui, a carta de Ralph Choate enviada a VEJA:

“Venho através desta carta responder ao seu pedido de manifestação sobre as denúncias de racismo que envolvem meu nome. A publicidade tem sido a minha vida nos últimos 40 anos. Foram 30 anos com a C&A e mais 10 anos com a Riachuelo. Estive por trás da criação e produção de mais de mil filmes publicitários durante este período e eles talvez sejam a maior prova de que a diversidade jamais foi relegada à um segundo plano por mim. Sebastian, o primeiro garoto-propaganda negro da publicidade brasileira é, certamente, o melhor exemplo disso. Ele, um bailarino negro, fez a marca C&A na década de 90, saltar para um patamar nunca antes pensado, tornando-se a maior empresa de moda em todo o Brasil na época. Sebastian conquistou o coração de milhões de pessoas, de todas as idades e classes sociais.

Sempre acreditei em sua força e representatividade. Antes dele, na mesma C&A, fizemos um filme de lingerie com um talentoso elenco, exclusivo de mulheres negras. Não se falava sobre empoderamento feminino e muito menos sobre empoderamento de mulheres negras 35 anos atrás. Na Riachuelo, minha primeira contribuição profissional para dar nova voz à marca, foi através do cantor Seu Jorge, enaltacendo mais uma vez a diversidade brasileira.

Também na Riachuelo, a mais recente campanha – VIVA A MODA – contempla um diversificado elenco, prezando pela representatividade de minorias, como os representantes LGBTQIA+, negros, idosos, mulheres e plus-size do filme. A inclusão e visibilidade destas comunidades é de extrema importância para a história do país que desejo. Todavia, ao longo de 40 anos de profissão, tendo participado de inúmeras reuniões para discutir o elenco de variadas produções, e diante da acusação que me fazem, é possível que, mesmo sem intenção, eu tenha ofendido alguém com minhas palavras. Se o fiz, com a mais profunda sinceridade, peço desculpas e posso garantir que redobrarei minha atenção para que isso jamais se repita.

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Repudio qualquer tipo de manifestação preconceituosa. Desejo continuar valorizando as minorias para que tenham cada vez maior destaque na comunicação brasileira”

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