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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

Monólogos da linguiça

Entre as ameaças à liberdade de expressão, a força bruta usada pelos terroristas que massacraram os humoristas franceses é certamente a mais violenta e chocante, mas talvez não seja a mais efetiva. Duas notícias que circularam com relativa discrição nos últimos dias – uma nos Estados Unidos, outra na Inglaterra – demonstram o estrago que […]

Por Sérgio Rodrigues Atualizado em 31 jul 2020, 02h18 - Publicado em 18 jan 2015, 09h00

linguicaEntre as ameaças à liberdade de expressão, a força bruta usada pelos terroristas que massacraram os humoristas franceses é certamente a mais violenta e chocante, mas talvez não seja a mais efetiva.

Duas notícias que circularam com relativa discrição nos últimos dias – uma nos Estados Unidos, outra na Inglaterra – demonstram o estrago que pode fazer o cala-essa-maldita-boca quando o inimigo se julga imbuído das mais virtuosas intenções.

Um colégio americano só de mulheres, o Mount Holyoke, do estado de Massachusetts, decidiu – por deliberação das próprias estudantes – suspender a apresentação da famosa peça “Monólogos da vagina” (leia mais, em inglês, aqui).

Motivo: “No fundo, o espetáculo oferece uma perspectiva extremamente estreita sobre o que significa ser uma mulher”. Tradução: mulheres transexuais não estavam representadas. Hein?

Achei mais grave ainda, por envolver uma instituição venerável da cultura britânica, a revelação – confirmada pela editora – de que a Oxford University Press está instruindo seus autores de livros infantis a evitar toda menção a “porcos, linguiça ou qualquer outra coisa que sugira carne suína”.

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Motivo: não ofender jovens leitores muçulmanos e judeus. Peppa, nem pensar. Tradução: You’re joking, right?

Acabei de ler isso e fui correndo buscar na estante um livrinho brilhante lançado em 1993 pelo falecido crítico de arte australiano Robert Hughes, chamado “Cultura da reclamação”. Trata-se de uma condenação feérica de nossa “infantilizada cultura da lamentação, em que o Papaizão é sempre o culpado, e a ampliação de direitos prossegue sem a outra metade da cidadania – a ligação com deveres e obrigações”.

Certeiro, Hughes faz sobre os EUA uma constatação que vale para todo o Ocidente: “O ego é hoje a vaca sagrada da cultura americana, a autoestima é sacrossanta… A gama de vítimas existentes há dez anos – negros, chicanos, índios, mulheres, homossexuais – hoje foi ampliada para incluir toda variação do gago, do cego, do aleijado e do baixo… É como se todo encontro humano fosse um grande ponto sensível, eriçado de oportunidades de involuntariamente distribuir, e receber, ofensas”.

Sendo assim, nada de vaginas nem de linguiças porque o pessoal pode se ofender e não existe o que seja pior do que isso. Aliás, o fato de vaginas e linguiças aparecerem na mesma frase já é em si terrivelmente ofensivo, vocês não acham?

Por essa infeliz coincidência o autor pede desculpas a todos os seus leitores e leitoras de todos os sexos e religiões já inventados ou ainda por inventar, está bem?

Que mundo mais idiota vamos deixar para os nossos filhos.

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