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Por que trollam os trolls?

O substantivo troll e o verbo trollar ocupam hoje, em português, aquela terra de ninguém em que neologismos, estrangeirismos e termos de gíria em geral podem ser ao mesmo tempo negados – uma vez que, do ponto de vista dos lexicógrafos, “não existem” – e afirmados cotidianamente pelos usuários.

É provável que, no fim, vençam os usuários, obrigando os dicionaristas a recorrer a algum artifício como adaptação de grafia ou recomendação de itálico a fim de salvar as aparências. Nem sempre é assim: a aceleração dos fluxos globais de comunicação provocada pela internet exacerbou a adoção de modismos linguísticos bobinhos que não duram mais que dois verões. Troll e trollar, porém, não estão nesse caso.

Importados do inglês, onde teriam surgido no jargão micreiro entre o fim dos anos 1980 e o início dos 1990, são termos de grande utilidade para nomear um personagem – e seu comportamento – tão onipresente quanto espalhafatoso da fauna digital.

O troll é o encrenqueiro da internet, o sujeito que, em grupos de discussão e frequentemente sob a proteção do anonimato fornecida por um nick (pseudônimo digital), dispara ofensas, sustenta argumentos descabidos ou anuncia conclusões peremptórias nas quais muitas vezes nem ele mesmo acredita, com o intuito de levar o interlocutor a perder a paciência e baixar o nível da discussão, desmoralizando-se.

A definição acima é sumária (para maior aprofundamento, recomendo este curioso verbete da Wikipedia), mas basta. Se você não passou os últimos anos em outra galáxia, já deve ter cruzado com hordas de trolls por aí. Talvez tenha até, num surto de revolta moral, mordido a isca de um ou dois deles. Eu confesso que já.

A ideia de isca é fundamental para a compreensão da formação dessa gíria em inglês. O verbo to troll, vindo do francês arcaico troller, existe desde o fim do século 14 no idioma de Shakespeare. Tinha a princípio o sentido de “andar a esmo (em busca de caça)”, mais tarde ampliado para “pescar com linha em movimento” e “servir de isca, atrair”. Nos anos 1960, virou uma gíria gay para “sair em busca de parceiros sexuais”.

No entanto, é interessante notar como o substantivo homônimo troll, “anão ou gigante mitológico escandinavo”, que a princípio não tinha relação alguma com o verbo, acabou por se incorporar ao novo sentido da palavra. O nome daquelas criaturas humanoides gigantescas e repulsivas da série de filmes “O senhor dos anéis” (foto) também ajuda a desenhar o perfil desse personagem acanalhado que é o troll internético. Fuja dele.

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