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Thomas Traumann

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Thomas Traumann é jornalista e consultor de risco político. Foi ministro de Comunicação Social e autor dos livros 'O Pior Emprego do Mundo' (sobre ministros da Fazenda) e 'Biografia do Abismo' (sobre polarização política, em parceria com Felipe Nunes)

300 mil contra Bolsonaro

Ruas cheias, Anitta, Gil do Vigor, Jornal Nacional, CPI e até a falta de chuva se voltam contra o presidente

Por Thomas Traumann Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 21 jun 2021, 15h23 | Atualizado em 22 jun 2021, 13h41
300 mil contra Bolsonaro Priorizar nos meus resultados Google

Mais de 300 mil pessoas foram às ruas no sábado para protestar contra Bolsonaro no sábado quando o país chegou na marca oficial de 500 mil mortos por Covid-19. Foram as maiores manifestações populares desde o impeachment de Dilma Rousseff em 2016. Na cidade de São Paulo, o protesto antibolsonaro levou 15 vezes mais pessoas às ruas do que o passeio de motocicletas promovido pelo presidente uma semana antes. Nas redes sociais, também houve goleada. Pesquisa da DAPP-FGV registrou 6 milhões de posts no twitter sobre as mortes da Covid ao longo da semana. O condomínio bolsonarista foi reduzido a 20%.

No sábado à noite, em editorial o Jornal Nacional traçou uma marca divisória sobre a cobertura sobre as ameaças de Bolsonaro, sem citá-lo nominalmente: “Tudo tem vários ângulos e todos devem ser sempre acolhidos para discussão. Mas há exceções. Quando estão em perigo coisas tão importantes como o direito à saúde, por exemplo. Ou o direito de viver numa democracia. Em casos assim, não há dois lados”. A reação de Bolsonaro foi destratar a repórter de uma afiliada da Globo se dizendo ser um alvo de “canalhas”. O presidente não fez nenhuma menção de respeito às vítimas da Covid.

Na segunda-feira (21), a cantora Anitta e o ex-BBB Gil do Vigor defenderam o impeachment de Bolsonaro em suas redes socais, rompendo o cuidado que cerca as figuras públicas. com temas políticos.

A CPI da Covid, que apesar das vaidades conseguiu provar que o presidente foi negligente na encomenda de vacinas, começa nesta semana a investigar os lucros dos laboratórios dos remédios recomendados por Bolsonaro para o combate à Covid. A charlatanice do presidente garantiu a venda de mais de R$ 200 milhões de remédios de laboratórios que, não por coincidência, pertencem a empresários que apoiam o presidente. A linha principal da CPI é descobrir se o lucro chegou à família Bolsonaro.

As possibilidades de um impeachment de Bolsonaro são nulas, mas o clima no País está mudando. Acostumado a intimidação com método, o bolsonarismo está se sentindo acuado.

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“La Dictadura Perfecta” (A Ditadura Perfeita) é um filme mexicano de 2014 que conta como uma grande emissora de TV vende serviços de assessoria de comunicação para melhorar a imagem de um governador filmado recebendo propina. Para superar a sucessão de escândalos dos políticos (quase todos contratam a TV para se proteger), a tática é produzir um outro problema ainda maior, desviando a atenção do público. Assim, as frases racistas do presidente são eclipsadas pelo vídeo do governador corrompido e o atentando a um opositor some do telejornal quando ocorre um sequestro de crianças. O esquema é batizado de “caixa chinesa”, que traz dentro uma outra caixa, que esconde outra caixa e assim sucessivamente (o filme está em exibição na Netflix).

A comédia mexicana é sobre as relações do ex-presidente Enrique Penã Nieto com a rede Televisa, mas poderia ser sobre Jair Bolsonaro, a coleção de veículos amigos e a poderosa milícia digital.

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O Brasil perdeu 500 mil pessoas para a Covid-19, a vacinação é falha e lenta, o desemprego é o maior da história, a miséria aumentou, a inflação bate em 8% em doze meses, o Ministério do Meio Ambiente é investigado por corrupção, o filho do presidente é investigado por corrupção, o Ministério da Saúde é investigado por corrupção….

É raro achar um indicar de qualidade de vida que tenha melhora desde a posse de Bolsonaro, mas no discurso do governo a culpa é sempre dos outros. Este é um governo que não se responsabiliza, que distribui culpa para outros e que como os personagens do filme mexicano, vive de produzir caixas chinesas.

A Covid matou 500 mil brasileiros? Ah, o número está superestimado e muitos morreram por se recusar a fazer o tratamento precoce.

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Bolsonaro recusou dezenas de vezes a encomendar vacinas? Mas ofereceu tratamento precoce em todos os postos, e hoje o Brasil é dos líderes em número total de vacinados.

O tratamento precoce não funciona? Mas há estudos que dizem que funciona, além do mais a tia do meu cunhado em Rancho Queimado…

Bolsonaro ameaça a democracia? Ora, quem está restringindo o poder do presidente são os ministros do Supremo.

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O Brasil está com desemprego recorde? A culpa é de prefeitos e governadores que reduziram o horário de funcionamento das empresas.

A inflação é a mais alta desde 2015? Mas qual a culpa do presidente se os alimentos subiram tanto.

Os juros subiram? O índice da Bolsa de Valores está batendo recordes.

Em breve, o Brasil chegará a 600 mil mortos, depois 700 mil… Pode faltar energia e com certeza a conta de luz ficará mais cara. O reajuste vai impactar na inflação, aumentar os juros e atrasar a retomada. E ao invés de governar, Bolsonaro vai arranjar algumas caixas chinesas para desviar a atenção.

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