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Thomas Traumann Jornalista e consultor de comunicação, é autor de "O Pior Emprego do Mundo", sobre o trabalho dos ministros da Fazenda. Escreve sobre política e economia

O governo corre atrás do próprio rabo

Acuado pela CPI da Covid, Bolsonaro se perde animando seus radicais em raro momento de oportunidade para a economia

Por Thomas Traumann Atualizado em 10 Maio 2021, 12h54 - Publicado em 10 Maio 2021, 12h53

Faltando vinte meses para terminar o mandato de Jair Bolsonaro, o governo está parado. Nenhum projeto, nenhuma ideia do que fazer, apenas as reações improvisadas de um governo acuado. Bolsonaro estrila, ameaça o Supremo e os adversários políticos, mas já fez isso tantas vezes que pouca gente presta atenção. O Ministério da Saúde é incapaz de soltar uma estimativa confiável sobre a quantidade de vacinas disponíveis. Os ministros palacianos batem cabeça, enquanto a base governista no Senado toma goleada na Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid. O Ministério da Economia vive em um mundo paralelo, de reformas que não virão. Graças ao repórter Breno Pires, do Estadão, sabe-se que o Ministério do Desenvolvimento Regional montou um orçamento paralelo de R$ 3 bilhões para comprar apoio de deputados e fugir do controle do Ministério da Economia e do Tribunal de Contas da União. É um governo que corre atrás do próprio rabo.

Depois de duas semanas de o presidente ter pedido um “sinal das ruas”, no domingo, 2, alguns milhares de bolsonaristas promoveram manifestações com a palavra de ordem “eu autorizo”, a mais explícita defesa de um golpe militar no Brasil desde as marchas da família com deus pela liberdade de março de 1964. Contrariando as expectativas presidenciais, no entanto, as marchas de domingo foram fracas. À exceção de Copacabana, no Rio, nenhum ato reuniu mais de 10 mil pessoas.

No mesmo domingo, um dos ícones do bolsonarismo raiz, o ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, postou tuíte dizendo que o governo “foi-se transformado uma administração tecnocrática sem alma nem ideal” e que “o projeto de construir uma grande nação minguou no projeto de construir uma base parlamentar”. O presidente tenta se recompor com a ala golpista do bolsonarismo.

Bolsonaro não reconheceu a frouxidão das manifestações e repetiu seguidas vezes ao longo da semana que “as ruas” pediram que ele baixe decreto proibindo medidas de governos estaduais e prefeituras a favor do isolamento social. “E, se eu baixar um decreto, vai ser cumprido, não será contestado por nenhum tribunal. O Congresso estará ao nosso lado. O povo estará ao nosso lado. Queremos a liberdade para poder trabalhar, queremos o nosso direito de ir e vir. Ninguém pode protestar isso. E esse decreto que eu baixar, repito: será cumprido, juntamente com nosso Parlamento, juntamente com nosso poder de força”, disse na quarta-feira, 5.

Na sexta-feira, 5, em uma inauguração em Rondônia, ele voltou ao tema das interdições do comércio: “O que vocês (a população) querem é muito pouco, querem respeito, querem ordem e querem justiça. E o meu dever, como chefe supremo das Forças Armadas, como chefe da execução, é dar, é garantir esse direito a vocês”.

E… nada. Nem uma nota de repúdio, daquelas produzidas aos borbotões ao longo do ano passado quando o presidente aumentava o volume de um golpe contra o STF. “Arroubo retórico”, desdenhou o ministro do STF Marco Aurelio Mello. Nem nas redes sociais bolsonaristas as ameaças do presidente de gerar novo impasse constitucional contra o STF foram levadas a sério.

