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O blecaute morreu, viva o apagão!

O grande escritor espanhol Javier Marías, autor de “Coração tão branco”, disse outro dia numa entrevista que “hoje tudo se incorpora, tudo se torna velho, antigo” com velocidade inédita. A observação se aplica à rapidez com que a Palavra da Semana, apagão, que em termos de tempo histórico é uma recém-chegada em nossa língua, tomou assento no vocabulário dos brasileiros e borrifou um indisfarçável halo de naftalina no termo que, até o início dos anos 1990, era o único usado pelo país para nomear um grande colapso de energia elétrica: blecaute.

Ao contrário da coisa em si – a falha técnica que deixou às escuras oito estados do Nordeste na madrugada da última sexta-feira, por exemplo – o apagão-palavra é uma boa notícia. Isso não quer dizer que blecaute (forma aportuguesada do inglês black-out), um termo da primeira metade do século 20, não fosse um estrangeirismo simpático. Blecaute tinha até um pé na cultura popular como nome artístico de Otávio Henrique de Oliveira (1919-1983), o cantor – negro, será preciso dizer? – de marchinhas de carnaval como “Maria Candelária” e “General da banda”.

A superioridade que vejo em apagão, e que ofereço como explicação para sua vitória esmagadora sobre a palavra que a antecedeu no posto, nada tem a ver com nacionalismo linguístico. Mesmo porque sua matriz mais provável é o espanhol apagón, o que nos deixa diante de mais um estrangeirismo. Seu grande trunfo é a terminação em ão, esse som que os estrangeiros não conseguem pronunciar direito e pelo qual, seja por gozação, seja por exaltação, temos inegável predileção. Com ele, tomamos posse do apagão.

Já não foi dito que nomear uma coisa é o primeiro passo para dominá-la? Amém.

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  1. Comentado por:

    REINALDO CHAVES DA SILVA

    CARO JORNALISTA, NA MATEMATICA ASSIM COMO NA LINGUA PORTUGUESA, A ORDEM DOS FATORES OU SINONIMO DE UMA PALAVRA, NÃO ALTERA EM ABSOLUTO O RESULTADO DA INCOMPETENCIA DE QUEM ADMINISTRA O SETOR ELETRICO BRASILEIRO, CAUSANDO PREJUIZOS ENORMES EM HOSPITAIS, DELEGACIAS, COMERCIO, INDUSTRIAS, ETC, E AINDA ME VEM UM “CARA PALIDA” DIZER QUE NÃO HOUVE O TAL “APAGÃO”.ORA, ORA CARA PALIDA, QUE DIZER QUE METADE DO BRASIL FICA AS ESCURAS E NÃO HOUVE APAGÃO? A PRESIDENTE DEVERIA PELO MENOS COLOCAR UM TECNICO NO COMANDO DESTE MINISTERIO, PELO QUE SEI, O SR. EDSON LOBÃO, DE ENERGIA, SO SABE É LIGAR E DESLIGAR UMA LAMPADA. ABRAÇOS REINALDO CHAVES DE SÃO LUIS/MA

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  2. Comentado por:

    Gerson (PR)

    Com certeza se trata de um espanholismo. O número deles vem aumentado ultimamente, talvez devido à consolidação do Mercosul. Este, pelo menos é até simpático. Um intolerável é o uso do verbo seguir no sentido de continuar.
    Lobão, dizer que não houve apagão não pode não. Tá de gozação?

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  3. Comentado por:

    Valsh

    Excelente! Amo as palavras, tanto as perfumadas com naftalina como as cheirando a talquinho de bebê.
    Parabéns, e obrigada pelo prazer dessa leitura!

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  4. Comentado por:

    niki vanderval

    Brasil vive um apagão geral: do setor elétrico, da meritocracia, da cultura, da educação, da ética e da honestidade.

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  5. Comentado por:

    Sou eu mesmo!

    O governo Lula desdenhou qualquer tipo de idéia de manutenção e de investimento em infraestrutura – Seja em estradas, ferrovias, aeroportos, portos, energia elétrica – não investiu como deveria em Saúde, Educacão, segurança e reequipamento das FFAA. Os resultados um dia aparecem, e estão aparecendo via apagões, por exemplo!
    “O governo Lula foi igual aquele herdeiro que ficou feliz em receber, casas, carros, dinheiro na conta bancária e saiu aproveitando o que tinha sem se preocupar com futuro – acontece que as coisas que não são cuidadas, acabam!

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  6. Comentado por:

    Licia

    Em “Jangada de pedra”, o Saramago narra um apagão na Europa de um modo muito parecido com esse post (ou seria melhor “publicação”?), porque ele vai dizendo o nome que o apagão recebeu em cada país. Teve “black-out”, teve “apagón”, não me lembro dos outros, mas em Portugal foi “negrum”.

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  7. Comentado por:

    Fernando Montenegro

    Belo exemplo da evolução das línguas! ‘Black-out’, termo criado para designar precisamente a escuridão intencional quase total destinada a impedir a localização de alvos para bombardeio noturno, e que tinha tudo a ver com o bloqueio externo de luzes, não com o fornecimento de eletricidade, passou em inglês a designar também a queda total do fornecimento de energia da rede em certa região. ‘Blecaute’, tendo servido a mesma função, também acompanhou essa generalização, mas está sendo, felizmente, suplantado por ‘apagão’ no sentido mais amplo de falta generalizada de eletricidade. E ‘apagão’, por sua vez, já se generaliza e designa outras quebras de provisão de serviços essenciais, como os de transporte aéreo. (Impensável dizer ‘airline blackout’ em inglês!)
    p.s. ‘Blackout dates’ em ofertas de uso de pontos de programa acumulados são outra estória.

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