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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

Presidenta x presidente: a língua também pode ser política

Por Sérgio Rodrigues - Atualizado em 31 jul 2020, 13h52 - Publicado em 21 out 2010, 14h13

“Estou com uma dúvida sobre a palavra ‘presidente’. Na campanha eleitoral, o presidente Lula se referiu a Dilma como a próxima ‘presidenta’. Eu queria saber se está certo o feminino de presidente: presidenta.” (Karla Emerich)

Como em tantas questões de língua que vêm parar aqui, convém abandonar logo de saída as noções estreitas de certo e errado. Não está errado usar “presidenta” como feminino de presidente, assim como não está errado tomar presidente como palavra de dois gêneros, invariável. Esta é a forma dominante, aquela uma variação emergente – que, no entanto, já foi reconhecida por nossos principais dicionários.

Esquecida a ideia primária de erro, a discussão fica bem mais interessante. A lógica desse tipo de embate na língua costuma ser muito mais política do que técnica.

Os argumentos a favor de presidente como substantivo e adjetivo de dois gêneros costumam se concentrar em duas frentes, ambas fortes. A primeira é a tradição dos bons autores, que sempre se inclinaram maciçamente por essa forma. A segunda é etimológica: vinda do latim praesidentis, particípio presente do verbo praesidere (tomar assento à frente), a palavra seria invariável desde a origem. Se são indiscutivelmente invariáveis até hoje termos como assistente e dependente, de formação semelhante, e a ninguém ocorre dizer que tem uma assistenta ou uma dependenta, por que precisaríamos da palavra “presidenta”?

Do lado oposto, porém, os argumentos também são consideráveis. Descobrimos que os tais bons autores podem ser invocados com sinal trocado. Parente, por exemplo, também é um termo unissex, mas isso não impediu a palavra “parenta” de ter amplo uso desde a infância do português, inclusive na obra de Machado de Assis (encontramos certas “qualidades de senhora e de parenta” em “Memorial de Aires”, por exemplo). Etimologia, afinal, nunca foi uma camisa-de-força que constrangesse as mudanças da língua. E se, como diz o jornalista Marcos de Castro em seu curioso livro “A imprensa e o caos na ortografia”, de 1998, falar em “a presidente” for “machismo puro, vigente na velha gramática como em tudo no passado”? Em outros termos: só não se usava “presidenta” porque a sociedade não admitia que uma mulher presidisse coisa alguma.

No fim das contas, cabe ao falante julgar os méritos de cada palavra e fazer sua escolha – exatamente como na política. Ou fazer sua escolha de forma inconsciente, de orelhada – o que também ocorre com frequência, infelizmente, na política.

E para não dizerem que fiquei em cima do muro: no meu dicionário pessoal, presidente é uma palavra de dois gêneros. Acho que tem sonoridade melhor, além de evitar um possível surto politicamente correto que acabe por povoar o mundo de (argh!) gerentas, atendentas e adolescentas. Se o Brasil terá ano que vem um presidente ou uma presidente, só pretendo mudar o artigo.

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