Tentando desviar a atenção da CPI da Covid, na quarta-feira Bolsonaro disse que a China teria se beneficiado economicamente da pandemia e afirmou que a Covid pode ter sido criada em laboratório — velha teoria da conspiração trumpista. “É um vírus novo, ninguém sabe se nasceu em laboratório ou por algum ser humano que ingeriu um animal inadequado. Mas está aí. Os militares sabem que é guerra química, bacteriológica e radiológica. Será que não estamos enfrentando uma nova guerra? E qual o país que mais cresceu seu PIB? Não vou dizer para vocês”. Com a ameaça velada de atrasos nas exportações chinesas de insumos e vacinas em função das declarações, como ocorreu em março, Bolsonaro se desdisse. “É muita maldade tentar aí um atrito com uma país muito importante para nós, e nós para eles“, disse no dia seguinte.

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Na quinta-feira, Bolsonaro tentou outra cartada. Na sua transmissão via Facebook, afirmou que “se o Parlamento brasileiro, por maioria qualificada, por 3/5 da Câmara e no Senado, aprovar e promulgar, vai ter voto impresso em 2022 e ponto final. Vou nem falar mais nada, vai ter voto impresso. Porque se não tiver voto impresso é sinal de que não vai ter eleição, acho que o recado está dado”. A ameaça foi ignorada.

Depois de dois dias em silêncio, Bolsonaro apelou para a defesa da ação policial que deixou 29 pessoas mortas na favela do Jacarezinho, no Rio. “Ao tratar como vítimas traficantes que roubam, matam e destroem famílias, a mídia e a esquerda os iguala (sic) ao cidadão comum, honesto, que respeita as leis e o próximo”, postou. Ganhou os aplausos de sempre. O que Bolsonaro faz é chamado na política de “zé-com-zé”, quando a mensagem serve apenas para quem já seu público fiel. Não se ganha um voto com o “zé-com-zé”, apenas não se perde.

Bolsonaro faz essas declarações peripatéticas para tentar desviar a atenção de dois fantasmas, a CPI da Covid e as articulações políticas de Lula. Ele está, neste momento, perdendo nas duas frentes.

A CPI da Covid está marcada por três vazamentos de informações internas. O portal UOL informou que a Casa Civil havia formulado 23 pontos de possíveis acusações contra o governo a serem usadas na CPI _ cinco a mais do que a própria oposição havia imaginado. Depois O Globo soube que requerimentos assinados por senadores governistas foram produzidos em computadores da Presidência. A revista Crusoé divulgou que a Abin teria pedido aos seus agentes para investigarem possíveis desvios de veras da saúde nos governos dos Estados para desviar o foco das investigações. Um dos alvos é Renan Filho, governador de Alagoas, filho do relator da CPI.

Os três vazamentos fazem parte da guerra interna entre os ministros Onyx Lorenzoni (Secretaria Geral), Flavia Arruda (Secretaria de Governo) e o general Luiz Ramos (Casa Civil) pelo comando da articulação política do governo. São uns trapalhões.

Na segunda-feira, 3, Bolsonaro telefonou para o presidente do PSD, Gilberto Kassab, e pediu que ele não fosse ao encontro do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Diplomático, Kassab disse que como presidente de partido precisava ir para montar os palanques regionais. Há algo muito errado quando um presidente da República com caneta na mão e dois anos de mandato não consegue convencer um dirigente a não se bandear para a oposição.

A paralisia do governo Bolsonaro vem num momento raro de oportunidade do Brasil. A retomada forte na China e nos Estados Unidos e alta das commodities trazem uma curta janela que se bem aproveitada poderia ajudar na retomada. A meta do BC de fechar o ano com juros entre 5% e 5,5% (o que significaria uma taxa real de 1,5%) devolve ao país o fluxo de capital capaz de segurar o dólar e amainar os efeitos internos da alta internacional de soja, milho, ferro e aço. Se o País conseguisse minimamente manter um calendário de vacinação seria até possível acreditar em uma alta no PIB acima dos 3%. Não é uma maravilha, mas uma perspectiva melhor do que há algumas semanas.

O estorvo é Bolsonaro e seu governo sem direção.

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